Richard Rorty (1931-2007)

"A tarefa genérica do ironista é a que Coleridge recomenda ao poeta grandioso e original: criar o gosto pelo qual será julgado (R. Rorty, 1989)"


Para Rorty a criação do gosto que nos julga só pode ser pensável numa relação de agonismo com o que presentemente nos "julga", ou seja, aquilo que nos constitui como sujeitos, as regras presentes na linguagem disponível para tentar a verdade: "só as frases podem ser verdadeiras e os seres humanos fazem verdades ao fazerem linguagens nas quais formulam frases".

Numa óbvia filiação intelectual com a linhagem de Nietzsche, Foucault e Heidegger, o combate primeiro encetou-o Rorty contra a presunção fundadora da filosofia moderna em Filosofia e o Espelho da Mente (1979). Na verdade, a filosofia aparece-lhe na mira tanto como alicerce como epifenómeno do quanto a epistemologia moderna se estabeleceu na fé de fielmente representarmos o real. Tratava-se para Rorty de perscrutar a filosofia do século XX para nela denunciar a continuada influência das construções cartesianas, em particular, a centralidade da metáfora ocular onde se ancora a ideia do "olho da mente", no fundo a ideia que uma mente disciplinada pelos rigores do método científico está treinada para ver o real como ele é: "Na concepção de Descartes -- aquela que se tornou a base da epistemologia «moderna» -- o que está na «mente» são as representações. O olho interno vigia estas representações, esperando encontrar uma qualquer marca que testemunhe a sua fidelidade". Rorty erige-se contra a indisputada persuasão da "mente humana como um espelho onde é possível as imagens do mundo serem reflectidas".
Um dos aspectos mais provocativos nesse bem ensaiado ataque à durabilidade da hegemonia positivista é o modo como Rorty vê a ciência moderna como herdeira daquilo que procurou contrapor na metafísica, ou seja, um mundo que só se poderia perceber por apelo aos insondáveis mistérios do seu autor, Deus. Como argumenta Rorty, a ideia de que existe no mundo uma natureza intrínseca à qual seria possível aceder é, em certa medida, um remanescente da ideia do mundo como um projecto coerente divinamente elaborado. Assim, a ciência moderna labora na ideia de um mundo ordenado por regularidades perfeitas, ora, este é ainda o mundo feito por Deus. Esta leitura leva Rorty a dizer sem pudores que a maior parte dos intelectuais continua ligada a alguma forma de fé religiosa ou de racionalismo iluminista.

Em Contingência Ironia e Solidariedade (1989) Rorty é mais propositivo, digamos que ousa afirmar o gosto por que gostaria de ser julgado. Para tanto cruza as mesmas ideias sobre a verdade e o saber que já aventara n'A Filosofia e o Espelho da Mente com a sua concepção política da vida em sociedade. E assim cria a figura do Ironista liberal. Os liberais: "são as pessoas que pensam que a crueldade é a pior coisa que podemos praticar". Os ironistas: "tipo de pessoas que encara frontalmente a contingência das sua próprias crenças e dos seus próprios desejos mais centrais – alguém suficiente historicista e nominalista para ter abandonado a ideia que essas crenças e desejos centrais estão relacionados com algo para além do tempo e do acaso".

Estou com ele no ironista, abjuro o seu liberal que, como veremos, é bem mais "ideológico" do que a definição poderia deixar entender. Começo pelo que me enfaticamente me liga à obra de Rorty: o ironista. O ironista é uma espécie de radical que se percebe dentro dos limites das referência por que se fez gente: "a ironista passa o seu tempo a preocupar-se com a possibilidade de ter sido ensinada na tribo errada, de ter sido ensinada a jogar o jogo de linguagem errado". Por aqui perpassa o Dasein de Heidegger: as pessoas que não são capazes de suportar o pensamento de que não são as suas próprias criações. Por aqui perpassa também o génio (daimon) que Freud libertou para a cultura ocidental: "Freud democratizou o génio ao atribuir a todos um inconsciente criativo". Rorty visita também as paragens Harold Bloom ao falar da angústia do sujeito contra a história (os predecessores literários para Bloom, para Rorty o presente sociocultural legado pela história): "os seres humanos não podem escapar à sua historicidade: "o máximo que podem fazer é manipular as tensões dentro da sua própria época a fim de produzir os começos da época seguinte ".

A pujança desconstrutiva com que Rorty carrega o ironista, bem como a ideia de que todas as tribos se fecham nas suas convicções, concilia-se, não sem desconcerto, numa leitura do liberal como alguém que percebe ter chegado ao fim da história política: "Na verdade a minha sugestão é a de que o pensamento social e político ocidental poderá ter tido a última revolução intelectual que necessitava". Ou seja, Rorty, numa proposta com óbvios laivos de evolucionismo social, considera que todas as possibilidades presentes e futuras se contemplam no modelo de democracia liberal. [Aparte: Nada diz sobre o sistema económico que se vem confundindo e engolindo a democracia liberal e, nesse sentido, parece ignorar como a sua definição de liberal (alguém que julga que a crueldade é a pior coisa que podemos praticar) é afrontada pelas formas de crueldade impostas pela voracidade capitalista, a mesma que segue de mão dada com as democracias liberais.] Valha-nos que a proposta de Rorty não exige o pack todo, como ele próprio lembra: "Michel Foucault é um ironista que não está disposto a ser um liberal, enquanto Habbermas é um liberal que não está disposto a ser um ironista".

Só o talento e a marca que Rorty deixou permitem explicar que, antes de qualquer piropo de engate, eu aspire a que me segredem ao ouvido "meu ironista não liberal".
"Fracassar como poeta—e portanto, para Nietzsche fracassar como humano – é aceitar as descrições que outra pessoa faça de nós, executar um programa previamente preparado, escrever quando muito, variações elegantes de poemas anteriormente escritos. Assim, a única maneira de identificar as causas de sermos como somos seria contar um história sobre as nossas causas numa nova linguagem."

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