Beckham

Quem conhece o Beckham socialite, homem de imagem rentável e mulher lamentável, poderá bem passar ao lado de um facto essencial: o jogador. Se é verdade que a certa altura o mediatismo colocou Beckham num patamar que futebolisticamente não era o seu, não deixa de desconcertar como sempre se pontuou por um absoluto low profile em tudo que respeita à ritualidade desportiva: foi sempre dos primeiros a chegar ao treino, poucos superam a média de quilómetros que faz em campo, os livres devem-lhe muitas horas extraordinárias. Se a isto juntarmos o facto de que a sua mais valia -- colocação estupidamente exacta de bola no espaço -- deve mais ao labor operário do que ao talento puro, bem como a insólita circunstância de que pura e simplesmente não sabe fintar, gesto técnico que classicamente sinaliza o talento em futebol, podemos dizer que estamos perante um jogador que se configura no jogo, sentido estrito, como a antítese daquilo que representa socialmente. Depois de Fabio Capello ter dito que não contava com ele, depois de Steve Mclaren o ter descartado das convocatórias, depois de um contrato milionário assinado com os LA Galaxy, era justo supor o ajustamento a um programa de baixo dispêndio de energia. Mas Beckham nunca foi um Dani, um deslumbrado com os privilégios da fama e da beleza, Beckham optou por penar aquele mínimo que permite durante uns curtos anos, afeitos à posteridade, colher do futebol o doce fruito.
Continuou a treinar afincadamente como se nada fosse. Ao que Capello, conhecido como o sabotador pelo modo como cirurgicamente estilhaça os clubes antes de os deixar, decidiu suspender a sabotagem com que já se despedia do Real Madrid, talvez para ainda tentar ganhar o campeonato, só naquela. Para a logística desse devaneio não teve outro remédio senão puxar da celebridade e deixá-la jogar à bola. Também Steve McLaren não teve outra saída senão seguir-lhe o caminho (depois do jogo contra a Estónia percebe-se a bondade do seu aventado despedimento caso ousasse não convocar o Beckham). Após uma reversão dramática de expectativas, este fim de semana o Real Madrid poderá sagrar-se campeão muita a expensas do regresso de Beckham. Eu, anti-madrileno convicto, vejo-me na inédita posição de querer que assim seja por absoluto interesse em acompanhar a resiliência de Beckham às notícias do seu desaparecimento.



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