Sarkozy vs Ségolène Royal: o debate

Vídeo aqui (em 3 partes).

Os debates não se compadecem com a inerente bondade das ideias, dependem sim da capacidade telegénica de se passarem essas ideias como boas a bem do perfil político de quem as profere.
Ante uma Ségolène cuja performance não se livrava de um nervosismo miudinho e da consequente dificuldade em ser mais "naturalmente" escorreita, Sarkozy, ensaiadíssimo, seguro e calmo, levava clara vantagem até ao último quinto do debate (nisto discordo da leitura optimista da Ana Gomes). É nessa altura em que se forja um momento paradigmático: veio a propósito da inclusão das crianças com deficiência no sistema regular de ensino.

Ao tentar escapar a uma fase menos boa em que vinha perdendo ascendente (exactamente no debate das escolas), Sarkozy brandiu a possibilidade das famílias colocarem o Estado em tribunal sempre que os seus filhos com deficiência encontrassem barreiras no acesso ao ensino regular. É então que uma Ségolène, vinda de não sei onde, bem vinda, com uma têmpera que não lhe suspeitávamos, bela têmpera, acusa Sarkozy de pura imoralidade política. Explica. Havia sido a própria Ségolène a criar uma ambiciosa estrutura de auxiliares educativos no apoio à inclusão, estrutura essa que, sob forte contestação das associações de pais, foi drasticamente desmobilizada no governo de que Sarkozy fez parte. O homem visivelmente entalado, pose para o galheiro, recomendou calma a Segolène, mas esta, sempre com o dedo apontado, reclamou o seu direito à raiva reiterando-se irada perante a imoralidade política da demagogia de Sarkozy (creio não distorcer o ocorrido, podem confirmar a partir do 43 minutos e 40 segundos da terceira parte do debate).

Num debate que corria de feição a Sarkozy, este momento, também pelo contraponto à sinceridade na raiva de Ségolène, poderá ter tido a capacidade paradigmática de desmontar algo do populismo de plástico no ethos de Sarkozy. E daí talvez seja o meu wishful thinking.

Eu votava Ségolène sem ter de virar a cara para ou lado. Já as esquerdas puristas, já se sabe, só muito a custo: pouco se comovem com o espaço de manobra consentido pelo adversário ou pelo clima sociopolítico de expectativas. Recriar as estruturas de contingência implica a capacidade prévia de as saber considerar nas micropolíticas.



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