Sócrates e outras maçadas

A actualidade do debate público às vezes enfastia. Ressalve-se, eu gosto muitíssimo de actualidade, e, mais se perceba, embora ciente das limitações constitutivas do exercício, adoro zurzir sobre o burburinho das opiniões que se acotovelam enquanto o ferro ainda está quente. Mas, ao contrário do que gostaria, não consigo ter como triador central para a minha afectação ao debate público a oposição entre o que é importante e o que não é importante. Pecado, bem sei. Sem me ver a ajoelhar à dimensão de espectáculo que recobre determinada discussão ou determinada realidade discutida, o que é facto é que a linha que divide o importante/desimportante, sociopoliticamente falando, cede muitas vezes lugar à divisão entre o que me é interessante e o que me provoca tédio. Exemplo: a discussão sobre o Tratado de Constituição Europeia pode ter sido/ser muitíssimo importante, mas a seca desse tempo/actualidade foi penosa. Mortificação pura.

A questão pública da licenciatura de Sócrates reúne o pior de três mundos:
1 - Entediante (contudo, uma forma de ver Portugal a funcionar no costumeiro limbo entre a legalidade e a influência -- pessoal, política, etc.);
2- Pouco importante (interessa-me julgar "carácter público" do primeiro-ministro, e aí a trajectória pessoal vale o que vale. Decerto menos do que um permanente escrutínio sobre o modo como a cultura de influência afecta a decisão política (o relatório do tribunal de contas assusta-me infinitamente mais do que uma eventual licenciatura-expresso). -- Percebo que se possa aduzir um padrão de conduta entre o pessoal e o público. Também considero que a punição da ilegalidade deve acossar os cidadãos por igual. Agora, acho que busca de transposições directas é mais enganosa do que pretende uma certa visão totalizante do carácter individual. Somos mais fragmentados e contraditórios-sem-contradições do que isso, as passagens do privado para o público não operam necessariamente como a revelação da besta interior que tudo comanda na pessoa. Há outras "bestas" que lá dentro se digladiam e se diluem com os decisivos "chamamentos" do "exterior".
3- Afasta a atenção de vigílias sobre decisão política e sobre a diária "compleição ética" do governo que Sócrates lidera.



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