Ronaldo

Quem vê o Manchester-Milão investido nas comparações avançadas na imprensa italiana sobre o "melhor do mundo do momento" (conceito precário), não pôde deixar de se enlevar pelo profuso futebol que se esconde no estilo dengoso do Kaká, um jogador que parece estar sempre a recuperar o fôlego do aquecimento, mas cujos pezinhos, visão de jogo e arranque dissolvem sem remédio a aparência de um adolescente asmático. Assim foi. A noite foi de Rooney e Kaká, facto, mas a Ronaldo basta uma aceleração para percebermos que é um caso ímpar de prodígio. Apurará outros passes que não centros ou entregas de fim de corrida, apurará o remate com a parte de dentro de pé em arco para se tornar ainda mais temível nas suas vindas da esquerda (o remate dele com o peito produz um efeito desconcertante, mas na meia esquerda não há como a procura do ângulo à Del Piero), no demais: está lá tudo.

Pena é termos que perceber Ronaldo no contraponto da humildade e atitude colectiva de Rooney. Não é algo que se perceba no jogo. Mas nas paragens, festejos e outras minudências rituais. Confesso, a atitude telegénica de Ronaldo aproxima-me afectivamente do inglês sardento. No jogo de Terça, com o Manchester empatado em casa, Ronaldo esteve uns bons dois minutos sentado na vala do Old Trafford a beber água. Um interessante momento de televisão, sem dúvida. A sensação que fica é que Ronaldo está insoluvelmente enamorado de si e que quer partilhar esse amor de tal modo que se recusaria a jogar no dia em que não houvesse transmissão televisiva. Na hora do golo Rooney abraça os colegas, Kaká agradece a Deus, Ronaldo procura a câmara que melhor capte o melhor jogador do mundo. Which he is.



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