Meio mundo chocado porque Keith Richards admitiu ter snifado as cinzas do pai. Não é caso para tanto. A incorporação ritual dos restos materiais dos mortos, através do canibalismo ritual aposto à cremação, por exemplo, tem considerável registo antropológico. Nessas lógicas podem gizar-se duas funções simbólicas: 1- a incorporação dos inimigos, do seu poder, e a consumação simbólica de uma vitória bélica 2- a incorporação dos ancestrais nos corpos dos vivos como forma de os perpetuar nas sociedades em que viveram (vagamente o caso de Keith Richards, se bem que ali a cocaína assumisse um protagonismo capaz de baralhar as possibilidades classificatórias). Mas, não vamos mais longe, algo muito semelhante a esta incorporação ritual se passa todos os domingos nas igrejas católicas, onde pelo Dogma Católico da Transubstanciação, se defende que o corpo de Cristo, consumido nas hóstias e no vinho, é de facto ingerido pelos comungantes (diferente da consubstanciação protestante onde o vinho e o pão continuam a ser pão e vinho). Portanto, é escusado o assombro.



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