Milhas

Na experiência de viagem -- sentido estrito (o movimento entre dois lugares) -- há uma quota de assombro que atribuo à incredulidade tecnológica. Podemos racionalmente saber dos tempos curtíssimos hoje permitidos por toda a sorte de meios de transporte, a questão é que ao nível da espécie vivemos nessa condição de possibilidade há tempo de menos. Guardamos, por isso, uma melancólica solidariedade que nos liga a ancestrais prévios ao montado e ao advento das jangadas.

Quando alguém abandona uma estação carrega na sua filogenia a estranheza de poder transitar de um lugar para outro em curtíssimo lapso do tempo. É aí que o espectro do não regresso se presentifica. Coisas como aviões só aparentemente se assumem como dispositivos de viagem: na verdade são simulacros em que não conseguimos acreditar totalmente. Só a repetição nos persuade da constância da tecnologia de transporte, temperando-a com um leve gosto a realidade. No fundo, nos nossos "interiores", ainda desenhados pela história da espécie, jaz um temor que nenhum hábito esconjura: imaginamos sempre como seria se tivéssemos de voltar a pé.



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