Solidões a montante

"Não tenho nenhum poder para apanhar mulher"

Excerto de uma história de vida que recolhi em Moçambique, província de Tete, distrito de Changara, e que agora recuperava. Fixei-a por interesse lateral. É provável que algo se tenha perdido desde o ciniyungwe do "biografado" até ao português do tradutor. Mas gosto da frase tal como se cristalizou em português. A solidão de um homem sentenciada por ausência de expedientes pessoais que garantam meios de subsistência (ou por falta de artes que façam essa ausência desimportante).

Estou habituado a reconhecer por estas bandas declarações análogas, normalmente como estratégias de engate: a asserção de infortúnio mais ou menos falaciosa que possa comover mulheres ou deuses em busca de uma reversão dramática. No caso tratou tão só de uma constatação em que a estrutura de adversidade se desenha contra um património pessoal que a pouco consegue aspirar. Não é uma frase que procure seduzir a boa graça dos deuses e assim alcançar um twist narrativo. É uma daquelas certezas tão sábias como onerosas: naquela frase jaz uma sensibilidade social que deve a uma vida de trabalho empírico.



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