Quaresma



Scolari bem pode festejar agora os golos de Quaresma. Pode até um encenar um abraço emocionado no fim do jogo que o bom do Quaresma, na sua aparente negligência afectiva, tudo consente a um pateta armado em pai pródigo. Mas nós não esquecemos que foi graças a um déspota iluminado que há 9 meses Quaresma pôde ver o mundial pela televisão (não me refiro obviamente ao técnico da TV Cabo). Portugal, pejado de jogadores muito bons, a que se juntam dois geniais (que colosso de extremos, meu Deus!), um guarda-redes e um ponta-de-lança, segue vencendo apesar de Scolari. Mas, o castigo pela estupidez de Scolari - um mínimo de uma estupidez sonante por competição -, qual sentença de recorte divino, tem chegado sempre, justíssimo: numa final, numa meia-final, no chuveiro. Os treinadores inteligentes e justamente amados são aqueles que sabem impor a sua maestria vergando o adversário tanto quanto se vergam aos óbvios ditames do futebol, numa lógica que poderíamos designar user friendly: os adeptos, utilizadores primeiros do futebol e seus sintomas vivos, nunca são tão estúpidos como Scolari gostaria de pensar. Ele sim. O golo de Quaresma não foi marcado por um jogador da equipa de Scolari. Foi marcado por um jogador que que só Scolari conseguiu tirar da equipa. No entanto, a devoção nacional a Scolari subsiste, ela deve a estes sucessivos momentos de "não inscrição" (José Gil)* tanto como a uma perene ânsia pela tutela.

*A não-inscrição é outro traço dominante na psicologia nacional. As coisas passam mas não mexem verdadeiramente com as pessoas, não se inscrevem, resultando daí uma inacção, uma falta de afirmação e também de responsabilização. A não-inscrição explicará também a falta de debate no espaço público ou até de verdadeiras críticas de arte, a livros, a espectáculos. As discussões são muito pobres, nunca se vai ao âmago das coisas e dos problemas, fica-se sempre pela superfície. Os portugueses não sabem falar uns com os outros, nem dialogar, nem debater, nem conversar. Duas razões concorrem para que tal aconteça: o movimento saltitante com que passam de um assunto a outro e a incapacidade de ouvir. Também o medo, fruto dos anos de ditadura, impede que se assuma a liberdade plena, que se diga o que se pensa. Um certo culto do “sôtor” e a reverencia a quem tem poder são ainda peias que tolhem o pensamento e a acção livres. Por outro lado, pensamos que nunca estamos à altura, que não somos suficientemente bons, anulando-se assim todas as potencialidades criativas. É a famosa falta de auto-estima a que a tão badalada teoria da inveja promove. Ou seja, numa sociedade em que o imobilismo grassa quem quer fazer é, inevitavelmente, mal-visto, alvo de intriga e de maledicência. Quem se destaca será, portanto, excluído do grupo.



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