Jean Baudrillard

Não assinalei a morte de Jean Baudrillard, figura que me é particularmente cara e cujos ditos sempre foram visitando as linhas que vou largando. Os blogs são demasiado temperamentais para poderem acompanhar os rigores da agenda, mesmo quando querem. Tento redimir-me a destempo.

Ao contrário das tantas coisas de cuja evidência Baudrillard escarnecia (e como o espectro é amplo!), a morte de um homem, de um homem que aprendemos a admirar e seguir, desenha-se como uma fatalidade. Uma fatalidade que pouco se dá a devaneios discursivos que desdigam a morte ou que a resgatem para a apoteose de um qualquer simulacro. Morreu. Fim. Não há simulação. Mas o carácter elusivo do real, fugidio e intratável, não soçobra: nem perante a voluptuosidade fenomenológica da morte.

A escrita, meio por que Bradrillard se nos revela, é uma tecnologia de memória e posteridade tanto quanto de viagem; o corpo de quem escreve, na maior parte das vezes, é-nos tão distante ou intangível como as ideias que vai deixando em lastro. Por isso, a morte de Baudrillard cumpre o paradoxo de um fim apenas tentado. Sabemos que não haverá textos novos. Mas sigamo-lo de perto: num mundo de cópias sem origem a criação prolifera sem matriz precisa, sem viagem de sentido único, num mundo de dispersão e apropriação sem freio os criadores são nodos numa intertextualidade que os precede e lhes sobrevive.

Ainda assim, apesar da celebrada diluição e para gáudio de rara singularidade, Baudrillard é exactamente um Autor -- um autor, num tempo em que tudo a que podemos aspirar são ficções da origem. Um autor que escapa à morte sentenciada na ficção narrativa que melhor capta alguns dos traços da cultura contemporânea: um mundo de simulacros e simulação, uma ficção que a um tempo intuiu e criou.

Saber que Baudrillard morreu traz um inelutável peso de fim, um temeroso embate metafísico, uma insuportável entrega aos balanços póstumos, uma dor que (donde a percebo) vem despida de angústia.

Mas, é-me mais sedutor (a sedução era-lhe cara) pensar na morte de Baudrillard como um aparato mediático que, por hábito mitopoético, de quando em quando trafica com as sentenças biológicas e com a fantasmagoria dos fins. Baudrillard morreu para os gatos lá de casa, se os tinha. Os seus leitores mais fiéis, guardados pela distância devota, estão condenados a um exercício de incredulidade sintomática, alucinando -- agora mais do que antes -- com a existência do autor: Jean Baudrillard.



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