Alexandre O'Neill: uma biografia literária

Movido pelo mais extremoso serviço público, deixo-vos por aperitivo algumas citações avulsas.


Para escapar essa «invenção atroz a que se chama o dia-a-dia», viveu intensamente, desregradamente, até ao osso. «Fiz do corpo alavanca sem pensar no futuro», disse pouco antes de fazer sessenta e um anos, e de morrer, quando já se sentia doente.

Respondendo ao celebra questionário de Proust, o poeta viria a designar como ocupação favorita a «conversa amena».

A poesia é a vida?
Pois claro!
Embora custe caro, muito caro,
E a morte se meta de permeio.


É que havia entretanto escritores e artistas que, gravitando embora na orla do Partido Comunista, ou fazendo parte dele, não se reconheciam esteticamente no neo-realismo. Foi sobre esta recusa primordial que se fundou o grupo surrealista de Lisboa, durante o ano de 1947.

O surrealismo começou com a amizade entre O’Neill e Mário Cesariny.

O caso é que, em finais de 49, chegara a Lisboa Nora Mitrani, tinha 28 anos.

«Sem pieguice, digo-lhe que sempre “sofro” Portugal, tanto no sentido de não o suportar (como todos nós, aliás), como no sentido de o amar-sem-esperança (como disse uma parnasiano qualquer: amar sem esperança é o verdadeiro amor…)»

«E tinha nisso uma camaradagem facílima com as pessoas, toda a gente gostava muito dele, entrava numa camaradagem fácil mas superficial. No fundo, ele não se dava a ninguém. Era uma pessoa recolhida, muito distante. Perfeitamente nos copos e na sardinha assada, mas quase que aristocraticamente distante»

«Ele era virado para o elemento feminino, mas elas também se deixavam encantar… rosto magro, bastante moreno, sobrancelhas espessas figura seca. Mas era mais o tratar…»

Viu a sua fama crescer. A aura de poeta tornou-o ainda mais atraente aos olhos das mulheres e começou a ser muito assediado. Utilizando uma expressão bem portuguesa sobre a qual viria a dissertar posteriormente, pode dizer-se que O’neill estava na mó de cima. «A seguir ao livro as mulheres andavam todas de volta dele. Eram muitas… tantas. Sempre foram.» Uns tempos mais tarde Alexandre confessaria à Pamela, sua apaixonada da década de 60: «os poetas neste país têm muita saída».

« “Libertino” não o define completamente. No sentido do Laclos, não. O libertino é um tipo que tem mais gosto na conquista do que no acto em si. O libertino é um estratega. E a estratégia, conquistar a praça forte, é que dá gozo. O Alexandre tinha uma sexualidade viva, gostava da mulher como animal.»

A frase com que definiu o seu amigo Vinicius de Moaraes, tão volúvel quanto ele, assenta-lhe perfeitamente: «tinha uma sinceridade para cada momento”

Porém ele sentiu a ameaça quando, cerca de um mês depois recebeu em sua casa a intimidação da PIDE para se apresentar. «já fiz a mala, estou preparado para ficar lá», disse resignado à sua amiga Pamela. «Por isso- continuou -, uma vez que vou largar o mundo durante uns tempos , peço-te que venhas dormir comigo.» [Dormiram, a intimidação foi falso alarme: era para ir buscar a mulher ao cárcere]

[AO']: «...Aquela coisas do amor ser infinito enquanto durar só mesmo dum malandro de um génio, que era o que era o Vinicius. Dava a impressão que ele fazia poesia para engatar, para ser imediatamente útil, o que é uma excelente maneira de fazer poesias. (…) haverá coisas mais excitante do que conseguir engatar uma mulher com um soneto? Só mesmo os dois fingirem que foi por causa do soneto…»

[AO']: «O que há de mais surrealista no movimento surrealista português, é que, no fim de contas, ele nunca existiu.»



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