Um grande dia

Calhou. Aqui há uns anos, aquando da viagem do famoso barco do aborto até às proximidades da nossa costa, apareci na televisão a dar a cara para defender a despenalização. Essa passagem televisiva, ainda que efémera, operou um efeito interessante no meu círculo de relações: uma espécie de mediatismo de proximidade. Dei por mim a ser abordado por pessoas amigas, conhecidas e vagamente conhecidas: queriam-me contar as suas experiências com a questão do aborto (clandestino, entenda-se). O mais curioso, sem dúvida, foram os testemunhos de mulheres mais velhas -- aquelas figuras maternais que orlam à minha volta desde a infância --, mulheres que, por qualquer preconceito, imaginava biograficamente afastadas destas questões.

Saber que nas suas juventudes ou em algum momento das suas vidas tinham recorrido ao aborto foi para mim chapada sociológica: tal é a dimensão do fenómeno do aborto clandestino que necessariamente toca pessoas que nos são próximas.
Imaginem então, por ter aparecido uns segundos na televisão a brandir a mudança da lei, fui feito confidente de histórias raramente contadas. Qual inesperada elicitação antropológica, foi o insólito meio para aceder a algo dos dramas por que passaram gerações e gerações de mulheres em Portugal. São mulheres que amiúde ficam caladas quando se fala publicamente em aborto, talvez querendo afastar das bocas de todos a má memória de uma dor tão privada. Para elas, este dia, onze de Fevereiro de dois mil e sete, chega tarde, mas chega. As memórias de sofrimento são mais suportáveis quando socialmente as podemos partilhar como injustas. A minha homenagem a todas essas mulheres, para as que doravante não mais terão que passar pelo aborto clandestino. Parabéns a todos nós.



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