Profissões de espera

Da janela de uma pensão debruçada para a Praça da Figueira observo a prostituta envelhecida; ali está, sentada, a aguardar cliente, pelo menos há uma hora. Quieta. Sem um entretém, ali a apanhar seca. O que mais lhe custará a passar, pergunto. Se a monotonia das horas pacientes, se o momento da entrega às torpes cópulas e aos fellatios expresso.
Na verdade a prostituta partilha com os lojistas e outras profissões de expectativa a capacidade de espera: a capacidade de resistir ao tempo vago que vai de um negócio ao outro. Lojistas, prostitutas e outras profissões de espera têm um parentesco. Para esse parentesco pouco interessa com quem fodem e se o fazem durante ou depois do trabalho. A subjectividade tanto de lojistas como de prostitutas, percebida a partir de circunstâncias rotineiras de paciência, pouco se define pelo nome dado à profissão, depende sim, dramaticamente, das cogitações, lembranças e ensejos: dos murmúrios que lhes ocupam a espera.



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