Perdão às mulheres

Há dentro do Não quem defenda intransigentemente a sua posição e, para isso, não se perturbe em amesquinhar as (demais) mulheres, ora sugerindo-as fúteis ora destituindo-as do arbítrio para decisões ponderadas. Mas, tal é a deriva, que começo a pensar que também haverá quem esteja a usar a discussão do aborto para, a reboque do Não, poder dar livre curso à expressão da mais entranhada misoginia. Para estes últimos a ideia de que a mulher deva fazer trabalho comunitário ou pedir perdão à sociedade (possivelmente de joelhos) é infinitamente mais aliciante do que a cadeia: a bondosa indulgência cristaliza o poder de quem perdoa revestindo-o do divina complacência da boa sociedade.
Não tenho por certa a linha divisória destas duas vontades que militantemente vêm menorizando as mulheres ─ as que falam pelo não entronizam-se sempre como a excepção iluminada entre as outras, coitadas. Assisto contudo algo estarrecido ao modo como estas duas pulsões se diluem no Não e crescentemente dominam as possibilidades discursivas na defesa da lei vigente.

Também publicado no Sim no Referendo.



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