Babel

Como prometido volto ao tema. Este é o segundo de três textos sobre o assunto. No último, em que tentarei escapar aos termos fechados da/pela polémica, virá a minha leitura do filme.

O processo segue já com afloramentos de um estudo de caso. Depois de Babel ter sido inicialmente esmagado pela crítica pátria, denoto a emergência de dois tipos de reacção que me parecem igualmente pavlovianos. A primeira reacção, sobre a qual já aqui dissertei, refere-se à necessidade de maldizer a crítica para afirmar uma opinião favorável em relação a Babel. Uma espécie de limpar o terreno.

Reparem, eu de facto acho que a unanimidade da crítica padece de uma refracção “ideológica”, refracção que funcionou como uma barreira prévia a uma apreensão mais subjectiva e diversa de um filme que ─ parece-me ─ só com algum “ardor clubístico” se chuta para canto em duas penadas (a bem da sua leitura Luís Miguel Oliveira diz que a haver alguma ideologia a operar é a "ideologia cinematográfica" de Iñaritu). No entanto, discordo da necessidade de maldizer a crítica para afirmar um gosto diverso: leio, valorizo a crítica e continuarei a valorizar. Não me deixo castrar pelas sentenças autoritárias, por mais unânimes que sejam, tampouco preciso de castrar a crítica num processo agonístico de afirmação que mais não faz do que sacralizar a autoridade da dita.

A segunda vaga de reacção, mais recente, deferida no tempo, vem situar-se por referência às linhas de cisão já criadas. E aí reparamos duas coisas.
Quem tem do filme uma opinião positiva ou que não se esgota no catálogo crítico do “folclore global” ou “politicamente correcto” aparece a falar um pouco a medo, ciente do descrédito intelectual que resulta de um campo minado pelas prerrogativas da opinião prestigiada. Por outro lado, quem tem do filme uma opinião negativa – não me lembro de nenhum caso de elaboração criativa neste sentido ─ recita os soundbytes que mais não são do que palavras passe para uma óbvia pertença: uma identificação com um certo espírito de elite que se criou à volta do “não gostar do Babel”. Ou seja, as próprias possibilidades para não gostar ficaram estreitadas; expressão de uma questão mais vasta: só se tem escrito sobre Babel por referência aos termos lançados pela crítica, contra ou a favor. O que, independente do juízo gosto/qualidade que se tenha sobre o filme, me parece uma lástima e uma exuberante demonstração de que a autoridade dos críticos, porventura justamente, não se descarta com a mesma facilidade com que eles descartaram o filme. Continua.



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