Marcelo e a Clandestinidade

Marcelo Rebelo de Sousa até sabe que o aborto clandestino seguiria a sua próspera senda se, como militantemente deseja, o Não vingasse. Mas, conforme se percebe no meio da salsa a que solenemente chama Não Heterodoxo (sic), nada o move contra o fervilhante mercado informal de aborto, nada o move contra um quadro que potencia os perigos da clandestinidade ─ confrangedoramente segurados pelas urgências dos hospitais públicos ou pelas mezinhas caseiras ─, nada o move contra a incontinência abortiva que vai de par com um eloquente desvio do olhar (segundo dados de um inquérito encomendado pela Associação para o Planeamento Familiar 350 mil mulheres portuguesas terão abortado).
A salvo da treinada bonomia com que Marcelo tenta disfarçar um fervoroso apego ao status quo, jaz um mundo social, largamente sinistro, que pouco se comove com o alardear oportunista e falacioso de um magnânimo perdão às mulheres. Marcelo não reconhece direito de escolha às mulheres, isso é que era bom, mas fala à boca cheia de extremosas indulgências por que nunca se bateu ─ fazer lei de uma hipotética excepção à lei é uma bizarra concepção do Estado de Direito, acrescente-se. Temos Marcelo Rebelo de Sousa feito enfim triste herói da clandestinidade.

Originalmente publicado no Sim no Referendo



<< Home