Cunhal

Caríssimo Tiago, também a mim desconcertou a ausência de Mário Soares da lista dos 10 portugueses mais votados. Creio que tal se deve a duas circunstâncias que pouco se comprazem com a mitificação, processo que infelizmente se mostra necessário ao recorte épico destas consagrações: 1- Está vivo; 2- Esteve envolvido recentemente num processo eleitoral, elemento que amplia a noção da sua intimidade com o mundo dos mortais.
Todos sabemos o quanto a democracia lhe deve, mas nada disso retira ao estatuto histórico de Cunhal enquanto alguém a quem o 25 de Abril tanto deve (isto a despeito do que fossem os seus desígnios pós-revolucionários ou de revolução permanente). Aliás essa asserção encontra-se celebrizada num comício em que o mesmíssimo Soares se dirige a Cunhal exaltando o papel do partido por este liderado na luta contra a ditadura. E é exactamente numa leitura estrita, por isso enviesada, em que guardo a acção histórica e negligencio os sonhos não cumpridos, é nessa leitura particular, dizia, que reitero a ideia de Cunhal como um combatente pela liberdade. É isto que é real nas suas consequências.

Conforme alegava, instigado pelo Eduardo nos comentários do post anterior, considero que a luta empreendida contra a ditadura visava em última instância a liberdade... A liberdade de construir algo radicalmente diferente, e - friso - não necessariamente a liberdade democrática como regra pós-revolucionária (daí as semelhanças autoritárias que podemos adivinhar virem a resultar dos sonhos cumpridos de Cunhal).

Mas esse momento de "pura liberdade", de indomesticável possibilidade, existiu na manhã limpa, e a prova de que o fermento da liberdade lá estava, quiçá fugindo a muitos dos seus mais heróicos criadores, foi o surgimento da democracia (Avé Soares).




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