Breaking and Entering



Um filme precioso que, a meu ver, falha em dois momentos.
Primeiro é simplista a construção da alteridade em tempo de porosidades transnacionais (aqui sim, colhe a crítica que me parece gratuita para o Babel) . A tentativa de apanhar o ar do tempo por via da imigração e da geografia da exclusão numa grande metrópole é traída pelo "excesso arquetípico" no desenho biográfico de Amira (Juliette Binoche): Bósnia Muçulmana, fugida da guerra, em tempos casada com um Sérvio, tem a seu cargo um filho que, afastado da origem (renega o seu nome bósnio), sem referências na sociedade de acolhimento, envereda pelo crime. Todas as alusões a Sarajevo, à guerra e ao jogo de identidades na ex-Jugoslávia e na Londres cosmopolita são óbvias, preguiçosas e, o que é pior, mostram uma sofreguidão para capturar traços do mundo contemporâneo que só poderia cair na na biografia paradigmática.

Em segundo lugar, a parte final do enredo padece daquilo que é, na minha opinião, um equívoco narrativo. Falha que é em verosimilhança, sai forçadíssima. A resistência de Will (Jude Law) em comparecer à reunião judicial para evitar dar conta da sua proximidade com Amira não tem cabimento. Resulta claro ao mais crédulo seguidor do plot que uma coisa não implicaria a outra.

Feita a justiça ao que não gostei o que fica é uma magistral afeição de Minghella para frequentar o desafio quotidiano de partilhas que teimam resistir. Apesar, claro, de maceradas pelas investidas do desamor: por um lado, a permeabilidade às tensões de todos os dias (a solidão mártir de Amira (há muito que nenhum homem lhe toca), o flagelo trazido por dois filhos problemáticos, a depressão de Liv (Robin Wright Penn); do outro lado, a vaga de fundo de uma exclusão ontológica: Will padece por se sentir excluído do eixo formado pela mulher e pela enteada ao mesmo tempo que reconhece temer, inconscientemente, ver-se fechado nele: o seu lado negro, diz noutras palavras, é o instinto egoísta de não se diluir completamente nas dificuldades que lhe são íntimas.

Outro aspecto que me suscitou assinalável interesse: a forma como se desloca a identificação empática com que sigo o filme da figura masculina para as mulheres ─ particularmente para Amira. O facto de eu ser homem condiciona inevitavelmente ─ constrange constitutivamente - a minha recepção de uma história fixando-me com maior facilidade na pele da personagem masculina. Ademais, como na maior das vezes, em Breaking and Entering a câmara acompanha as interacções da personagem masculina, são as suas itinerâncias que iluminam as demais existências (p. ex. as mamas de Vera Farmiga são mediadas pelo pelo seu olhar). E, no entanto, aqui queria chegar, o filme é infinitamente mais rico e complexo quando seguido na pele de Amira (excepção às cenas de cama em que vale mais a pensa ser Jude Law, as leitoras discordarão…).

A cena final é paradigmática. O significado fundo da violação de intimidade jaz na escolha empática de quem mal aparece na tela. A furtiva Amira. Como tantas outras coisas, as possibilidades de remissão perante um arrombo estão injustamente distribuídas.



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