A todos desejo um feliz 2007

Um abraço.

A pena de morte

Não era suposto eu comover-me com o destino de Saddam. Comovi, e isso irritou-me. Ele não merecia ficar no negativo honroso desse paradoxo: uma morte trazida enquanto corolário de civilização. A minha perturbação compassiva com o ditador perturbou-me, colocou-me num não lugar ético, tirou-me o chão valorativo, apartou-me das vítimas de Saddam, molestou o asco que me merecem os poderosos sanguinários. Em tudo isto leio uma expressão, tão egocentrada como sinceramente vivida, de que não se serve assim justiça. Numa tal lógica mortal de brincar aos deuses apenas proliferam carrascos, emulando-se num incessante jogo de cópia sem original.

Moonwalk

O meu irmãozinho mostrou-me o estado avançado do seu moonwalk. A um tempo invejoso e embevecido (suponho que venha a ser essa a minha relação com todas as suas feituras) reconheci-lhe a qualidade do passo. Ficaram prometidas umas lições. Depois de tanto viver a metáfora quero experimentar o literalismo do "andar para trás", quem sabe fixo ali as atinências biográficas do conceito.

O comovente ocaso da fé bélica

Do Público: (…) Estamos onde estamos, porque a diplomacia só é efectiva, se acompanhada por uma ameaça credível. Não a ameaça de uma intervenção militar [ao Irão], cenário que só um lunático pode defender (…)
José Manuel Fernandes

Sim, porque naquilo do Iraque o lunatismo do apelo às granadas foi reduzidíssimo.

Mais Prima

Numa abordagem histórico-antropológica onde, entre outras coisas, se falava da elevada a prevalência de casamentos entre primos no Iraque, eis que surge este mapa. Nele se representam os índices de casamentos consanguíneos nos diversos países. Duvido é que esta contagem contemple as movimentações nocturnas da noite de Natal. É que, posso adivinhar, isto da "família reunida" e da "festa da família" deve ter mais que se lhe diga.

Merche: só para portugueses

Cumprindo a vocação diaspórica do programa, supõe-se, Merche Romero abre o Portugal no Coração desejando feliz Natal a todos os portugueses, frisa, “não apenas aos que estão em Portugal, mas também aos espalhados pelo mundo”. É um clássico lamentável da televisão portuguesa que, envergonha, sobretudo, pelas suas óbvias prerrogativas, a RTP. Nem um tremor ou uma hesitação para pensar que em Portugal existirão pessoas de outras nacionalidades a ver o programa da tarde. Imaginará Merche Romero ― ou o guionista por ela ― de quantas exclusões se faz o vincar desse conceito amplo de portugalidade? É bom que haja um programa que apele à saudade e aos sentimentos de pertença das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, mas tal não implicaria ― como foi o caso ― a acintosa exclusão das comunidades imigrantes em Portugal, naquilo que é um gesto paradigmático da nossa enviesada sensibilidade à migração. Merche, experimenta para a próxima um “Feliz Natal!”. É limpinho.

As melhores transições que alguma vez vi


D'OJogo

Admitiu numa entrevista a um jornal espanhol que o modelo que está a utilizar no Chelsea não é o que lhe agrada mais mas sim o que lhe permite mais vitórias no campeonato inglês. Nesse caso, qual das suas equipas melhor coincidiu com os seus gostos pessoais?
- A minha melhor equipa foi a do FC Porto que ganhou a Taça UEFA, o FC Porto que nós construímos no nosso segundo ano, em 2003. Não me recordo de ver uma equipa defender tão bem ou a definir tão claramente os sítios em que queria defender. Fazia as melhores transições que alguma vez vi. E isto tendo em conta o que, ao mesmo tempo, se conseguiu ao nível individual, que foi fazer com que jogadores que ninguém conhecia assimilassem esses princípios. Recordo que eles não tinham estatuto quando chegaram ao FC Porto; Nuno Valente, Paulo Ferreira, Maniche... O próprio Costinha ainda não se tinha imposto no futebol português. Progressivamente, é uma equipa que ganha a Taça UEFA, a Liga dos Campeões e que faz cinquenta por cento da selecção portuguesa vice-campeã da Europa e semi-finalista no campeonato do Mundo. É um grupo de jogadores que passou do nada à Lua; uma equipa que partiu absolutamente do zero, em França, na pré-época. A forma como cresceu foi absolutamente fantástica. Se me perguntar se a equipa do ano seguinte era melhor, talvez fosse. Já tinha melhores jogadores, que já estavam numa fase diferente do seu processo de formação; e contratou-se mais um ou outro, o McCarthy, por exemplo, que veio trazer mais valor. Se me perguntar se o Chelsea de agora é superior, também digo que sim, porque tem melhores jogadores, mas no conceito de equipa, a construção que mais prazer me deu foi a que me trouxe o primeiro campeonato e a Taça UEFA.

- E pensa adaptar o Chelsea ao tal futebol de que gosta, um dia destes?
- O campeão inglês não teria hipótese de ser campeão em Espanha e o campeão espanhol não teria hipótese de ser campeão no campeonato inglês. Quando há diferenças culturais tão acentuadas, é muito, muito importante construir-se uma equipa adaptada à realidade. Depois, quanto mais tempo se trabalha e quanto melhor se torna, deve ser flexibilizada de forma a poder defrontar adversários de diferentes escolas. Mas acho que, como está, o Chelsea é o melhor para ter sucesso na Premier League. Ganhámos dois campeonatos e estamos num terceiro ano em que, sem querermos perder as características que nos permitiram vencer em Inglaterra pretendemos fazer algo mais a nível europeu, daí sermos uma equipa diferente, mais dominadora, mais controladora da posse da bola e dos ritmos do jogo. O facto de jogarmos em simultâneo com Makelele, Essien, Lampard e Ballack fez-nos uma equipa muito mais dominadora. Ao mesmo tempo, mais lenta, com transições menos efectivas, menos poderosas, mas uma equipa com muito mais controlo do jogo e dos ritmos. Isso talvez nos dê melhores condições para sermos bem sucedidos a nível europeu.


Um solene fracasso

Findo o texto, no último dia do prazo acordado, apresto-me para o enviar para uma publicação do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social. Acontece que, sem me aperceber, entro na conta do gmail errada para proceder ao envio. Não tardaria a receber uma resposta solícita a acusar a recepção. A solenidade institucional agradeceu, imagino que com um sorriso insólito, como se fosse a coisa mais normal do mundo tratar tais matérias com um endereço de e-mail cujo emissário se identifica como avatares de um desejo.

Reset


Out of Season, é a única forma consistente de enfrentar as festividades de época.

Pousio

Este blog volta daqui a uns dias.

Monet

Claustrofonofobia

Foi num daqueles elevadores com instalação sonora. Antes que uma aparente convulsão permitisse sentenciar o óbvio, o óbito, decretado no 9º, onde Arnaldo se dirigia para doar esperma, a troco de beijos, Lara, vinda do cabeleireiro, já com as extensões postas, jura ter ouvido nas escadas, perto do 7º, algo como um grito. "Foda-se, não me deixem sozinho com esta música!". Quando o INEM chegou tocava já uma insuspeita batida dos Santa Maria. Tanto assim que a causa do achaque implicaria um rigoroso inquérito à playlist da Florcondomínios.

Trejeitos de Publish

Ler. O que mais importa é a parte final: a percepção de como o hábito de blogosfera forja novos "maneirismos de linguagem" que vão alterar os registos de escrita discorridos noutros lugares.

Assim às primeiras eu diria que escrever na blogosfera - um meio que visa uma variedade de públicos e convida a uma diversidade de tons - só pode fazer bem a uma escrita demasiado especializada, ensinada a sobreviver num meio fechado (a academia será a expressão mais óbvia desta tendência). Estamos, creio, perante um movimento de retorno dos tais becos evolutivos de que Darwin nos falava.

p.s.Esta reflexão não negligencia aquilo que são os atractivos imanentes às idiossincrasias estilísticas, muito menos constâncias de tom que são a marca, o mérito e a identidade de muitos blogs.

Alumbramento

'Na verdade, basta rever uns parágrafos do Don Quixote para sentir que Cervantes não era estilista (pelo menos na presente acepção acústico-decorativa da palavra) e que lhe interessavam demasiado os destinos de Don Quixote e de Sancho para se deixar distrair pela sua própria voz.' Borges

Tudo se passa como se, sem estilo ou sequer Quixote, nos deixássemos distrair por uma triste voz. Uma voz que é nossa pela ausência, pela falta de destinos que nela se concebam verosímeis.

Perguntar não ofende

Um ano e 365 posts depois o Perguntar Não Ofende fecha as portas. Era um lugar muito do meu agrado. A dúvida assim exercitada na visitação de referências mundanas convidava a que, não sem insólito, nos cruzássemos com uma panóplia de minudências quotidianas e culturais, mundos de entaramelado sentido prosaico, que de outro modo se preservariam alegremente fora do texto; de qualquer texto. Até mais, Ricardo.

Eva

Acolhendo o meu humilde pedido, o Miguel Marujo refundou o blog da criação consagrando-o, por uns dias, à imagem de Eva. Vão com calma.

O meu conceito de sofisticação

Bond: "Vodka Martini"
"Shaken or stirred sir?
"...Do I look like I care?"

Solispsismo radical

1- Deixem as leituras de faca e alguidar para os tribunais e deleitem-se com o Quaresma e com o Lucho. É que quando derem por ela o Porto já é campeão pela prosaica, irritante e sistemática circunstância de jogar melhor futebol. Em última instância, como o provam os voos europeus, a arte do futebol portista permite-lhe fugir aos vícios do sistema em que teve que crescer. Nesse sentido o jogo praticado pelo Porto, elevado a arte, é, aqui e ali, a única declaração verdadeiramente anti-sistémica do futebol português.

2- Bom perceber que muita gente se deu enfim conta do medíocre que era CoAdriaanse. A exigência de um futebol moldado pela espera do sublime jamais poderá permitir que se chame excelente a um tipo porque ganhou um campeonato naqueles termos. Fico com a melancólica sensação de não o ter insultado o suficiente.

3- Qualquer tentiva de corrupção nos anos em que o Porto se sagrou campeão representaria, do ponto de vista económico, um investimento supérfluo. Nos anos de Mourinho, então, seria o maior erro de gestão que a memória pós-revolução industrial consegue alcançar. Investimento redundante, portanto.

4- Octávio Machado apareceu triunfante: agora as pessoas começam finalmente a perceber o que ele andou a denunciar, disse. Concedamos: a genuína incapacidade de articular duas ideias em muito favorece a invencibilidade das suas profecias.

5- Pinto da Costa é um homem com azar aos amores, o que, primeiro, permite explicar a sorte ao jogo (quais árbitros!) e, segundo, ao padecer de uma maleita romântica deveria merecer de todos a maior deferência. Ora imaginem - só pela iluminação provida pelo absurdo - que as vossas/os exs se reuniam num congresso cuja ordem de trabalhos era a vossa pessoa. Imaginam as actas, assustador, não?

6- Acho sinceramente que as investigações devem ir até ao fim e a provar-se, entre outras coisas, a autoria moral da agressão, Pinto da Costa não tem como não se demitir. Choque a que eu não teria como sobreviver, mas isso vale pouco.

Colaboracionismo


Reuteres: Iran's President Mahmoud Ahmadinejad (L) welcomes participants of a Holocaust conference in Tehran December 12, 2006.

De que vale a vantagem do tempo?

Até tremo

"No lugar dele demitia-me."
Miguel Sousa Tavares, hoje n'A Bola

Gracias

O meu sincero agradecimento para aos que nomearam o Avatares na votação diligente e profissionalmente organizada pelo blog Geração Rasca. Antes de mais, os meus parabéns aos vencedores: os mais votados em cada uma das diversas categorias. Nesse escrutínio os eleitores agraciaram-me generosamente com o 7º melhor blog masculino, o 10º melhor blog e o 10º melhor blogger. Não que considere estes momentos classificatórios essenciais para um mapeamento do meio - pode até resultar numa cristalização de referências que moleste a descoberta de outras penas (emergentes ou menos conhecidas) - mas sempre é um evento que tem artes de gala, dá para conhecer algumas tendências (antropologicamente falando) e deixou-me, cabe dizer, deveras lisonjeado.

Remissão

Mais me convenço que a arte é fugir dos ramos de vida que invariavelmente nos fazem exorbitar disfunções. Já na cozinha vou-me aprimorando com a cobaia cada vez menos queixosa. Eleger alguns fatalismos pela paz ganha em omissão. Picar a cebola no demais.

Nojo

Patrocinado pelo presidente do Irão, decorrerá na próxima semana um seminário que reunirá "especialistas internacionais" (sic) de 30 países para "avaliar a natureza e a dimensão do Holocausto". Esta jornada abusrda de negacionismo promovida por Mahmoud Ahmadinejad não pode merecer outra coisa além de nojo e repúdio.
Que o Holocausto não possa continuar a ser vindicado para dar cobertura às derivas do Estado Israelita - naquilo que frequentemente surge como oportunista prostituição da memória do sofrimento - é, sem dúvida, um importante argumento político do nosso tempo. Mas daí ao negacionismo vai um imenso salto de estupidez e crueldade. Os acólitos do revisionismo negacionista colocam-se na directa genealogia simbólica dos senhores de Auschwitz. Tristíssimo.

Eva



Atento, o Ricardo sugere-me este lampejo do momento onde, a seu ver, Eva mais cintila. Ante tais frames tudo o que eu dissesse seria despiciendo.

P.s. Miguel, se me é possível dar palpites à linha editorial , parece-me o momento para, literalmente, re-presentificar o nome do blog consagrando-o à mitologia fundadora (assim em jeito de recuperação natalícia).

Royale



Quanto ao alardeado erro de Casting, Daniel Craig calou-me bem caladinho.

A menina do gás

Ler:
Galp: boçalidade industrial.

Alternativas

Utilitários para seguir as actualizações de blogs:

Observatório
Apdeites
Google Reader (indexação pessoal)

Menos

M. A., um leitor devidamente identificado, chama-me a atenção para o case study presente hoje na capa do Record. Lembar que esta capa se refere a um dia em que o Porto e o Benfica decidem a passagem à fase seguinte da Liga dos Campeões. Vá-se lá saber porquê, tenho por hábito torcer pelo Benfica nestas circunstâncias, mas a tolerância ao circo ridículo do nacional benfiquismo começa a insinuar-se como uma das minhas graves falhas de carácter. A rever.




Discurso

Robert Young, páginas tantas, demorando-se nos dilemas conceptuais de Michel Foucault, sai-se com esta síntese que chega a justificar dolorosas erecções:
"O discurso é linguagem que já fez história"*
Convertendo a conversa para terrenos inusitados: a linguagem ou a estética do celibatário (não apostólico, involuntário), do abandonado, raramente tem a maturidade/materialidade de um discurso; pelo contrário, é uma poderosa linguagem contra-discursiva. O mais mais conhecido efeito do "pobre de mim que ninguém me quer" é suscitar um estado contrário ao que revela: expressa uma disponibilidade, expressa uma carência, convida à cumplicidade literária, convida a caridade romântica e convida o enlevo maternal com que muitas mulheres desenham como seu aquele que amam (sim, o prestígio do abandonado tem género). Portanto o "pobre de mim", ao contrário do discurso que forja um regime de verdade, alimenta um regime ilusório que oferece o flanco à sua própria expiração. A linguagem capaz de história tem um poder afirmativo e não passa sem a tecnologia de persuasão, historicamente ratificada, de mesmo sinal. Ler o texto intimista (em sinal aberto) sem estes matizes, podemos supor como ilustração, confere uma equivocada transparência: onde se negligencia a existência de linguagem que não fez história -- ainda que conte uma história verídica.

*Ou seja, (falava-se do Orientalismo de Said) o discurso não é uma mera representação que dispense o teste de materialidade/realidade, mas uma representação efectiva que opera com sucesso sobre a realidade, tornando-a dócil, ao mesmo tempo que cria uma malha interpretativa que domestica a exuberância dos termos da sua alteridade .

O meu maninho

A fim de visitar pessoas e lugares ancestrais, a minha mãe partiu para a Guiné-Bissau por uma brevíssima temporada. Eu fiquei por cá a comandar as tropas (aka o meu irmão mais novo). Coabitar com um jovem adolescente por tão curto tempo, fingindo ser adulto, é uma tarefa que não me desagrada; sem ambições desmedidas ou o perigo de ser levado a sério, posso tentar, por mera expiação de consciência, aqui e ali, corrigir nele tudo aquilo em que eu falhei. Fomentar a criatividade no fracasso é a tarefa mínima de qualquer ancião de circunstância.

Converso me confesso




Ouvir
















Cheers B.

A variação no tamanho padrão das camas comerciais:



Fonte: wikipedia.

A crueza destes números só pode comover.