Caso Richards II

Há uma troca assimétrica entre, por um lado, o racismo sistémico que subsiste, insidioso e silente, quer nas linhas de exclusão da nossa sociedade quer no inconsciente colectivo e, por outro, o racismo exuberante, aquele que aparece nos extremos ideológicos ou nos momentos tensos que o resgatam aparentemente do nada (conflito, raiva ou cólera). O racismo sistémico presente/latente em práticas quotidianas de exclusão ganha verbo sobretudo por um humor light que, apesar de light, sempre reclama poder de encaixe e trivialização no visado.

O segundo, o "racismo exuberante" surge em discursos de nostalgia imperial ou esclavagista, na racialização da questões migatórias, na retórica competitiva do desporto ou no insulto interpessoal (o caso de Richards). O racismo sistémico alimenta o racismo exuberante, o racismo exuberante denuncia a presença do sistémico e, paradoxalmente, nessa visibilização retira-lhe espaço de manobra pois que forja limites mais estreitos ao chamado politicamente correcto. O politicamente correcto é um sintoma dos gestos mais cuidados que o racismo sistémico carece para sobreviver sem se expor estigma do racismo.

Richards explica-se:

Caso Richards

Pedro Mexia, numa instigante reflexão a propósito do caso Richards:

"Temos todos atitudes agressivas de vez em quando, mas como vem ao de cima esta demência racista (especialmente tresloucada, no caso de Richards), em pessoas que não conhecíamos (e que talvez não se conhecessem a elas mesmas) como racistas? Não sei se o racismo é um «instinto» ou apenas uma «ideologia». "

Nos momentos de cólera, raiva ou conflito, não será insólito ver alguém assumir uma atitude inesperadamente racista. Quem tanto faz sem mais "antecedentes", investe-se na humilhação do seu interlocutor por que forma for, imprimindo a maior violência ontológica de que é capaz; a raiva racista num sujeito que nada teria de "especialmente racista", assim parece, dá livre curso ao desejo de humilhar, exercício que, quando discursivo, é sempre realizado a partir da paleta de possibilidades que a nossa cultura confere. Creio, pois, que o racismo surgido em situações como esta de Richards, não resultará tanto uma essência interior que se revela ou de um instinto enfim manifesto, estamos sim perante a activação oportunista de um fundo património histórico e ideológico, a presentificação de um mecanismo de menorização pelo signo da cor (ou de uma identidade manifesta, como no anti-semitismo de Mel Gibson que o Pedro refere).

No meio da raiva o racismo parece surgir como um ilegítimo recurso ideológico e cultural para subalternizar na relação interpessoal, um arremesso de humilhação cuja eficácia em denegrir deriva das imensas provas dadas no esquema mental e político da supremacia branca(as alusões de Richards à escravatura são emblemáticas desse sedimento). O passado só dói quando algo dele ainda existe no presente, e o racismo, desgraçadamente, está longe de ser só passado.

Não são esses momentos de raiva que fazem uma pessoa racista, mas as pessoas também são os seus momentos e, para o bem e para o mal, a cólera pertence ao espectro daquilo que somos e, mesmo aí, podemos tentar ser muitas coisas.

Habemus Papam

Do Público: "Bento XVI apoia a integração da Turquia na União Europeia, anunciou ontem aos jornalistas o primeiro-ministro turco, Recep Tayyp Erdogan, logo após o seu diálogo com o Papa no aeroporto de Ancara. Erdogan rompeu o protocolo acordado e acolheu calorosamente Bento XVI à saída do avião. A declaração do Papa muda por completo o tom da visita e terá repercussão na Europa. (...) Antes de ser eleito, Ratzinger criticara a integração da Turquia, apelando a uma Europa fundada nos valores cristãos. "Quando um homem se torna Papa (...), deve esperar-se que as suas opiniões pessoais fiquem para trás", observou à AP o bispo Brian Farrel."
Dou os meus parabéns a Bento XVI pela coragem e por ter tido a presença de espírito (não literalmente, descreio da história da cadeira da Pedro) para mudar de opinião naquela que poderá a ser uma mudança institucional decisiva para confrontar as presentes hostilidades civilizacionais (os equívocos negociais da UE face à adesão turca nada vêm ajudando). Algumas das razões do meu enfático favor em relação a esta posição podem encontrar-se numa crónica de Teresa de Sousa, de que já aqui tinha citado um excerto:
A Turquia tem lugar na Europa porque o projecto de integração europeia assenta na comunhão dos mesmos valores políticos da democracia, na mesma crença na universalidade dos direitos humanos, na liberdade e na tolerância. Independentemente da religião, ou da etnia ou da nacionalidade. Que lugar lhe vai atribuir o Papa? A resposta está dada.

Cirurgia afectiva

Ouvido no café (exílio forçado enquanto me arranjavam a persianas):
"Eu bem lhe digo que isto tem que parar, mas, já sabes, ele descose-me completamente"

Lições de Antanho

Debate: Joana Amaral Dias vs António Figueira.



"Although the British Police in India had been of minimal interference in local customs and law, in the face of what James Peggs described as India’s Cries to British Humanity, the British made an exception with respect to sati [ritual de imolação de viúvas] after the Chief Pandit had declared that it had no shastric autority, and formally outlawed it in 1829. The result was that local Bengali reformist opposition to sati , such as that of Rammohan Roy and the Brahmo movement, was replaced by its celebration as a form of cultural nationalism by indigenous elites (Gaur 1989). As in the case of British missionary’s attempt to restrict female genital mutilation in East Africa in the 1920’s or the government of India’s Age of Consent Bill, which raised the legal age of consent for sexual intercourse for girls from 10 to 12 which was bitterly by the Indian nationalist leader B.G. Tilak, colonial intervention had the result of transforming practices of abuse against women into ones identified with issues of nationalist resistance and the assertion of cultural rights. (Robert Young, 2001: 380)"

Onde se lê intervenção colonial leia-se intervenção voluntarista que em determinado quadro sócio-histórico é entendida como agressora de uma identidade cultural/nacional/religiosa ou é facilmente codificada como tal. No caso do "véu" nas escolas fracesas, ainda que se trate de um contexto radicalmente diferente, onde naturalmente merecem ser consideradas importantes especificidades e contingências, o fenómeno de activação de vínculos identitários defensivos totais a despeito da desejada fractura a partir de dentro (inevitavelmente dialogante com o que vem de fora), aproxima-me da posição que Joana Amaral Dias sustenta e afasta-me, creio que fatalmente, daquela que António Figueira defende. Aliás, leio nesta posição, uma pedagogia cultural que, pelo seu modus operandi (até porque sufrago parcialmente os seus propósitos), tem tanto de ingénua como de contraproducente.

Mario Cesariny

A voz que fica.

The Departed


"Eu quero que saibas que não tens de ficar. Se nós não resultarmos tens que ser tu a sair. Porque eu não sou capaz.
Eu sou irlandês, sigo com algo que esteja errado o resto da minha vida."

É excessivo dizer que as relações duradouras dependem do sortilégio que um dia juntou dois "irlandeses". Haverá que considerar outra possibilidade menos conhecida: também há as relações que resultam.

1923-2006


Mário Cesariny

Solene é a poesia do rato, a morte uma paródia meta-narrativa.
A minha humilde homenagem ao que fica e ao que se definitivamente se vai.

Figo: totem à força

"No fundo sempre o soubeste. Ele só tem sentimentos de conjuntura. Na selecção a coisa só ficou elidida porque ali a conjuntura é a estrutura"Sms mandada a um amigo Sportinguista desiludido com os festejos efusivos de Figo no banco após o golo do Inter.

É óbvio que Fico nunca foi Rui Costa que chora ao marcar um golo ao Benfica nem um Fernando Couto que fica sozinho no centro do campo quedo enquanto os colegas festejam um golo contra o Porto. O que eu acho interessante nesta "desilusão" é o quanto ela é injusta. Na verdade Figo sempre mostrou ao que veio e não tem culpa que lhe imputem uma afectividade lírica que claramente dispensa ou reserva para outros domínios (o modo como saiu do Sporting, como foi para o Barcelona após ter assinado dois contratos em Itália ou como saiu do Barcelona já dava um pouco o retrato do seu perfil pragmático, se assim podemos dizer). Os sportinguistas querem fazer dele um Eusébio verde à força e ele coitado, está visto, é um símbolo que insiste em ser gente e, portanto, pouco maleável aos quereres que nele se projectam. Uma maçada.

Poiares: Capital Universal da Chanfana

À falta de outras razões que não a pura incompetência ou gozo cabalístico, a Câmara Municipal de Poiares prepara-se para limpar o sebo a 30 animais no dia 30 de Novembro. Os animais abandonados vêm sendo apoiados por uma organização cívica, a Agir, que aguardava uma alternativa digna do executivo de Jaime Soares à quinta até aqui servia como precário abrigo. Parece que a Alternativa chegou via estricnina. Alguns contactos para a expressão de indignação junto da câmara (se bem que me pareça que a coisa se perde com alguma facilidade nos labirintos da democracia local e que a melhor coisinha seja mesmo divulgação pública do caso pelo que vos concito).

Publicidade



Alheio às variáveis da banca, pateticamente instalado desde que a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra me abriu uma conta por ocasião da matrícula, pela primeira vez equaciono mudar de banco. Para deixar a Caixa, claro. Não tenho coração nem estômago para estes apelos comoventes.

De vez em quando dizer coisas elogiosas

Cabe admitir que o Jesualdo Ferreira ontem esteve bem em praticamente tudo.. É verdade que Jorginho, entrado para substituir Meireles, perdeu todas as bolas em que tocou, mas entrou como um importante signo num momento em que dar um sinal de recuo ou consentir na tentação defensiva daquele meio campo poderia ser fatal. 10 jogadores e uma mensagem acutilante podem bem valer mais que 11.

P.s. Estava estranhamente confiante, razão porque ganhei uns euros com esta vitória, pouco esperada pelas casas de apostas mas misticamente pressentida por este humilde vedor de glórias portistas.

Trivialidades lusas

Do Público:
Um paraplégico internado num lar de idosos em Monção está em greve de fome há 11 dias, exigindo ser transferido para o Centro de Medicina de Reabilitação do Alcoitão, em Cascais, o que a Segurança Social considera "não fazer qualquer sentido".
"Não será com o tratamento em Alcoitão que este paraplégico vai recuperar a mobilidade", afirmou à Lusa Manuel Correia, director do Centro Distrital de Solidariedade e Segurança Social de Viana do Castelo.
Manuel Correia disse que se trata de um homem de 43 anos que ficou paraplégico na sequência de um acidente de viação há 22 anos e que, "talvez por isso , esteja revoltado com a vida". (minha ênfase) (...) Acabou por ser internado num lar de idosos, situação com a qual não se conforma por ter como "companheiros" outros utentes substancialmente mais velhos e também por entender que o seu caso não é irreversível.
Talvez o senhor Manuel Correia não imagine que possam existir variadíssimas razões pelas quais uma pessoa com deficiência se pode revoltar com a vida, talvez não possa imaginar que neste país a deficiência é amiúde a menor dessas razões. Estar, por exemplo, aos 43 anos internado num lar de idosos porque fora de Alcoitão as espera, tantas vezes, o total desamparo. Se alguém tiver o contacto desse senhor Manuel Correia, fico grato, muito gostaria de o insultar pessoalmente.

Fomento nacional

Ao contrário dos escritores, que muitas vezes fazem fretes mediáticos para vender os seus livros (se bem que ainda não vi nada parecido ao frete de Alexanda Lucas Coelho, recentemente, ao entrevistar Lobo Antunes), ao contrário dos escritores, dizia, os políticos publicam precisamente para serem chamados à agenda mediática. O Livro é um pretexto que cumpre os seus intentos. Livros como os de Santana Lopes ou de Carrilho têm o mérito de inflectir a lógica mais diarista da agenda política, introduzindo uma reflexividade (ainda que umbiguista) sobre o tempo menos imediato; são, no fundo, a cenourinha a que Fátima Campos Ferreira ou Judite Sousa jamais conseguirão resistir. No entanto, seria bom, parece-me, que as análises mais dedicadas a esmiuçar o médio e o longo tempo da história política não dependessem tão vitalmente de teorias conspirativas, às quais, por mais tresloucadas que sejam, é sempre dado infinito tempo de antena. A televisão está a fomentar um mercado editorial alicerçado na indispensabilidade da cabala e na benevolência para com os "inadaptados" da democracia.

Aquela baforada


Aos bowieianos mais sensíveis, as minhas desculpas.

Mini-entrevistas

A minha vez na já épica série de entrevistas do Luís Carmelo.

6 meses

Recordo um período. Seis meses, numeremos assim, seis meses, claro, sendo modesto na contagem do apego às dissoluções e rotundo no anelo às datas redondas. Seis meses em que acordei, dia após dia, com um mesmo pensamento. Seis meses, modestamente contados, tudo se passando como se neles acordasse numa só coisa, dilacerando-me. Invariavelmente, uma só coisa, ainda na almofada esperando-me, inventasse o que inventasse para me adormecer. Uma só coisa. Seis meses em que fui aprendendo a vestir o pijama, ou pelo menos a despir as calças de ganga para dormir; seis meses em que fui aprendendo a vestir outra coisa além do pijama, ou pelo menos a trocar a roupa de dormir, seis meses em que fui aprendendo a habitar a mundo d'o que vem, vem', seis meses, enfim, em que fui aprendendo a conceber-me na posteridade. Terei percebido aí a lição do agora ido Geertz. Devo-lhe tantas coisas.

Termos pena de nós próprios pode ser doloso aos mundos da vida, mas a auto-comiseração também se pode revestir de um estranho sentido terapêutico: há nela algo de crucial para toldar o remorso, para mitigar a já patética angústia da culpa. Acordar tanto tempo com uma ideia deve ter algum tipo de efeito, suspeito, nos termos de quem lhe sobrevive. -- Sobreviver não é bem a palavra. Chamar-me sobrevivente é disparatado e ridículo ante as tantas coisas que as gentes sobrevêm com um heroísmo que me é estranho, pela escala dos acontecimentos que se me afiguraram e, quem sabe até, por uma caracterologia pouco dada a bolinas na desdita. -- Mas o efeito de seis meses a acordar com uma coisa fixa perde, creio, para a pesadíssima aprendizagem, que lhe é correlata, de seis meses sem nada fazer em relação a essa coisa. Seis meses a digerir certezas que o balanço do sono parece ignorar, resistindo a pegar no telemóvel. Na persistência post mortem a prova póstuma da entrega; na desistência um entranhado tarde demais, a rendição a uma espécie de incorrigível fracasso constitutivo. O locus desse fracasso constitutivo seria sempre incerto, mas suficiente consistente para evitar a loucura de voltarmos atrás. Pensava eu. Afinal, dois fins são mais securizantes do que um. Mas neles também habita o precedente da reversibilidade e por eles se dizima a ficção sobre o poder do adeus.

Se nem sempre podemos carregar as nossa opções -- seja no querer seja na conformação à queda --, carregaremos, como cruz ou como dádiva, a matriz de dissonância. As passagens iniciáticas nada determinam, mas a tamanhos e tão primevos desamparos não escapará, caso a caso, na sua exuberante violência, uma vaga gramática do amor.

"tenho a minha sexualidade definida" (sic.)

É todo um programa: esta resposta da Mafalda à bem-disposta provocação da Fernanda Câncio (cuja paciência para debater a IVG só é superada pelo requinte e honestidade argumentativa postos na coisa). Fique pois toda a sociedade a saber que a Mafalda é extremamente heterossexual e livrem-se de piadas a respeito da demonstrada necessidade de reiteração -- ainda que em total despropósito --, revelando, no mínimo, uma angustiante falta de humor . Curioso como o esquema simbólico na reiteração do "sou extremamente hetero e tenho testemunhas" se investe em exorcizar, ao mínimo sinal de desconforto, numa óbvia paranóia sobre o cabal cumprimento de um determinado programa sexual, o espectro da uma ambiguidade que, verdadeiramente, ninguém forjou senão a ansiedade identitária transportada na escusadíssima resposta.

P.S. Ó f., já agora, isso do mac e dos links não há maneira de se resolver antes de 2009?

Diáspora



Gerado no ventre de Raquel, José, o filho mais amado de Jacob, foi vendido pelos seus irmãos como escravo. No longínquo Egipto subiu na vida e à primeira oportunidade ajudou a família que o traiu (Génesis 40 a 47).

O cânone ocidental

Este blog apoia a moda das botas altas.

2012



Alguém insistia ontem comigo que o Apocalipse se dará em 2012. Continuei tranquilo. Nao porque consiga ficar imperturbével perante vozes cheias das suas profecias: as convicções inflamadas por mais excêntricas que sejam, conseguem-me sempre uma dúvida, por efémera ou desprezível que a venha a sentenciar. Ao ver a calma em mim, o místico adivinhou-me um céptico. Nao era bem disso a minha serenidade. A questão toda é que uma pessoa se habitua a viver em plano B e, poucos instantes da conversa iniciada, feitas as devidas contas, já me tinha calibrado para a eventualidade de 2012.

ontem a noite

Idas e voltas

Durante uma semana andarei escrevendo menos cadente e sem acentos. Umas quantas fronteiras atravessadas aqui tornarei para contar coisas. Até já.

Vertigo

As pessoas que escapando nos caem como versões de um mito que a nós pertence.


Hitchcock e Kim Novak.

Estava a pensar que alguma vantagem os leitores deste blogue teriam que ter por me aturarem e assim

1- Chamadas online de borla para rede fixa aqui.*

*A certa altura pedem um carregamento, mas mesmo depois disso as chamadas para rede fixa seguem em regime de gratituidade e o montante carregado pode ser usado em telemóves. Esqueçam o skype.

2- Esta promoção está mesmo a pedi-las.

As maravilhas da diplomacia



"A chefe da diplomacia de Israel lamentou, esta quarta-feira, o atraque do exército israelita a Beit Hanoun, do qual resultou a morte de 18 palestinos, entre os quais mulheres e crianças.«Israel faz tudo para evitar que as populações civis inocentes sejam atingidas durantes as operações militares, mas infelizmente acontecem tragédias. Estamos desolados», afirmou Tzipi Livni."

Acredita quem quiser.
Os testemunhos. (BBC News)

Metamorfose

Na medida em que as borbulhas da adolescência cessam um mês antes de se iniciar a calvice da meia-idade, aspirar ser adulto começa a ser uma escusada infantilidade. Uma perda de tempo.

Som e sentido

Vacilar

M. Night

Temas fracturantes na sociedade portuguesa que não o aborto.
Apesar de trucidado pela crítica nos States, o último filme de M. Night Shyamalan encontra entre nós reconhecidos acólitos. A dissensão é toda acerca da Senhora das Águas, como bem o evidenciam as extremadas avaliações entre o Público (nota média: péssimo) e no Expresso (nota média: excelente). Há tempos, Pedro Mexia na Câmara Clara deu a nota mais baixa à disposição ao filme de Shy, assim contrastando com a nota mais alta de sempre dada naquele programa em todo o ano de 2006 pelo crítico residente, Francisco Ferreira (nota que repete no expresso). Ontem na crónica do Público, Bernard da Costa evocava a Senhora das Águas, assim testificando, creio, da sua continuada devoção por um autor que fez questão de incluir (com o Unbreakable/protegido) nos seus 50 filmes inesquecíveis.
Aqui vai a minha classificação para os filmes que vi de M. Night Shyamalan. Conto tratar em breve das omissões (Signs, Stuart Little, Wide Awake, Praying with Anger) e assim ajudar a sociedade portuguesa a sair deste perigoso impasse.

Lady in the Water


**(duas estrelas)








The Village



***** (cinco estrelas)





Unbreakable



*** (três estrelas)




The Sixth Sense


**** (quatro estrelas)

Não são os galos que lutam

Clifford Geertz (1926-2006) vai sendo recordado por aí.
Fica nos destaques desta semana o Savage Minds (oportunamente assinalado pelo Miguel Vale de Almeida): blog de Antropologia onde podem encontrar ligações para tudo que é Geertz.

À atenção de Luís Freitas Lobo

As notas de futebol de Luís Freitas Lobo às sextas no público começam a preocupar-me. A abordagem de Luís Freitas Lobo ao futebol é excessivamente enciclopédica --em sentido estrito--, demasiado centrada na teoria da táctica, demasiado carregada de nostalgia geracional (aquela coisa de falar dos jogadores do tempo dele com lágrimas nos olhos). Ademais, como se nota nas crónicas, insiste em ligar o futebol às suas referências culturais e a profusas citações como não resiste àquele choradinho a la Galeano pela devolução do futebol aos seus artistas, choradinho que sinceramente já me comoveu mais. Isto para dizer que as notas de Luís Freitas Lobo às sextas no público valem o jornal e, como diria Paulo Gonzo, "numa palavra": são das melhores coisas da imprensa portuguesa. Preocupante.

Já agora, uma questão para o Luís na esperança de que algum amigo, conhecido ou parceira sexual o faça aqui chegar:

Na ausência de Anderson, a configuração do meio campo portista não deverá ter em conta a tentação do escorpião decorrente das características de Lucho, Meireles e Assunção? Se, como o provou o jogo do Hamburgo, este trio pode cumprir um cabal balanceamento ofensivo, posicionando-se na pressão alta, em busca do resultado, com Lucho e Meireles alternado-se nos territórios de Anderson, parece-me, por outro lado que, quando em vantagem ou em situação contenção de dividendos, se dá um recuo confrangedoramente subserviente e perigoso. Acredito que esse recuo se dá a despeito daquelas que sejam as instruções do treinador, não só pela fragilidade anímica deste (uma questão de carisma), mas devido a uma dramática confluência entre uma psicologia conservadora dos resultados obtidos (e.g. Benfica após 2-0, Sporting todo o jogo, Hamburgo após os 60 minutos) e um retorno aos lugares "naturais" em Lucho, Meireles e Assunção. Luís, um mail será bem-vindo que ando com o sono alterado desde que o Anderson foi à faca. Obrigado.

Eu conto umas 3

"numa palavra diria: sei-te de cor."
Paulo Gonzo Lyrics

Agora em vídeo


Definitivamente. Este golo não faz sentido.

O ridículo


Por muito que o calculismo financeiro ou que o clubismo regional possam pesar nos jornais de Lisboa, defendo pesadas penas de prisão para os autores de capas como esta: grafismo reles, escudados na ilusão de simetria, tudo para colocarem o Nuno Gomes em primeiríssimo plano (que segundo sei empurrou uma bola para dentro da baliza a passe de nariz de um escocês) e assim trivializarem o Lucho (que segundo sei fez o terceiro golo mais fastástico da noite europeia - após Lampard e Drogba).
Todos são livres de defender os seus interesses, mas eu diria que é do interesse de um jornal desportivo que tem no futebol o seu prato forte abastecer a ilusão que editorialmente percebe alguma coisa do assunto. É nestes momentos que me convenço que as conquistas do Porto tornadas possíveis em democracia não bastaram. Aqui, ao contrário da geopolítica em que as consequências humanas conduzem à vileza, ao morticínio e à escalada do ódio, defendo o princípio: esmagar para sobreviver (em Coimbra quase todos os cafés estavam ligados "no jogo para sonhar" do Benfica ). E já agora, "Noite para Sonhar?!" Não sei de que matéria são feitos os sonhos dos jornalistas do Record, mas caberá lembrar que se trata de um jogo da primeira fase dos grupos da liga dos campeões e que provavelmente até a mãe do Nuno Gomes deve estar entretida com coisas melhores para sonhar e que o Nuno Gomes provavelmente chegou a casa e comeu Corn Flakes e viu um filme de acção para animar a noite.

1926-2006

Clifford Geertz

"A vocação essencial da antropologia interpretativa não é responder às nossas questões mais profundas, mas tornar para nós disponíveis as respostas que os outros, guardando outras ovelhas noutros vales, deram, e incluí-las no repertório consultável do que o homem disse."

1-11