Obsceno


O golo do Lampard.

O valor da rua II

"Uma coisa é o PS nunca ter tido uma forte ligação ao mundo do trabalho. Outra bem diferente é prosseguir uma estratégia de hostilização dos sindicatos e utilizar uma retórica anti-sindical, a contrario da sua tradição e mimetizando os neoliberais. Além de deixar passar a ideia de que os problemas de funcionamento do sistema decorrem sobretudo dos funcionários. Também neste caso temos que concluir que, se isto não representa um reposicionamento ideológico, então o que é?" André Freire, no Público

O valor da rua

«Se o PS quer consistentemente liderar politicamente a modernização do país e não apenas protagonizar as medidas difíceis da consolidação orçamental conjunturalmente decisiva, de nada adianta a bravata de desvalorizar os indicadores de opinião e ficar insensível aos de agitação popular.
Se o que tem que ser feito tem mesmo que o ser e se há no OE muitas medidas inevitáveis, por muito impopulares que sejam, já não se percebe a clamorosa gestão das tarifas energéticas ou as medidas sem cobertura no Programa de Governo, de impacte financeiro assumidamente reduzido e violentas para as convicções socialistas, como as taxas moderadoras nos internamentos.
Seria um erro sério de percepção política ver só manipulação no que se passa "na rua".»Paulo Pedroso

3-2

A vitória arrancada a taquicardias não apaga a sublime demonstração de inanidade táctica e motivacional de Jesualdo Ferreira. Que Anderson não tem substituto como playmaker -- nem quem no mundo o bata nos "50 metros com bola colada ao pé" -- todos o sabemos, mas depois de 30 minutos esplendorosos, colocar o Raul Meireles dá um retrato vergonhoso do que possa ser esse tal de Jesualdo Ferreira.

O meio-campo Lucho-Meireles-Assunção podia ser uma combinação perfeita para dar a inicativa ao adversário e assim controlar o jogo de trás com transições rápidas para os móveis Postiga, Lisandro e Quaresma, naquilo que os especialistas chamam de contra-ataque. Mas, vá-se lá saber porquê, o facto é que esse meio-campo é uma merda com bastantes provas dadas. Um pouco de empirismo e o Sr. Jesualdo escusava de se colocar no patamar de consideração que devemos aos professores de educação física que nos tentaram ensinar a saltar trampolins. Depois daquela tragédia em Alvalade (sim, nem o Ivic era tão submisso), ficou claro que esse meio campo não consegue assumir sequer uma pressão baixa de controle, apenas ganhamos uma pressão arterial insultuosa, a total perda compasso do jogo e a total esperança no génio de Quaresma tanto quanto nas maravilhas dos ressaltos em bolas paradas.

Sr. Jesuado deixe de ler Kipling por um bocado e perceba que na ausência de Anderson, o Jorginho, não sendo um fenómeno, cumpre o lugar 10 e confere um personalidade atacante a um grupo que moralmente se ressente dos seus achaques de cobardia -- já para não falar da vergonha que o seu filho deve sentir. A interpretação psicanalítica das suas opções deixo-as para o seu biógrafo que por certo nos falará de algo muito precioso que perdeu na infância, porque fugiu da tropa, do seu gosto por umas chicotadas, etc...
Há opções que são pura cobardia e que nos dizem mais do que gostaríamos de saber sobre a destilaria anímica de tantos anos de banco. Os portistas devem perceber que, sem um movimento social de insulto, o Jesualdo não vai lá.-- Sim, não o deixo cair já. -- Caso contrário o treinador do Porto voltará a ser aquele homem que à frente do Benfica com 11 jogadores se acobardou contra 10 jogadores orientados por Mourinho e perdeu o jogo de joelhos. Apesar de injusta (nos seus termos) a vitória nem me soube assim tão bem: a cobardia sem castigo torna-se num perigoso um modo de vida. E está visto que temos homem para isso.

Tensões criativas

O Miguel Marujo tem uma rúbrica: "não deixes que a coerência te estrague um bom post".
Tentando adivinhar algumas variantes nos dilemas editoriais, aqui vão alguns conselhos afins:

"não deixes que um bom post estrague o ambiente lá em casa"
"não deixes que um bom post dê a perceber à tua mãe que és um ser sexuado"
"não deixes que a política te afaste de quem gostas de ler"
"não deixes que um bom post denuncie à tua ex-namorada que voltaste ao activo"
"não deixes que as manias intelectuais espantem as massas e molestem o sitemeter"
"não deixes que os posts pop te façam cair em desgraça ante os intelectuais"
"não deixes que as tuas convicções estraguem um bom post"
"não deixes que um bom post mal-expresse as tuas convicções"
"não deixes que um bom post exagere da tua mundanidade"
"não deixes que o teu clubismo te antagonize com os preciosos leitores portistas"
"não deixes que um bom post te corte a bebedeira"
"não acabes com o blog porque apanhaste uma tampa e estás de mal com o mundo"
"não deixes que um bom post estrague as tuas hipóteses com a Liliana Santos"
"não deixes que um bom post te hipoteque um emprego como revisor de texto do José Manuel Fernandes"
"não deixes que os azares ao amor perturbem a tua influência política em tempo de guerra"

Sendo este um exercício especulativo, fico, curioso, à espera -- naturalmente sentado -- de contribuições pessoalmente informadas por esses blogs afora.

Imagens que marcam

No início do jogo: Paulo Bento à entrada do túnel a desviar-se de Jardel, notoriamente para não o cumprimentar, enquanto se ria desbragado.

Vinho

Avancei para a porta resoluto em acalmar a campaínha. Pelo óculo vejo dois miúdos pelos seus 8 anos que por perceberem os meus passos logo se puseram a trautear “bolinhos e bolinhós…”. Nostálgico das minhas próprias investidas cidade afora, idos tempos em que os meus caracóis, jeito roliço e timidez natural me subsidiavam cromos para o mês, lá me decidi a contribuir com umas moedas. Demorei algum tempo para encontrar a carteira, mas os petizes aguardavam pacientes, já certos do vindouro provento. Lá íamos entabulando conversa enquanto eu passeava pela casa a maldizer o buraco onde se teria enfiado a carteira.
Achada a carteira, entrego as moedas, gorjeta incluída pela espera. Cúmplice, indico um ou outro andar onde deveriam aprumar a voz, está nos livros: as “vizinhas endinheiradas e com coração mole” são um repasto para a malta dos bolinhos e bolinhós. Despeço-me, até porque os tempos já não aconselham saudável cavaqueira com infantes estranhos. Eis quando me pedem um último favor, quase em lamento: “o senhor (sic) podia ficar com esta garrafa de vinho que nos ofereceram e não queremos para nada e custa-nos agora andar a carregar”. Estupefacto, ainda ofereci alguma resistência, mas depois de ver a qualidade do vinho e o ar suplicante dos petizes não pude fazer outra coisa senão aceitar a botelha que jaz aqui ao meu lado no momento em que vos escrevo.
As dádivas desinteressadas nunca o serão completamente. A boa consciência que criam no dador, a suspeita que contribuem para uma cadeia de actos generosos que alimentarão o bem-ser colectivo ou a fé nalguma justiça divina são excelentes argumentos para a mitologia do retorno. No caso de ontem, reconheço, as coisas aconteceram muito rapidamente. Se hoje beber vinho ao jantar brindarei a isso: uma espécie de bodas de Canaã com o vinho de alguma vizinha a cuja porta não tardará o rapaz do gás.

Ler

A crónica de Pacheco Pereira no Público sobre a dessava mediática da intimidade. "Concordo muitíssimo" e só não acrescento desde já algumas notas de análise ao exemplo âncora porque cada linha é repasto de abutres e, também, porque muito me agrada que na blogosfera as pessoas possam ser lidas e consideradas pelo que escrevem dizem e não pelo que delas se diz e escreve.

Ocidente e o "chegar do tempo"

«[S]ó podemos compreender um acontecimento como o fim e culminar de tudo o que antes aconteceu, como um "chegar do tempo". (…)Tal como nas nossas vidas pessoais os piores medos e as melhores esperanças nunca nos preparam para aquilo que realmente acontece ─ porque no momento em que um acontecimento, ainda que previsto, se produz, todas as coisas mudam, e nós nunca poderemos estar preparados para a inesgotável efectividade deste "todas as coisas"» Hannah Arendt
Sinceramente, não creio que haja saída clara para o debate "terá o nazismo representado o estilhaçar da cultura e da história prévia em que surgiu ou, ao contrário, o seu corolário?" Arendt, elege a primeira hipótese: "O nazismo nada deve à tradição ocidental, nem a qualquer das suas correntes. Muito pelo contrário o nazismo significa de facto a derrocada de todas as tradições alemãs ou europeias, das boas como das más".

Discordo "violentamente". É um facto que não podemos apontar a especificidade da semente alemã para com isso eximirmos o restante Ocidente, conforme lembra Laurence Rees: “nada existia de "especificamente exterminatório" ― para usar uma terminologia académica recente ― na sociedade alemã, antes de os nazis chegarem ao poder”.
Mas daí a ver o nazismo ― como vê Arendt ― como mera derrocada do mundo prévio parece-me profundamente ingénuo. A alinhar por essa confortável escatologia não estaríamos a esquecer que as teorias eugenistas ― cintilante produto da lógica iluminista de refundação do mundo ― se encontravam disseminadas nos círculos científicos da Europa e Estados Unidos, como legítimas e boas, até ao mau nome que o Nazismo lhe concedeu? Não estaríamos a esquecer de que modo o anti-semitismo se encontrava impregnado no inconsciente colectivo europeu? Não estaríamos a esquecer de que modo o ar do progresso e do triunfalismo racional inebriaram experimentações como as de Josef Mengele? Não estaríamos a esquecer o quanto as aclamadas conquistas civilizacionais intramuros acompanharam o ferro colonizador mundo afora? Não estaríamos a esquecer que os alemães perpetram um genocídio, em pleno século XX, na Namíbia entre 1904 e 1907, dizimando 80% dos Herero? Não estaríamos a esquecer que os bons da segunda guerra fizeram Hiroshima, Nagazaqui, Dresden? Não nos estaríamos a esquecer que os soldados soviéticos não só libertaram Auschwitz como empreenderem, à medida que avançavam pelo território alemão, sistemáticas violações sexuais sistemáticas sobre mulheres judias (calcula-se que na ordem das centenas de milhar), sobreviventes a anos de humilhação e sofrimento? -- as violações em larga escala seriam impensáveis para os nazis tal era a fobia ao sangue judeu.

Vale por isso voltar à primeira formulação de Arendt para conceber os “acontecimentos-limite” simultaneamente como fim e consumação do que estava antes. Assim se passa na história, assim sucede na vida pessoal. Ao mesmo tempo que constituem inéditas possibilidades “inventivas” de descontinuidade, as rupturas nutrem-se sempre do passado a que se apõem. O triunfalismo sobre os valores do Ocidente e suas conquistas anda por estes dias muito em voga. Quando o facto é que sob os pés do Ocidente estão todas as heranças: o genocídio e a democracia (Sócrates e Jesus, nomes maiores da fonte Grega e judaico-cristã, foram mortos pelas suas sociedades)

Saber escolher a cada momento é crucial e abissalmente diferente de acreditar na inerente bondade das nossas escolhas apenas porque tomadas em democracia e liberdade. Infelizmente, há muito Ocidente que quando provocado recapitula e actualiza na sua "libido civilizacional" um pouco de tudo o que foi sendo feito - na mais cândida desmemória. Aberto o património do Ocidente como um leque, seguindo o ar deste tempo, percebemos sem dificuldade que todas as possibilidades estão vivas e em aberto.

Capciosismos

Não vai passar a música a tentar perceber se "é gajo ou gaja", descontraia e deixe isso para as crónicas do João César.

A frase, só aparentemente prosaica, é de Marguerite Duras, algures no India Song: "alguma dor confunde-se com a música". Por vezes a despeito daquilo que dizem ou daquilo que o autor quis fazer com elas, há músicas que se enleiam com os nossos abismos pessoais, desamparos e saudades instaladas; outras vezes, evocam tudo isso sem pudor, são as dores musicalmente instadas. É aí que os desconsolos se podem confundir com a música e com as "captações de mágoa" por ela providas, adormeço uma vez mais persuadido que a razão é de Borges "as palavras escritas por um rei que desejava o Oriente serviram-me a mim, desterrado na África para a minha nostalgia de Espanha". Se ouço e leio em demasia -- na medida dos sobressaltos de alma, claro está -- no limite, bem me posso dispensar a entender o que leio ou o que ouço. Se à hora da música entendo qualquer esgar de gente onde o outro diz Espanha, serei sempre um daqueles casos em que todos os outros se enganam na letra. Para não falar no excesso de violinos pela casa.

Um ano passado


Leituras


Índico

Gaja grossa

Sempre me intrigou o adjectivo de "grossa" no modo como é alocado pela estética libidinal masculina. O termo grossa -- e.g. "aquela gaja é grossa que até dói" -- envia-nos, parece-me, para um deslumbre sexual marcado 1) pela generosidade das formas da designada 2) pela desfaçatez rústica do desejo desperto.

Assim sendo, ao contrário do que se poderia supor, "a donzela de grossa designada" não está separada da graciosidade do jeito ou, tampouco, de uma figura esguia (embora a generosidade das formas seja a regra); na verdade, a grossura (cuja estirpe conceptual refinada remete para a ideia de voluptuosidade) tem mais a ver com uma projecção que inflaciona o carnal, adendado-lhe materialidade -- engrossando-o, pois.
A noção de grossa dá corpo e nome social a ensejos que se sabem martricialmente frustrados, tudo num desigual alinhamento entre o muito que se vê (a banda larga contemplativa) e a inapelável estreiteza da biografia.

Sexo seguro


"In a national epic more Portuguese that Roman Catholic (despite its professed piety) the audacious Camoens takes back from Koran its vision of the sexual bliss awaiting the warriors of Islam in Paradise. Camoens, again ironically, does better than Muhammaad; Vasco da Gama and his heroic mariners experience their imortal orgasms with the nymphs without the inconvenience of dying first." Harold Bloom, Genius

A Seguir

A discussão sobre o aquecimento global no Klepsydra aprendendo algumas coisas de caminho.

Défice

Estivesse o governo tão preocupado em inventariar o número de repartições de finanças em que "cadeiras de rodas não entram" como em "moderar" os benefícios fiscais das pessoas com deficiência...

O nosso Galileu

Um dos dados mais interessantes de "An Inconvenient truth" é a referência ali feita a uma investigação em que Noami Oreskes se investiu em explorar artigos publicados em revistas científicas com arbitragem peer-review. Desse estudo se conclui que dos 928 artigos aleatoriamente seleccionados em revistas científicas não há um único que levante dúvidas sobre a relação entre a concentração de CO2 e o aquecimento global - pelo contrário, essa relação é esmagadoramente sustentada como causa primeva para as alterações climáticas. Número que signifcativamente colide com uma pesquisa feita a 600 atrigos surgidos na imprensa popular, onde se verificou que 53% dos textos vão no sentido de descartar essa causalidade. Adivinhem qual é a opinião cientificamente informada do João Miranda.

Nomes forjados

"Eu sempre achei um bocado pateta aquela mania de inventar pseudónimos com ar de ascendência estrangeira ou de solar brasonado nas berças. Ou as duas coisas. Ser o José Silva e passar a chamar-se Martim Holstein da Fonseca para efeitos de publicação de brochuras é o equivalente literário a voltar de 20 anos como trolha na banlieue e construir uma casa gigantesca forrada com 20 tipos diferentes de azulejos no sítio onde os pais costumavam guardar as cabras — para tentar esquecer que os pais guardavam cabras. Eu sempre imaginei que, se um dia precisasse de um pseudónimo para alguma coisa, inventaria um nome tão ou mais indecentemente vulgar que o meu nome verdadeiro. Adília Lopes, por exemplo. É pena que Adília Lopes agora já não possa ser. O que vale é que continuo a não precisar de um pseudónimo para nada."

Adeus Jorge Costa


Quanto àquele Porto, aquele por que um dia me apaixonei em improvável latitude: até um destes dias.
"O FC Porto tem uma equipa forte, ganha porque é melhor que os outros, mas tem vindo a perder mística. Mística são os jogadores que sentem o clube." Jorge Costa

IVG

Na campanha, Sócrates fará apelo ao voto na solução "moderada, equilibrada e razoável" que os socialistas preconizam, contrariando teses mais radicais defendidas nomeadamente por certas franjas, que em 1998 gritavam "Na minha barriga quem manda sou eu". O referendo então realizado deu uma vitória tangencial ao "não".

Cabe lembrar que o simétrico do efeito César das Neves (granadas dentro da própria trincheira) é aquela malta sempre excitada com o slogan da "barriga é minha"! Inventem outro, calem-se, ou inscrevam-se de uma vez por todas numa organização que milite pela manutenção da lei vigente. Na da Tété, por exemplo.

Palavra do sr. César das Neves


Hoje, ao contrário de há oito anos, o País vive uma crise grave, com estagnação económica, alto desemprego, fortes carências e contestações em múltiplos sectores. Iniciar nestas condições um debate sobre uma questão tão controversa e dolorosa parece loucura total.

O aborto, como o terrorismo ou o crime, não melhora com o desenvolvimento, flutua com a moralidade.

Portugal em 1998 conseguiu conter a principal maré ideológica do nosso tempo. Se o aborto tivesse sido liberalizado, sofreríamos agora a confusão de temas que países próximos, com leis mais "avançadas", sofrem. E viveríamos os terríveis estragos humanos que por lá se vivem.


Estou convencido que o resultado no referendo pela despenalização do aborto muito depende do protagonismo que venha a ser obtido por figuras como César das Neves, Paulo Portas e Alexandra Tété. Portanto: é dar-lhes antena.

Hard Candy


Da pedofília e da nossa sede de justiça.

Hipocrisia cool

Condoleezza Rice defendeu um Estado palestiniano "livre da humilhação diária
da ocupação"


Condescendo mais com vozes que não tendo noção da realidade se inebriam na força das suas convicções -- e como as há... -- do que aquelas que, conscientes das pulhices da vida, as evocam como concessões hipócritas, diplomáticas, para assim se eximirem da culpa da complacência activa e preservarem autoridade moral perante o inominável.

Homi K. Bhabha

Se puderem é bem capaz de valer a viagem.

Êxtase

Carlos Carvalho, um leitor do Abrupto, expressava estupefacção perante um constrangedor episódio televisivo por si testemunhado. Nele, um apresentador do programa êxtase, da SIC, surgia a apalpar o rabo de algumas transeuntes 'alegando' ser 'para os apanhados'. Não vi o dito programa, mas nada me custa a imaginar que o dito apresentador seja um senhor que dá pelo nome de Nuno Eiró. Ainda que não tenha sido, sinto-me à vontade para falar pelo pouco que já vi do acima citado. Aliás, só me ocorre questionar como é que a SIC dá tempo de antena a uma personagem que, usando o poder mediático que lhe foi investido, sistematicamente se dedica a fazer um 'humor' que não só é boçal e confrangedor, como, amiúde, profundamente humilhante. É certo que parecem faltar mulheres para o mandar à merda, no entanto, falamos perante um certo viés na medida em que o poder destas gentes actua em dois sentidos:
1- Colocam a capacidade de reacção das entrevistadas reféns do desejo destas em se sairem com graça numa rara aparição mediática (assim engolindo sapos com um sorriso amarelo, o que não deixa de ser pesaroso);
2- Cortam o que não interessa; isto é, mulheres, desejo que muitas, com têmpera para o mandar brincar alhures.

Adular formas, intentar piropos originais e embever-se com a beleza feminina, são, creio, justas e maturadas prerrogativas de uma masculinidade 'languidamente contemplativa'. A humilhante incontinência de testerona mal parada fazendo uso de um 'poder contingente ou estrutural' é outra coisa.

P.s. Como diria o maradona citando oVasco Pulido Valente mas mudando o nome:
Espero que a Fernanda Câncio concorde (e já agora que não conheça pessoalmente o dito apresentador).

Ménage: Butler, Laclau, Zizek


A reduzida postagem dos últimos dias deve muito à dedicação que vou concedendo a este ménage à trois (estas trocas de fluidos teóricos têm tanto de extasiantes e geniais como de cansativas e indigestas).
'Mesmo no voyuerismo, nunca sou só eu e o objecto que espio, um terceiro olhar está lá sempre: o olhar que me observa a observar o objecto.' Zizek, minha tradução
Portanto, para dar corda às palavras do bom do esloveno, poderia dizer que eu me "celebro" neste post como voyeur/leitor deste ménage para, desse modo, materializar o terceiro olhar (de que fala o Zizek) nos leitores do blog- o olhar até aqui espectral/imaginado que me acompanhou na leitura. Essa objectificação/materialização do terceiro olhar, nas suas indomáveis ramificações é, quero crer, um dos mais fundamentais mecanismos geradores de escrita no que à bloga pessoalista diz respeito.

Luís filipe Vieira e a sua Liv Ullman

Até pode ser que Pacheco Pereira tenha razão, mas a análise que faz merece ser domesticada na ambição: de facto é difícil não consentir no modo como a caracterização distópica que JPP aplica ao futebol português parece espelhar com particular exatidão, isso sim, o universo benfiquista e o da selecção nacional/versão Scolari (eu sei, o mais contraditório dos movimentos retóricos: sou fatalmente libidinal no que ao futebol diz respeito). Mais a sério. Para mim, passar ao lado do fenómeno futebolístico português seria perder preciosidades como aquele episódio de um presidente que escolhe um árbitro, sem que a isso chame corrupção ou sem que a isso associe a busca de benefício directo, assim nos legando o valiosísimo conceito de árbitro-fetiche.

Vale a pena reparar no inédito estilo lúdico-confessional que JPP adoptou nesta crónica. É também curioso como esta crónica parece dialogar, no estilo que a forja, linha a linha, com este texto em que Pedro Mexia, analisando o registo do Abrupo, denunciava em JPP uma certa sobranceria moral e a permanência de uma certa estética esquerdista de que a impessoalidade seria a marca mais saliente.

Jesualdo

Cafajeste, já que vais estar frente a frente com o Jesualdo, aqui vão as minhas propostas de pergunta:

1- O que acha do prolixo uso da metáfora do maestro nas lides futebolísticas desde que o Rui Costa foi para o Benfica?
2- A má qualidade dos centrais do Porto desde há 3 anos é uma opção ou uma promessa sobre a qual devamos saber algo mais?
3- Se Anderson se consegue jogar aquilo no seu sistema táctico-anímico equivale a dizer que já superou o Ronaldinho?

Touradas e Pornografia

Porque é que a RTP transmite touradas (sem pudor na escolha de horários) e se abstém de fazer algo similar em relação à pornografia?

A pergunta que aqui avanço pode parecer absurda, eu sei, eu sei, mas às vezes estes dislates permitem ilustrar outros absurdos que nos habituamos a trivializar. Este exercício leva o seu quê de demagogia, mas é mais gritante, parece-me, a demagogia instalada.

Vamos por partes.
1- No programa Voz do Cidadão, passado sábado, em que se debateu a bondade da transmissão de touradas na televisão pública -- um programa que se transformou na mais insólita apologia à tourada que já passada em televisão, se exceptuarmos, claro, o semanal ARTE & EMOÇÃO -- nesse programa, dizia, o Provedor Paquete de Oliveira defendeu o televisionamento de touradas em nome da vasta população portuguesa que as segue e as apoia. Nem valia a pena lembrar o insigne Provedor de sondagens que mostram que 74% dos portugueses são contra as touradas e 82% contra os touros de morte. Demos de barato. Ora, mas não custará supor que exista também uma elevada percentagem de portugueses que segue a pornografia e a apoia, embora não o faça necessariamente na arena pública (expressão preciosa). Por outro lado, se rebuscarmos a ideia que cabe à televisão pública assegurar o comprazimento das diversidades e das minorias, porque raio não contam com as minorias (ou maiorias) sexualmente insatisfeitas (e daí talvez aumentasse dramaticamente a simpatia nos guichets com um mero programa semanal se pornografia).

2- O Provedor alegou da importância identitária das touradas, enumerando, inclusive, cidades em que eles ocupam um lugar privilegiado na fundação cultural. Mas nem todas as identidades se constroem colectivamente e a pornografia, sem necessariamente ser o cimento identitário de qualquer colectividade, ocupa um lugar que seria gravoso negligenciar na vida e na identidade pessoal de muitos portugueses (para o mal e para o bem). Saberá o provedor que há identidades sexuais que, por estarem reprimidas no espaço público, se "realizam" mediante os conteúdos pornográficos que a RTP nega aos portugueses ao mesmo tempo que lhes confere touradas a rodos.

3- Certamente, alegaria o Provedor, que a exibição de pornografia em horários de fácil acesso aos petizes fere a sensibilidade e poderá ter consequências nefastas sobre a formação de toda uma geração. De acordo. Como se explica então que as touradas passem na televisão a qualquer hora sem que isso seja entendido como um espectáculo pelo menos tão chocante como qualquer cena pornográfica de GangBang SadoMaso (audiências do blog a subir)? A menos que acreditemos na tradição portuguesa da tourada como o manto cultural capaz trivializar o sofrimento, há aqui algo de profundamente desequilibrado -- ou perverso, já que estamos numa de. Tal como a pornografia é uma linguagem do exagero em relação ao prazer sexual e à submissão, também a tourada é uma linguagem do exagero em relação ao sofrimento e à coragem. Emulam-se na capacidade de choque e no fascínio que exercem por via do excesso que comportam.

Não simpatizo particularmente com nenhuma destas linguagens do exagero, mas revolve-me que uma passe na televisão às 7 da tarde na RTP e a outra seja velada por apelo a valores mais altos.

Sobre esse insólito que é o Liberal à Portuguesa

Ler o "O estranho Caso do Prof. Arroja".

Beijo ao lado

A mama que primeiramente se beija constitui à vez um pacto eterno com o mamilo assim eleito e a perene distância daquele que, na primeira impressão labial, fica ali, olhando de lado para o anelo vizinho. Existe todo um mundo de escolhas que não se dramatizam demasiado, seja pelo medo de reconhecer uma opção forte onde se julgara só haver desejo, seja pelo comprazimento na certeza de que a mais pródiga das devoções é a que procura colmatar, às vezes pelo tempo de uma vida, um beijo ao lado.