Propaganda reles

Foi absolutamente vergonhoso e insultuoso o modo como se representou na Voz do cidadão a contenda sobre a bondade da trasmissão, promoção e produção de touradas na televisão pública. Tanto nas reportagens passadas como na voz do provedor, tudo decorreu com um desequilibrio ridículo, tudo construído para desfazer a dúvida que era suposto ter sido nutrida e problematizada. Mas nada, tudo minuciosamente encomendado para justificar o veridicto do Provedor. Se a Voz do Cidadão serve à RTP para este simulacro de debate e recusa do questionamento bem escusavam de se dar ao trabalho.

Despe-te que suas


Directamente do baú. Encanta-me por demais o delicioso sincretismo: de um lado a "sociedade administrada" de Adorno e do outro a indomesticável paródia de um bom conselho.

Ainda sobre o Papa

Valerá a pena ler.


There's a crack in the roof where the rain pours through.

Teoria da Conspiração

Quem quiser compreender o que há de relacionalmente forjado no fundamentalismo islâmico capaz de terrorismo, ou, pelo menos, quem quiser compreender a presente escala e facilidade de disseminação pelas novas gerações desse radicalismo, não pode deixar de pôr em altíssima conta este documento que analisa os efeitos da invasão iraquiana na conversão da Al-qaeda numa perigosa ideologia. A face do Ocidente invasor é Bush não o Papa, de quem, sublinhe-se, apenas se esperava que seguisse o trilho conciliador de João Paulo II (aquilo que em discussão alguém designava de "abrir as pernas aos muçulmanos" - sem comentários tal compósito de alarvidade).

Já agora, Pacheco Pereira bem que se podia ter poupado a insultar, como o fez, os que deliberaram dar crédito ao documentário Loose Change: "Ponham lá aí um cartaz a dizer que eu sou muito estúpido". Sujeita-se, a que alguém o lembre, como lhe lembrou o Boss, que acreditou nas armas de destruição maciça. Sem avaliações insultuosas à capacidade intelectual de quem quer que seja, vale lembrar que o negacionismo e o voluntarismo inconsequente se irmanam na história da barbárie.

Luxo


Via Daedalus.

6 coisas

O Francisco Curate lança-me um desafio que vem em corrente: incita-me a contar 6 coisas sobre mim. Apesar de um avantajado despudor confessional, tenho sempre muita dificuldade em me deixar radiografar por estes testes. Respondo, enfim, em jeito de Emporio celestial de conocimientos benévolos. As falhas graves de carácter estão naturalmente omissas:

- Sou extremamente simpático ©
- Durmo preferencialmente no chão
- Sou pontualmente vegetariano (no caso de não haver carne)
- Não consigo beber imperiais em copos abaulados (só os longilíneos que se abrem para o céu)
- Sou vidrado em cafuné
- Quando jogo futebol tenho visões (daquelas jogadas mirabolantes que só eu vejo mas que raramente consigo partilhar, executando)



Em curso

Pelo muito que tem de substantivo, merece ser seguido com todo o interesse o debate mantido, à boleia do Papa, entre o Luís Mourão, o Rui Bebiano e o Carlos Leone. Lá voltarei.

Anderson


A centelha de Ronaldinho e a cultura táctica de Deco. Se as minhas críticas se detêm vezes demais na soleira da porta de Pinto da Costa -- prefiro vilipendiar treinadores a lembrar quem os contrata -- reconheçam-me a sábia detença: o homem acerta por demais.

Contraditório

Rui, concedo que a composição do post me tenha induzido a falhar o intento retórico lendo, errada e abusivamente, na questão que formulas algo da tua posição. É provável que a esse viés de leitura não seja indiferente ao que dizes, citas e recomendas no post Caricaturas - Parte 2, em todo o caso e, pelo mais elementar direito ao contraditório, estão repostos, no mesmo espaço (i.e. no avatares), os termos da tua intencionalidade primeva.

Jon Stewart no Crossfire (2004)


Da coragem

Ainda sobre o Papa, diz o Rui Bebiano, na Terceira Noite:
Poderíamos dizer que foi um impulso, um repente, um instante de pathos determinado pela emoção do reencontro com o lugar do erudito e do professor que fala ex cathedra. Mas não o creio: quem é dado a repentes não chega tão longe entre sotainas e cabeções, não assoma com aquele à-vontade e trajado de branco às janelas do Vaticano. Terá sido então um acto de coragem, uma forma de enfrentar o recuo das democracias perante um lado do Islão que exige cada vez mais, que aspira ao pagamento do tributo e à humilhação do infiel?

(Nota Intercalar de um comentário do Rui Bebiano: "Tentarei contra-argumentar logo que possível. Para já apenas uma nota para que os leitores que não me forem ler se não confundam: a frase citada termina com um ponto de interrogação, funcionando como pergunta retórica. Não corresponde pois «ao que eu penso», como não corresponderá sequer, calculo, «aquilo que pretendeu dizer" o Ratzinger.")

O que sublinho a bold emerge sintomático do que eu considero uma perigosa deriva civilizacional de confrontação totalizante, que se deixa tomar pelo ressentimento, pela vendetta e pela facilidade em confluir o "Islão" com o terrorismo fundamentalista. Rui, que o radicalismo islâmico existe, facto cintilante. Que esse radicalismo se legimitima em leituras belicistas dos textos sagrados e na entronização do martírio, assim suportando o apelo do terrorismo e a morte de inocentes, facto. Que esse radicalismo usa insidiosamente causas emblemáticas como a Palestina e a presença de tropas americanas juntos aos lugares sagrados da Arábia Saudita para cumprir a sua própria agenda tanto teológica como política, facto. Tudo isto nós sabemos, creio, mas também concordaremos que o fundamenalismo não representa o Islão, mas antes uma ideologia extremista cuja base de acolhimento vem -- reconheça-se -- sendo crescente. Caro Rui, perante isto há duas possibilidades.

1- Estabelecer o discurso do nós e eles (só estes termos em gente bem-pensante já me tiram do sério), tendencialmente tomando-os como um todo, assobiando para o potencial de radicalização de coisas como Iraque, Abu Grahib, Guantanamo, Líbano. Esta linha assume como coragem a confontação civilizacional, coragem que implicitamente exaltas no Papa por apelo à sacralização da liberdade per se, valor naturalmente muito caro às sociedes europeias pós-totalitárias (que tão bem tratas no trabalho académico) mas que tem sido prostituído ao ponto de se pode usar a liberdade como bem absoluto, sem prudência nem responsabilidade (Bush está sempre a falar dos Freedom Fighters, e no entanto, é o Bush, a liberdade merece melhor trato). A consequência deste posicionamento é, obviamente, favorecer a transformação da Al qaeda, já não uma organização de fanáticos mas uma ideologia com crescente acolhimento no mundo islâmico, ou seja, comprando a guerra civilizacional, sem mais, empurram-se moderados para o radicalismo e para o conhecido fenómeno antropológico da "exageração de culturas".

2- A segunda forma de acção, aquela que eu reputo de inteligente e previdente, reconhcendo o fundamentalismo islâmico e o terrorismo como um mal injustificável, procurar isolar o radicalismo fundamentalista não só militarmente, como tem sido feito, mas também ideologicamente: por uma atitude de exaltação do Islão moderado, por uma vontade de diálogo (não com os radicais), por uma pressão à retirada de Israel da Palestina (que assim deixaria de ficar como o único capital de injustiça que concita o mundo islâmico, ali posto ao serviço de agendas de toda a ordem). Visa tal atitude retirar base social de apoio às políticas do ressentimento, isolando o fundamentalismo e recuperando autoridade moral para que o Ocidente possa levar algo da bondade dos seus valores (é ridículo achar que os discursos sobre a determinação das mulheres e dos gays possam ter a mesma capacidade influência depois das imagens de moléstia sexual de Abu Grahib).

Para concluir, Rui, aquilo que, ao contrário da inteligência póstuma do próprio Papa, pareces exaltar como um acto de coragem, um discurso apostado em enfrentar o recuo das democracias ante o Islão, eu vejo como uma imprudência do belicismo discursivo que se presta à simetria com o fundamentalismo, ao embate civilizacional e que encosta o Islão moderado ao fundamentalismo, qual profecia que se quer cumprir. Opiniões.

L world

Eu, cujos tempos circadianos pouco afinam com a lógica de fidelidade querida pelas séries (ainda que em dvd), fui-me deixando agarrar por uma tal L World que agora passa na 2. Estava a pensar nisso mesmo, nesse insólito, enquanto caminhava para o segundo episódio da noite concedido pela televisão pública. Mas o descalabro adensou-se. O episódio de hoje (são 2:30 da manhã quando vos escrevo) acaba com uma escritora a acordar num motel. Tindersticks a tocar ao fundo, pequenos seios desnudos, mal dormida, só desperta realmente quando, após muito deambular, encontra a aliança deixada em cima da mesinha de cabeceira (o casamento tinha-se realizado na noite anterior para, numa fuga para a frente, superar uma traição lesbiana apanhada em flagrante, mas, como já faria adivinhar a malograda lua de mel, o gajo revelou menos poder de encaixe do que gostaria e foi-se, nitidamente transtornado, para não voltar - supõe-se ). Tindersticks a tocar ao fundo, dizia. A poética de abandono já estaria suficientemente bem coreografada para a minha compleição emocional não fosse dar-se o caso de na minha aparelhagem ter estado, ao serviço, todo o dia, exactamente o mesmo album de tindersticks com que o episódio termina - repesquei-o esta manhã para o palco do meu quarto, sabe-se lá por que sorte. O que me leva a pensar que será melhor seguir a série - também como telespectador - nem que seja por um mínimo de consideração por estas armações transcendentes.

1 ano

Os meus parabéns ao Estado Civil.

Mesmo quando as aparições esparsas ou citações escondem a custo uma ausência, lá aparece um ou outro dito que me concilia com a singularidade da bloga mexiana. Essa ameaça não vale pouco.

Shakira

Ariel, se de facto o corporate multiculturalism se move agora ao ritmo das ancas da Shakira, o estado avançado do capitalismo (ou capitalismo tardio, como preferem os marxistas) ressalta, pois então, como uma condição cintilante.

Ler

"O Papa, a Europa e a Turquia", Teresa de Sousa no Público (sem link):
(...) Bento XVI não é João Paulo II. Mas não poderia ignorar o destino mais do que provável das suas palavras, fosse qual fosse o contexto em que as pronunciou. É, pois, legítimo perguntar se este Papa quer redefinir os termos do diálogo com o Islão estabelecidos pelo seu antecessor. E isso é tanto mais importante quanto a relação entre cristianismo e islamismo podem ser para o seu pontificado o que foi o confronto ideológico entre democracia e comunismo para o do seu antecessor.
O que já sabemos do cardeal Ratzinger é que se pronunciou várias vezes contra a adesão da Turquia, argumentando que a Turquia pertence a uma esfera cultural diferente. Do Papa sabemos que, na sua aula da Universidade alemã de Ratisbona, voltou a fazer a defesa veemente do cristianismo como "o criador" da Europa e a sua qualidade racional como o fruto da helenização da Europa. O que sabemos também de Bento XVII é que decidiu visitar a Turquia (no próximo mês de Novembro), num gesto até agora inédito mas ao qual as suas palavras de Ratisbona vieram criar um novo e particular contexto.
A Turquia tem lugar na Europa porque o projecto de integração europeia assenta na comunhão dos mesmos valores políticos da democracia, na mesma crença na universalidade dos direitos humanos, na liberdade e na tolerância. Independentemente da religião, ou da etnia ou da nacionalidade. Que lugar lhe vai atribuir o Papa?

Pelo que aí vou lendo, é melhor voltar a tentar

Via Público:
"A reacção islâmica foi a pior e a mais despropositada, mas a alocução papal era desnecessária e objectivamente visou marcar uma diferença entre duas religiões. Uma diferença e uma superioridade."
José Leite Pereira
Jornal de Notícias, 17-09-06
Curioso, quando se fala de Muçulmanos o Papa ganha os mais insuspeitos defensores. Insólita, a nostalgia bizantina que perpassa (Império por Império, o dos bons, dirão saudosos). A Guarda Suíça de circunstância -- aparentemente não menos ávida de animosidades do que a (assim designada) rua islâmica -- prefere esquecer que o próprio Papa, sem precisar de muletas oportunistas, e sem pedir desculpas, soube viver muito bem -- com classe, diria -- ao dia seguinte. A vontade de simetrias com o radicalismo islâmico, a despeito de um diálogo investido de vontades moderadoras, pressente-se nestes dias, e não é certamente no Papa.

Jesualdo Ferreira


O descontemento militante que dirigi aos treinadores que desfilaram no Dragão na época pós-mourinho justifica a insistência de alguns leitores. Pedem-me uma opinião clara sobre Jesualdo Ferreira. Como às vezes a limipidez de pensamento se dá por interposto dito, devidamente descontextualizado, permitam que me clarifique por citação:
"Estou tão cansada que permito mais do que aquilo que é razoável."

d'O Processo, Kafka

Minas anti-pessoais


Relatório 2006: 13 países continuam a produzir minas anti-pessoais: Birmânia, Coreia do Norte, Coreia do Sul, China, Cuba, Estados Unidos da América, India, Irão, Nepal, Paquistão, Russia, Singapura e Vietname

Não deixa de ser curioso verificar a lista dos países que até Abril deste ano ainda não tinham ratificado o Tratado de Otava. Entre amigos.

Ratzinger

Antes de condenar a natureza instrinsecamente bélica do Islão, o Papa, que nas suas declarações remete, curiosamente, para um período contemporâneo da Inquisição Católica, devia lembrar que, quando se quer usar a violência em nome de Deus há sempre por onde pegar. Ou não conhecerá ele este versículo bíblico no Livro de Mateus, para onde a voz de Jesus foi assim transposta:

"Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada" (Mt, 10:34)

Não excluo, por ser verdade, que a figura de Maomé -- tendo sido um líder político e militar -- mais facilmente se ofereça a uma organização total da vida social e política do que Jesus, que, além de sempre ter vivido na marginalia, pregou a separação entre o de Deus e o de César. O que me parece inqualificável é que se force uma diferença de tipo nos usos bélicos de Deus (a inquisição e as cruzadas bastam enquanto memória) ou na natureza das fontes (o versículo acima é instrutivo o suficiente). As apropriações da religião são uma questão ética, política e humana, nada há, portanto, de intrinsecamente bom neste credo e de mau naqueloutro. Definir uma essência não bélica na mensagem dos profetas é um desafio a que as palavras do Papa se devem dedicar construtivamente ao invés de forjar oportunisticamente um instrumento ideológico para demarcar, à partida, os bons dos maus.

Desenho trágico

Acredito em Deus e na evolução a la Darwin (mutações adendadas), mas, por favor, não me peçam para acreditar num desenho inteligente. Provas? Começo por mim mas também podia referir o Fernando Santos.

Diálogo

Yossuf Adamgy, o tão falado participante no debate do Prós e Contras toma a palavra nos comentários deste blog. Está aqui o direito ao contraditório e, quiçá, a possibilidade de um diálogo mutuamente enriquecedor.

Ainda o Soares vs Pereira

O relativo cuidado argumentativo de Pacheco Pereira é indistrinçável da convicção, nele maturada desde as vésperas da invasão ao Iraque, de que a coisa só à granada (lembre-se a posição sobre um eventual ataque ao Irão - mais bushista que o Bush, diria).

O facilitismo discursivo de Soares (e alguma demogagia de esquerda) coabita com a certeza de que o mais desafiante e difícil dos caminhos só pode estar no diálogo (sublinhe-se, há em Soares algo de uma intuição histórica que escapa ao discurso lógico).

Soares carrega o ethos de quem se opôs à invasão iraquiana. Pacheco Pereira carrega o logos de que lhe permite seguir, aparentemente cheio de razão, sem a chaga retórica que a sua posição sobre Iraque faria esperável.

Audre Lorde


Era assim que Audre Lorde se reconhecia: mulher, negra, lésbica, gorda, mãe, quase cega, ambidestra, poeta. Morreu em 1992.

Ler

Sobre a relação entre Natascha Kampusch e "O Coleccionador".

Poderá o autor (no sentido de criador original) do crime ter sido um romancista (John Fowles)? De facto, as reactualizações da cultura pouco se condoem no dilema da origem (ficcional ou não ficcional), simplesmente porque as possibilidades narrativas de que dispomos (o fundo mimético de uma cultura) mais não são do actualizações e reformulações onde se confundem experiências, mitos e efabulações ancestrais. Como dizia Borges, nós criamos os nosos percursores, seja para lhes imputar uma verso novo ou um estigma póstumo. Como diria também Harold Bloom, há sempre um autor de que nos procuramos distanciar (assim o entronizando como referente de partida). A recurva genealogia entre Nietzsche e Hitler é pródiga destas questões.

A gaja de Alfama

Helena Matos (no Prós e Contras):
"Os chineses não se vieram aqui explodir lá porque tiveram um desevolvimento tecnológico há alguns séculos"

Fátima Campos Ferreira

Há minutos, na introdução do Prós e Contras, Fátima Campos Ferreira, dramatizando com expressivas e assustadoras caretas, afirmou, para "introduzir o debate":
"A europa fundada no estado de direito tem hoje no seu seio o ovo da serpente do fundamentalismo"

É óbvio que Fátima Campos Ferreira, com este cândido discurso da virgem europa democrata, agora acossada pelos maus dos muçulmanos, olvida, porventura, que a luminosa emergência das democracias europeias coexistiu com as atrocidades do colonialismo fora de portas. Pizarro também faz parte da senda do renascimento. Detalhes, tiques que já cansam no único programa de debate da televisão pública. Não percebo estas eternizações de apresentadores. E porque não o José Alberto Carvalho?

Moby Dick




Ahab is not a self-made man, but a whale-made man.
Rosemarie Thomson
Sim, um portento de metonímia. Aquilo que fere sem remédio, aquilo que incita à busca sem sossego, necessariamente disputa às veleidades da auto-descrição/(auto-constituição) biográfica. A baleia contingente embutida em nós.

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Gepeto, facilitador de divas.

Modernidade pop

É uma questão filosófica profunda que bem podia ser elevada a manifesto:
Sob pena de soçobrarmos à amargura agonística derrotista que marca a intervenção pública de figuras como José Saramago, ninguém com legítimas ambições a viver na época contemporânea de um modo crítico e transformador pode honestamente recusar o apelo de Shakira na pista de dança.
Disse. Na festa de encerramento da conferência onde estive, o delicioso mulherio - lésbicas, esmagadoramente, ou pelo menos é assim que convém explicar o omisso assédio à minha pessoa - politizou o momento abanando as ancas ao som de Nelly Furtado: Maneater. É por aí. Nos políticas da vida, a modernidade não se nega como um todo, escolhe-se, apropria-se e reformula-se ... com o possível jogo de cintura. Ora, que se lixe o descrédito universal que sobre mim se abaterá:


Judith Butler

Regresso:
Lá estava a inteligentíssima Judith Butler. Sem deslumbrar no registo oral, as marcas da genialidade escrita estiveram todas em cena. Talvez me venha a demorar aqui numa pequena recenssão da sua polémica comunicação, 50 minutos em que articulou as questões quentes da política feminista com o momento geopolítico; adianto: para condenar o modo como a libertação das mulheres (islâmicas, entenda-se) vem sendo oportunisticamente hasteada pelos perpretadores da senda bélica e imperial (esses grandes feministas).

Os Baptistas

A propósito do seu novo Blogue, o Tiago Oliveira Cavaco - que precisamente conheci num acampamento religioso - recorda-me os tempos da Igreja Baptista.

Sim Tiago, passei por lá e - isto conta ainda mais - sinto que venho de lá (nota confessional: baptizei-me aos 18 anos). Mas é verdade que me afastei da Igreja Baptista: talvez pelo conservadorismo religioso, talvez pela pouca paciência para o formalismo ritual, talvez pela forte dissenção identitária trazida por outras coisas que fui acolhendo como boas e justas. No entanto, foi lá que alimentei a fé cristã a que nunca reneguei (trago comigo algo de uma versão revista e depurada do peso da tradição eclisiástica), e sigo, embora já apartado do universo dos cultos, com uma insólita sensação de gratidão e dívida. A isso não são alheios alguns méritos (quase todos involuntários) que forjam a paisagem protestante em Portugal:

1. Não existe uma cultura institucional dominante. As igrejas evangélicas em Portugal constituem uma contra-cultura religiosa face ao domínio cultural católico, o que muito favorece a necessidade de elaboração persuasiva (não há o "porque sim"), assim como o espírito crítico e a solidariedade costumeira a um grupo que se configura como uma minoria.
2. Não precisei de me afastar da autoridade das figuras da Igreja. Apenas porque ela nunca existiu. Isto se compararmos com a "mediação forte" que igreja católica exerce na definição dos caminhos para a fé e para a salvação. Na igreja Baptista encontrei uma cultura institucional relativamente humilde que promove a relação pessoal do crente com a mensagem cristã e um fundo conhecimento exploratório do texto bíblico (de que envergonhadamente me orgulho). Nem na minha fase mais revolucionária deixaram de me convidar para púlpito para "entregar uma mensagem" sobre ecumenismo pós-moderno.
3. A ausência de centralismo institucional e a precariedade do "merchandising" Baptista é uma valia que resulta tanto de feliz deliberação (não há hierarquia piramidal) como de feliz omissão. Asssim se entende que os contextos baptistas muito dependam da contingência comunitária de cada igreja particular, que todos valores estejam sujeitos ao crivo premanente da interpretação alargada (interpretação tendencialmente conservadora mas pouco hierárquica), e assim se entende que ser Baptista em Portugal pouco tenha a ver com a vivência americana e com as intimidades com o poder político lá praticadas (isto para mim importa).
4- Nem a igreja baptista se nutre de valores tradicionais portugueses que deploro (Fátima é o melhor exemplo dessa articulação), nem beneficia, como noutros países acontece, do caminho desbravado pela revolução calvinista. Fica ali suspensa à procura de si mesmo como uma contra-cultura titubiante. O que não é necessariamente mau, afinal é que assim mesmo que muitas pessoas buscam (e dizem encontrar) Deus.

Não surpreenderá, pois, que do exílio não praticante (pobre descrição), venha a entabular conversas com o Pranto e Ranger de Dentes.

Escadas

Ja me aconteceu: subir cerca de duzentas escadas para escrever um post. Conceber o esforco fisico no modo de producao de um post enobrece uma pratica que tantas vezes se julga insuportavelmente masturbatoria e arredia das actividades produtivas na sociedade. Bem podem os marxistas retirar consequencias desta assercao: a masturbacao da trabalho.

Chega de silencio


Volto com a costumeira torrente de dislates. Ate ja.