Puma

Por directivas do novo patrocinador, a Puma, a equipa técnica do Sporting passa a envergar o fato-de-treino da marca durante os jogos. Eu acho bem qualquer iniciativa que retire livre arbítrio ao Paulo Bento quando chega a hora de se vestir.

Qana

Do público: "O ataque aéreo israelita esta manhã em Qana, no Sul do Líbano, matou pelo menos 56 pessoas, entre as quais 34 crianças, segundo um balanço actualizado da Cruz Vermelha Libanesa."
Haverá um momento em que os mais bem intencionados defensores da determinação bélica israelita face ao Hizbollah terão que se sentir traídos por Israel. Não compreendo de outra forma, e acreditem que me esforço.

Tréguas?

O fundamentalismo islâmico e as suas derivas terroristas alimentam-se sobretudo nas novas gerações, urbanas, escolarizadas e informadas. Nada o pode justificar, nada o torna menos vil, mas ignorar como ele se alimenta simbólica, politica e socialmente, quer de injustiças emblemáticas (como a ocupação da Palestina), quer de disparates colossais (como a invasão iraquiana), é passar totalmente ao lado da genealogia desse terrorismo não-estatal inflamado pelos usos bélicos da teologia.

O que Israel está a fazer neste momento, ao seguir com a guerra, sem pestanejar para equacionar um cessar-fogo ou sequer um intervalo para ajuda humanitária, está a semear forte indignação pelo mundo. Esta indignação é politicamente debatível na medida em que muitos percebem a investida israelita como a necessária "determinação bélica" com que Israel se preserva. Nem vou discutir (já o fiz), mas, para lá de juízos outros (mesmo para quem defende a "determinação bélica") importará ter a percepção de que está forjar um perigoso senso-comum sobre a prepotência e insensibilidade israelita ante as populações libanesas. E isso, pelo rancor que gera, significa dar aos extremistas islâmicos uma infinda base se recrutamento de jovens em ponto de rebuçado para serem cativados por iniciativas terroristas. A luta contra o terrorismo assim encetada é uma actividade primária de disseminação de rancor que a indústria do terrorismo não estatal não tardará em a rentabilizar. E atenção que não estou a discutir outra coisa que não estratégia.


Já agora: o anti-semitismo é isto que as comunidades islâmicas aqui vilipendiam: um ódio que jamais saberá distinguir o judaísmo e a identidade judaica das políticas do Estado Israelita.

Profiteers

A playboy recrutando fantasias na crise da Varig.

Exs

Desconfio sempre das pessoas que conseguem manter amizade com exs. A isso talvez não seja estranho facto de eu próprio nunca ter logrado tal desiderato.

Mentiria se dissesse que isso não me entristece ou que não me faz pensar na pessoa que sou, mas talvez seja esse o triste caminho por que se trilha a pureza de uma ruptura romântica. Fraca consolação. Sinceridade na dor. Não voltar para pedir a outra parte do pijama, e seguir vivendo, assim, sinceramente às metades.

Ler

Timothy Garton Ash: o compromisso europeu com o Médio Oriente enquanto responsabilidade histórica.

Ninguém pára o Benfica

Não é difícil prever o quanto este grito de apoio, agora canonizado, se prestará à galhofa irónica dos adversários, após cada tropeço. Podemos já imaginar a avenida dos aliados a divertir-se em uníssono "ninguém pára o Benfica, lá, lá, lá". De facto só a euforia benfiquista adoptaria um slogan com tamanha vocação suicida.

Enfim

Diz Helena Matos no público:
"Em Espanha, onde o anti-semitismo e o antiamericanismo atingem proporções delirantes..."

Colocar estes dos anti's, lado a lado, na mesma frase, como se esses conceitos fossem equivalentes ou neles houvesse alguma "semelhança de família", só pode revelar baixa demogagia ou uma profunda ignorância acerca do significado de anti-semitismo. Estas acusações levianas de anti-semitismo são do mais triste que o presente debate tem proporcionado (e bem sei que há aí muito argumento rasteiro à esquerda). Espanha acometida por um anti-semitismo delirante porque Zapatero tomou uma posição contrária ao Estado Isaraelita? Mas está tudo doido?

As lealdades em debate

Com a conhecida erudição, o Luís Carmelo acicata-me a dizer algo sobre a intensidade histórica e sobre as "derivas rizomáticas" da identidade a propósito deste conflito. Tocando o mesmo ponto, a Zazie oferece-me nos comentários uma elaborada questão onde, sinteticamente, me pede uma leitura ao que ela vai pressentido como sendo uma passagem de pessoas de esquerda, cuja sensibilidade mais viva está tradicionalmente com a causa palestiniana, para a defesa da posição de Israel no presente conflito.

Principiando nas hipóteses da Zazie, devo referir que não tenho essa percepção, pese embora algumas situações em que tal pareça ser de facto assim. O que este conflito está a mostrar é que, talvez felizmente, os posicionamentos em relação ao Médio-oriente nunca calcaram com mínima precisão a linha divisória que noutras matérias separam esquerda de direita (o Iraque foi um indicador bem mais fiel das adesões político-ideológicas). Este relativo desencontro -- que ao contrário também nos permite ler opiniões vindas da direita (e da esquerda moderada, como Vital Moreira) que são radicalmente críticas do Estado Israelita -- deve a várias questões, entre as quais o pressentimento público que isto começou com provocações do Hamas e do Hezbollah. Mas há uma questão estrutural que me parece mais crucial nesse baralhar entre esquerda e direita: o estatuto de vítima ou de parte vulnerável, ameaçada ao desaparecimento, na contenda da Palestina.

Quem lê o conflito por apelo a uma historicidade mais longa que remete para a perseguição dos judeus ao longo da história, para a memória da inquisição, para o espectro do holocausto, tende a ver na hostilidade islâmica como uma recapitulação desse doloroso martírio judaico de direito à existência. Nessa linha, as guerras em 1948 e em 1967, assim como o presente não reconhecimento de Israel por alguns Estados e movimentos, apenas reforça esse sentimento de ameaça e a noção de que a existência de Israel é uma senda pela existência de um enclave não-islâmico, uma luta pelo direito a existir que não pode ser encetada sem determinação bélica. É nesta linha interpretativa, ligada à longa história, que encontramos o fino espectro de acusadores de anti-semitismo a quem se opõe às acções do Estado de Israel (arremesso leviano na esmagadora maioria dos casos).

Uma outra sensibilidade, mais ligada à curta história (e daí a pertinência da questão da intensidade histórica evocada pelo Luís Carmelo) entende que a partir de 1967 se assistiu a uma cristalização da superioridade israelita ante os seus contendores fronteiriços. Uma superioridade preservada de modo arrogante pela manutenção (e expansão) da ocupação, pela contínua construção de colonatos, pelo desrespeito pelas resoluções da ONU e dos acordos de paz de Oslo. Nessa perspectiva o sistemático castigo à palestina pelos actos terroristas dá-se dentro de um ciclo vicioso que se alimenta de um desvio do olhar em relação às condições estruturais ― a ocupação e o modo humilhante como vivem as populações palestinianas ― que continuariam a alimentar o voluntarismo dos extremistas e, mais grave, o apoio popular a esse mesmo extremismo. Não obstante o facto de estar num contexto geopolítico hostil, segundo esta perspectiva, Israel, dado o seu poderio militar, dado o apoio americano e dado o modo prepotente como tem usado essa superioridade, surge como um opressor que cedo esqueceu a sua própria história de perseguido.

Na verdade, uma das questões mais instigantes que nesta leitura frequentemente se coloca, é esta: como é possível que Israel, depois de ter passado pelo que passou, seja capaz de sujeitar as populações palestinianas a tal humilhação. A questão explica-se, por um lado, com a ferocidade defensiva, que começou por ser essencial à própria existência do Estado Israelita, e se reconverteu em ferocidade preventiva/opressiva. E, por outro, com um facto do inconsciente colectivo judaico, frequentemente negligenciado. Após o Holocausto quando todo o mundo apontava o dedo à ignomínia alemã forjou-se uma outra culpabilização menos conhecida. Muitos judeus acusavam as próprias vítimas do holocausto ― e não pode haver acusação mais vil e injusta ― de terem caminhado para as câmaras de gás como cordeiros para o matadouro, sem resistência. Esse estranho sentimento de culpa colectiva da própria vítima forjou uma discursividade do género “jamais poderemos dar um palmo possibilidade aos nossos inimigos para nos submeterem”. Ora, parece-me que um tal discurso, ontologicamente incorporado, tolda um pouco a ferocidade e a intransigência com que os inimigos, já estilhaçados, são tratados. Portanto, ainda nessa linha, a memória do Holocausto está presente nas orientações do Estado de Israel como um ruidoso “nunca mais” que dificilmente permite ouvir quem grita sob os seus próprios pés.

Isto para dizer que a sensibilidade ora para a longa ora para a curta história (ou mesmo a leitura que se faz da curta história) não obedece com precisão a alinhamentos ideológicos, traficando com a importância de sensibilidades pessoais e religiosas para uma tomada de posição.

No entanto, e para ir de encontro do percepção da Zazie, há de facto um elemento novo que vem condicionando a opinião sobre este conflito. A noção de uma “ameaça islâmica” chegou também à esquerda europeia fortemente com o 11 de Setembro e com os ataques a Madrid e Londres (estes últimos sentidos mais de perto e sem a interferência do atenuadora anti-americanismo). Como alguém dizia num comentário recente, avisando-me para os mísseis iranianos às nossas portas, essa noção de ameaça islâmica faz com que se cumpra a profecia de Huntington: todos os conflitos envolvendo países islâmicos, não obstante causas e processualidades, tendem a conduzir a uma arregimentação civilizacional. Ora, essa arregimentação civilizacinal, temerosa do Islão, poderá estar atenuar, nalgumas pessoas, a lealdade com a causa palestiniana, assim levando às tais passagens na esquerda para posições mais empáticas com Israel.

Um outro factor, ainda, perturbou essa vaga confluência de lealdades à esquerda e à direita: os Cartoons. A questão é que muita cultura da esquerda europeia, formada na resistência contra os totalitarismos de direita (embora alguma dessa esquerda saudasse o totalitarismo estalinista) é particularmente afecta às liberdades políticas e civis que ajudou a conquistar. E esse simples factor genealógico, para minha surpresa, nalguns casos, confesso, foi suficiente para que o exercício de compreensão do outro e da sua cultura a partir de relações históricas de poder, mais cara à esquerda, logo cedesse à afirmação da liberdade de expressão enquanto bem absoluto e da herança ocidental como incontestável património para o mundo. Aqui sim, mais que no presente conflito, onde se cruzam mormente sensibilidades que já lá estavam, suspeito, percebi óbvias mudanças de perspectiva em função do que então passou a estar em jogo.

Resposta

Tiago É óbvio que a minha pergunta se dirigia para os actores geopolíticos no conflito, o eixo da política interna e as opiniões do BE e do PCP, tanto quanto sei, até à data, não têm interferido dramaticamente no curso das hostilidades. Segundo, de facto não concordo com essas recusas passionais do PCP e do BE que bem citas, e nos termos em que surgem parecem-me sinceramente disparatadas. Mas concordo com a substância, ou seja, se eu me chamasse Luís Amado (esse insigne apoiante da invasiva americano no Iraque) a participação portuguesa numa força internacional de paz no sul do Líbano estaria condicionada a um compromisso de colocação de forças de interposição de paz nos territórios que Israel mantém ocupados. São as tais soluções holistas. Abraço.

O problema das fórmulas simples

Diz a Fernanda Câncio (que tanto prezo, ressalvo), para simplificar: "não discuto a existência do estado de israel. não admito sequer que isso esteja em discussão. e se isso é todo um programa bélico, que seja"

f. concordo inteiramente com essa tomada de posição -- onde é que eu assino? como diria o outro -- mas parece-me francamente deslocada daquilo que está em questão no terreno; mais: face ao quadro nas últimas décadas, Oslo and so on, não é uma questão mínima, é uma não questão. Portanto:
Primeiro, quer-me parecer que uma hipotética questão sobre o direito de Israel a existir nada tem a ver com este conflito (faria sentido em 1948 ou em 1967). Hoje, sinceramente, reconhecido que é poderio militar israelita, reconhecido que é o apoio americano, e apesar do Hamas se esquivar a reconhecer Israel por mera birra orgulhosa, esta questão não se coloca (nalgum slogan político eventualmente) para o mais inflamado extremista anti-Israel (a menos claro que Irão partisse para o nuclear, mas aí não era o Estado de Israel que estava em causa, era tudo). Todos sabemos que a mera retirada isrealita dos territórios ocupados é há muito um sonho molhado para Hezbollah e Hamas, sendo este o desígnio máximo que vem conferindo sustentação social e política a estes grupos.
Segundo, por essa linha de argumentação, se invertermos a questão, tornando-a decerto menos anacrónica e mais adaptada às dinâmicas da geopolítica contemporânea, poderíamos chegar a algo como isto: "não discuto a manutenção de Israel nos territórios ocupados, e se isso é um programa bélico, que seja." Quem o diz? É com tamanha simplicidade que se faz a causa política do Hezbollah e do Hamas, sendo que o tal programa , à falta do prestígio bélico dos Apaches, se vem cumprindo por intermédio do vil terrorismo.

Pergunta

Quem não concordaria com isto (além de Israel)?

Israel reclama a criação de uma zona tampão no sul do Líbano, a ser guarnecida por forças militares internacionais, como meio para impedir os ataques do Hezbollah provindos dessa região. É uma boa solução. Aliás, seria uma solução igualmente boa no caso da fronteira entre Israel e a Síria (permitindo devolver os Montes Golã e pôr fim ao conflito entre os dois países) e entre Israel e os territórios palestinianos (permitindo a Israel libertar os territórios ocupados, como é sua obrigação, e não sofrer ataques oriundos de lá).

Sooner or later they must fail

Idealizing the body prevents everyone, able-bodied and disabled, from identifying with and loving her/his real body. Some people can have the illusion of acceptance that comes from believing that their bodies are “close enough” to the ideal, but this illusion only draws the deeper into identifying with the ideal and into the endless task of reconciling reality with it. Sooner or later they must fail.
Susan Wendell
Este texto é sobre o corpo, mas as suas assunções filosóficas podiam ser sobre outra coisa qualquer. De facto, todos o sabemos, o extenuante exercício de conciliar idealizações com a realidade acabará mais tarde ou mais cedo em redondo fracasso. Ora, cresce em mim admiração por quem passeia orgulhoso a sua barriguinha (também pode ser uma metáfora). Não duvidemos, o orgulho no real acrescenta a essa geometria variável da beleza. Apreciar o que foi feito das nossas próprias carnes, não obstante os imponderáveis do tempo e da cerveja, não é apenas uma forma de wishfull thinking ou de coping, é um prenúncio de paz e uma promessa de enleios, qual convite às formas do mundo (salvo seja) para convívio franco e despudorado.

Pré-condições do debate

Dou de barato: há afinidades que tendem a estruturar a opinião por pré-concepções políticas nos conflitos que deflagram no Médio-Oriente. A propensão da maioria da esquerda tem sido de oposição ao Estado Israelita face à ocupação territorial, face às condições que as populações palestinianas têm sido sujeitas, face ao apoio dos Estados Unidos a Israel e face à denúncia de um terrorismo de Estado nos termos em que o exército israelita tem exercido a sua hegemonia militar. Concordo que as premissas estruturais riscam em forjar a leitura das situações particulares retirando-lhes complexidade, inocentando o que não pode ser inocentado, demonizando o que, apesar de tudo, obriga a um exercício de compreensão (diferente de aceitação, o meu relativismo epistemológico está tanto ao serviço do fundamentalismo islâmico como dos excessos do Estado Israelita). Sei que tenho um viés estrutural que, talvez com simplismo, ao longamente identificar a Palestina como a parte fraca e ao identificar Israel como crónico desrespeitador de resoluções internacionais, mais prontamente me leva a apontar o dedo a Israel (de cujo Estado espero mais do que da maioria das organizações fundamentalistas islâmicas). É um viés prévio que sei existir e que procuro domesticar de molde a combater a estreiteza desse "horizonte de trincheira". Ainda não expressei a minha opinião sobre o presente conflito, aceito, quando o fizer, que então me acusem de simplismo e preconceito político. Agora, lançarem, como por aí tenho visto, o leviano arremesso do anti-semitismo a todos que, talvez com viés ideológico, se apressam a condenar Israel, parece-me um golpe demasiado baixo. Para ser sincero, é minha opinião, decerto polémica, que o histórico anti-semitismo anti-judaico (assim como a experiência do holocausto) mais ajudam a compreender a ferocidade israelita do que o alinhamento preconceituoso (conceda-se) da esquerda ocidental.

História do futuro

"Temo que ela venha a ter algum protagonismo no meu passado"

Uma causa perdida

Não duvidem, isto das obras em casa dos vizinhos serem permitidas a partir das 8 da manhã é um clamoroso atentado a uma sociedade que se imagina cruzada por toda uma diversidade de formas de vida. A crua verdade é que a lei (que não conheço mas intuo) apenas protege os que disciplinadamente se deitam cedo e cedo se levantam, assim negligenciando tantos outros que, por motivo de ritmo circadiano, forma de vida, hábitos contemplativos, produtividade nocturna ou apenas falta de sexo, encontrem sérias dificuldades de conformação à prática horária dominante.

Tordesilhas


Linhas de segurança romântico-ontológica. Ler, respeitar sem transgressões

Serviço Público

Face à premência da situação Israelo-Libanesa não seria suposto a RTP fornecer algum tipo de reflexão mais aturada, um debate, um documentário de enquadramento histórico? No fundo qualquer coisa que acrescentasse àquelas reportagens patetas de contagem diária de rockets, feridos e mortos.

Posts de Verão*

Quando se escreve numa cidade crescentemente deserta pelos mais veranis dos motivos forja-se um impreciso sentimento de inimputabilidade. A cidade vaga não adivinha uma praia sob a calçada, tampouco a efervescência colectiva dessoutras utopias, antes o consolador recontro entre desesperanças. Um contrato colectivo de abandono.
Esplanada vazia, três carros no estacionamento do hipermercado, o fim do pão quente. Este Verão requer uma escrita concupiscente afeita à entrega dos que que sobraram às vagas.

*Título d'A cidade vaga

Putin

Saudada pela franca gargalhada dos jornalistas, a tirada de Putin sobre a democracia iraquiana parece tratar-se de um mero momento da mais pura galhofa. Nada mais errado. Este diálogo aqui captado é paradigmático da "autoridade democrática" que os Estados Unidos gozam hoje no mundo. Daqui a cinquenta anos este excerto figurará nos documentários históricos como cintilante representação de um tempo. Vale bem os 50 segundos.

Gravesen

Nunca ouviram falar na gravesinha? Tss, tss.



Mais de Gravesen aqui.

As palavras no meio


Alexandre O'Neill

Polissemia ou uma questão de perspectiva

Aquele tipo é a ruína de um casal.

Israel-Líbano

Reuters
Na leitura profética sugerida por Samuel Huntington (a fácil escalada, desde conflitos localizados, entre diferentes representantes civilizacionais, até à assunção das dores dores civilizacionai pelos Core States), o embate Israel vs Líbano pode bem prefigurar, tanto quanto espelhar, um Estados Unidos vs Irão.

Boicote

Diz-se: boicote aos produtos GM (Opel, Saab, Chevrolet, Isuzu e Suzuki). Há muito de razão, bem sei, em quem, até com prudente cepticismo antropológico, vê nisto expressão de voluntarismo inconsequente. Não é para qualquer um permitir que na compra de algo tão decisivo como um carro entrem critérios de resposta à selvajaria mercantil. Não importa. Chamem-lhe voluntarismo inconsequente: este blog está com todos aqueles que têm publicitado a bondade sociprudente* de um boicote à Opel (para referir a marca emblemática da ida fábrica).

*Neologismo que deito sobre o conceito de jurisprudente.

P.S. A conta bancária não me consentir enjeitar activamente um Opel, sequer em prol de um veículo escangalhado, não molesta a força do meu engagé. Note-se.

General Motors

O frio calculismo das multinacionais parece incontornável nos tempos que correm. Quando uma empresa sai de um país deixando hordes de desempregados e uma fábrica produtiva após ter recebido incentivos fiscais não deveria ficar impune, sobretudo se a sua marca é comercializada no país defraudado. Se surgisse em Portugal um boicote aos carros da Opel o calculismo doravante passava a ter outras coisa a ponderar. A inimputabilidade na actuação social das empresas só pode ser revertida por uma lesão na imagem que dissuada o consumo. Não sei se isto faz algum sentido, mas se sim denegrir a imagem da opel pode ser uma missão edificante.

A vizinha do fantástico

Telemóvel a tocar. Apresenta-se, simpatia de voz portentosa, um fotógrafo passional a quem a idade haveria de trazer a cegueira. Agora entregue ao tacto e às lides da olaria. Com a paciência que já não se usa, conta-me a sua história: as mulheres, Macau, a câmara escura, as exposições irónicas no arco de cego, os descolamentos da retina, o "seu livro que me está a ler a vizinha, uma jovem", a bengala que não larga, os caminhos das acácias, os sargaços, os nomes idos antes de 33, o coleccionismo, as feiras, o gosto pelas coisas, a voz da vizinha, "venha cá beber um copo".

Existencialismo agonista

Nunca tinha pensado no assunto, mas o nome monumental "Aqueduto das águas livres" é um paradoxo tenebroso. Estava eu no banho.

Palavras mágicas (act.)

Et porquoi? O locutor francês em directo: aqui.

A poucos minutos de acabar a carreira, ainda com a possibilidade de contribuir para um título mundial -- fosse na jogada do cisne ou na série final de penalties -- Zidane perdeu a cabeça, ou melhor, arremessou-a, e agrediu violentamente Materazzi. Zidane foi despedido dos relvados com um cartão vermelho. Pela infracção grave, tudo indica que a bola de ouro lhe venha a ser retirada numa dramática reversão. E, como se não bastasse, a França perdeu. Muitos têm perguntado: como é possível que num repente um jogador comprometa em tal medida o seu lugar na história? É de facto um enigma. Pergunta assaz pertinente. Mas a questão que me instigará nas próximas décadas é bem outra: que raio lhe terá dito Materazzi? Em que corda sensível tocou o sacana do italiano?

p.s. O Penalty de Zidane é simplesmente assombroso. O melhor que eu vi nos últimos anos a seguir ao do Postiga no Euro 2004.

Ronaldo

Nem o Ronaldo é um vaidoso apenas preocupado com a sua telegenia futebolística, nem é o libertador criativo que, com o seu futebol espectáculo, desagrilhoa o futebol da disciplina táctica. É alguma coisa entre isso. Entre o futebol rebelde que dá gosto (é lindíssimo vê-lo pegar na bola, mesmo quando falha um passe artístico como ontem) e uma vaidade que, de tão holywoodesca , já nada tem a ver com o vício de futebol que cartacteriza um individualista à antiga. Com o mesmo gosto pela bola, Ronaldo foi mais jogador e mais adulto no Euro 2004. Em 2004 eu vi um choro comovente, em 2006, alegria e tristeza, tudo me parecia exuberanteente cinemático. Neste mundial notou-se em Ronaldo uma incessante frustração. Isso é bom, porque não se conformou em cumprir tacticamente em prol da equipa sem que tentasse rasgos, como haveria de se conformar o pobre Ronaldinho. E é mau, é mau porque essa frustração revelou sobretudo uma ansiedade em vincar sua própria notoriedade nos anais. Prefiro a "ética" da inconsciente sede de bola no insuportável individualista -- que Ronaldo já foi e Quaresma ainda é.

Dupla da noite

Não sei o quem é mais vácuo, se o Pauleta se o Bernardino Barros.

3 anos



Muitos parabéns: Adufe, A Natureza do Mal, Blog do Piano, Bloguítica, Desfazedor de Rebanhos, Respirar o mesmo ar.

Armistício horizontal


Por tanto ou tão pouco voltar a adormecer conciliado com a França.

Bola de Ouro

A Fifa já definiu os 10 nomeados ao bola de ouro a ser anunciado segunda:
Fabio Cannavaro, Andrea Pirlo, Gianluca Zambrotta e Gianluigi Buffon, da Itália;
Zinedine Zidane, Thierry Henry e Patrick Vieira, da França;
Michael Ballack e Miroslav Klose, da Alemanha;
Maniche, de Portugal.

O amante pródigo II

Na paixão fomos pródigos, não para nós, mas para a solidão já próxima. Borges

Elizabeth Insogna, Where She Lies

O amante pródigo

Mau grado as incontáveis vezes que Ildo a abandonou rumo a outras paragens e outras mulheres, ela recebia-o sempre de volta ao leito. Que fazer, dizia, era a seu amor pródigo.

Ronaldinho

"My only conclusion after seeing Ronaldinho here is that he needs Barcelona more than Barcelona needs him. " Valdano

Portugal :: 2006

Do Público:
Um médico, uma funcionária e três mulheres foram hoje condenados pelo crime de aborto, no Tribunal de Aveiro, que refez um acórdão de 2004 por decisão do Tribunal da Relação de Coimbra. O médico foi condenado em cúmulo jurídico a quatro anos e oito meses de prisão, com perdão de um ano; uma colaboradora do clínico foi condenada, por cumplicidade, a um ano e quatro meses de prisão, com pena suspensa por três anos; e três mulheres foram condenadas pelo crime de aborto a seis meses de prisão, com pena suspensa por dois anos.
Imagino que seja um dia de gáudio sorvido a champagne para os auto-denominados defensores da vida. "Fez-se justiça", dirão.

Scolari

A ler: este texto do CAA.

A sublime coerência de achar o senhor Scolari execrável é algo que nenhuma taça violará. Amen.

A ética do fracasso


As ruas passeadas por afluente euforia e eu, vagueando, vago, numa melancolia súbdita da perdida Argentina. Sorrisos, gritos, buzinas, mulheres vistosas, flores, tops, peitos nus, homens querentes, beijos, cerveja. Ainda tentei esboçar uma inveja senhora de si. Venceu o terno deleite; mais forte o prazer de ver a minha triste história encenada ante o drama da folia urbana.

Coisas da bola

Das incontáveis sms que recebi uma vez terminado o jogo (quase todas a lembrarem-me a provada magnificiência da parelha Scolari-Ricardo, as if...) houve uma esplendorosa que me deliciou (o número não foi reconhecido pelo meu telemóvel pelo que desconheço o remetente), dizia tão simplesmente:
"A Inglaterra é um estado falhado."














Foto: ontem à noite como quem desce para a praça