Santa Casa da Misericórdia: alguns comentários sobre a publicidade institucional

É francamente meritório o trabalho que a Santa Casa da Misericórdia desempenha na sociedade portuguesa. Na verdade, historicamente, bem sabemos o quão importante é, entre nós, o papel desempenhado por uma miríade de organizações da sociedade civil ao nível dos serviços prestados em toda a sorte de valência. Essas organizações vão colmatando as fragilidades na providência estatal consagrando aos cidadãos mais vulneráveis alguns direitos que de outro modo jamais veríamos contemplados.

Dito isto, quero manifestar o meu profundo incómodo pela publicidade com que a Santa Casa vem comemorando os seus 508 anos de existência. (Nem vou discutir o marketing das causas sociais, não me traz demasiado assombro).

Nos spots televisivos e nos outdoors, com que que alguns de vós já se terão cruzado, vai circulando uma "textualidade" que realça o continuado empenho da Santa Casa de Misericórdia no apoio aos mais desfavorecidos, ali representados pelas pessoas com deficiência (de acordo com uma vocação histórica daquela instituição). Com saltos temporais entre o mundo de há cinco séculos e o mundo de hoje, estabelece-se um paralelismo, bem criado do ponto de vista imagético, diga-se, que, no entanto, no meu entender, acaba por resultar profundamente infeliz. A ênfase na ideia de que agora como há 500 anos a Santa Casa da Misericórdia ajuda pessoas com deficiência, tirando-as das ruas (como vemos no spot televisvo), pode ser muito benéfica à auto-estima da instituição, concedo. Mas não podia ser mais menorizante para as pessoas com deficiência como um todo; repare-se no modo como as entroniza enquanto objectos de caridade. As pessoas com deficiência são ali subsumidas a uma mensagem que ocupa a toda a publicidade: "agora como há 500 anos a cuidar dos desgraçados". A questão é que, apesar de tudo, muito mudou no mundo circundante. As pessoas com deficiência não são, nem têm que ser, objectos de caridade mas sim sujeitos de direitos.

Primeiro
, porque a área reabilitação, onde a Santa Casa realiza um valoroso trabalho (basta lembrar o centro de Alcoitão) remete para um direito constitucionalmente consagrado às pessoas com deficiência em nome da igualdade de oportunidades, um direito sublinhado por sucessivas leis de bases. Uma questão matricialmente política e não assistencialista, portanto.

Segundo, porque a Santa Casa da Misericóridia tem no monopólio dos jogos uma fonte de financiamento que as organizações de pessoas com deficiência nem sonham -- face aos trocos com que se sustentam. Evoquemos, por exemplo, Espanha, onde as receitas dos jogos vão directamente para as mãos das organizações. Ali existem centros de reabilitação, centros de formação profissional e até universidades e rádios que são dirigidas e financiadas pelas próprias organizações de pessoas com deficiência. Num contexto em que tal acontece não há lugar para se entenderem os serviços como caridade, obviamente: porque as estruturas existentes são incorporadas como um direito e porque os serviços são definidos e geridos pelas próprios interessados.

Em terceiro lugar, se há coisa que a nossa sociedade não precisa é de reiterar a associação das pessoas com deficiência aos coitadinhos precisados de assitência. A exclusão social das pesoas com deficiência, hoje, tem a ver, sobretudo, com carências ao nível do ensino, da reabilitação, da arquitectura das cidades; também com falta de vontade política para impor desenhos legislativos, com o anquilosamento cultural acerca do que é a deficiência e, finalmente, com uma frágil democracia em que o Estado, ao manter as organizações de pesoas com deficiência dependentes do subsídios para prestação de serviços, as traz tacitamente reféns, como uma extensão das sua própria estrutura, inibindo uma atitude mais reivindicativa passível de viabilizar uma efectiva transformação social (de facto nem todas as situações são tão descaradas como esta). De outro modo a integração social está cingida aos "heróis da adaptação". Mas não é com a caridade paternalista nem com ética do heroísmo que a gritante exclusão social desta frondosa minoria se visibiliza ou resolve.

Pode ser que não (act.)


Oxalá.

P.s. aka epitáfio. (escrevo esta adenda poucos minutos depois do Penalty de Cambiasso):
Dezasseis anos depois, a Alemanha volta a ganhar uma final do mundial à Argentina. Merda.
"(...) Isso pode dever-se à simples e mísera necessidade de triunfar o campeão local, mas também, e assim o preferiríamos, a uma tácita condenação da provocação nestas ficções heróicas ou, e isto seria o melhor, à obscura e trágica convicção de que o homem é sempre artífice da sua própria desgraça." (Borges)

Fomos

Assim. Pela generosidade dos que parabenizando adjuvaram à lembrança, três anos vertem-se em ilustre marco. Obrigado.







Acordeonista, Alberto, Almocreve, António Jacinto, Ardelua, Ariel, António Beata Oliveira, Cafajeste, Cris, Cristina, Carla de Elsinore, Charlotte, Daniel F., Daniel Oliveira, Eduardo, Eduardo Pitta, Elisa, Francisco Carvalho, Francisco Curate, Francisquinha, Gabriel, Henrique Fialho, Jaime, João, João Nogueira, JPT, Júlio, Laurindinha, Leitora silenciosa, Leonel Vicente, Luís, Mad, Manuel Jorge Marmelo, Maria C., Maria João, Martinha, Miguel,Miss Pearls, Miguel Cardina, Nelson, nikonman, Nuno, Parca, Pedro Farinha, Pinky, Piotr A. Skuza, Rui Branco, Rui Curado Silva, Tiago Barbosa Ribeiro, Susana,Zb.

Sigo atento imperdoáveis omissões.

Alma Scolari

À semelhança de um tal de Nuno Graciano, Daniel Oliveira (não este, o da RTP) , mostra ser um entrevistador que se procura relacionar com as figuras públicas pelo continuado exercício da graxa e da mais barata bajulação. Essa vontade funda de se prostar perante os famosos, ou mera estratégia de aproximação, atinge dimensões particularmente constrangedoras com as figuras da bola. Talvez pela vontade de ganhar crédito para exclusivos, talvez pela importância de ser recebido pelo grupo português durante as resportagems do mundial, Daniel Oliveira entrevista os jogadores como se os quisesse levar para a cama; o estilo sintetiza-se numa pergunta caricatural: "tu tens a noção que és maravilhoso?".
E os jogadores, comprados com elogios lá dispensam uns minutos do dia de folga para as reflexões da praxe. A última pergunta, estilo felatio, ouvi-a há minutos na televisão. Questionava o bom do Daniel Oliveira num rigoroso exclusivo a Scolari: "Acha que em Portugal já se pode falar de uma alma Scolari?".

Nonetheless

"Era o problema de jogar com o Maradona na mesma equipa: ele transformava-te num espectador e quando te passava a bola eram precisos alguns instantes para te lembrares que eras como ele - um jogador de futebol. Bem, talvez não como ele, mas um jogador, ainda assim."
Valdano, Guardian
Quando por absurdo uma miúda gira te dá bola passa-se mais ou menos o mesmo.

O que vale uma voz


Cate Blanchett

Milícia (actualizado)


A lesão de Cristiano Ronaldo foi encomendada no balneário, algo tão evidente que confrange. Por tamanha desfaçatez deu-me particular gozo ver os holandeses perderem, assim como gozo tive em ver Maniche estourar para golo (só não digo que Portugal é Maniche mais 10 porque nem 10 havia). Mas, sobretudo, consolou-me ver, qual justiceiro, naquela que é melhor jogada do jogo, um certo Deco correr para o holandês que nunca ouviu falar em Fair Play, para, então, sem mais, o virar em aparatoso carrinho.

P.S. Acicatado pelos comentários acrescento:
Eu não afirmei que os demais jogadores nada fizeram pela vitória, tão só destaquei a exuberante preponderância, nos últimos dois jogos, das exibições de Maniche. O que ontem se viu não foi um bom jogo de futebol, apesar de épico. Ainda assim, a ter que destacar exibições diria que os melhores foram, por esta ordem: Maniche, Simão (tem sido por demais importante), Ricardo Carvalho e Miguel. Do Figo gostei da cabeçada e de Deco fica na retina o o carrinho. Menos bem estiveram: Nuno Valente (está em baixo de forma e fez lá um penalty que é um só disparate), Fernando Meira e Costinha (Freud chamaria àquilo o regresso à infância, a ausência de Costinha vai-se notar contra Inglaterra). Pauleta é aquilo e não se espera mais.
Outros dados: A Argentina, por exemplo, para o caso de o jogo não estar a correr de feição tem no banco três jogadores de desequilibrio colossal (Messi, Aimar e Tevez). Portugal, quando Simão jogar na equipa portuguesa inicial (a substituir alguma impossibilidade de Figo, Ronaldo ou Deco), fica com um único suplente para surpreender ofensivamente. Há um problema: chama-se Boa Morte. Definitivamente a não convocatória de Quaresma é uma estupidez sem nome. Isso não me abstém de reconhecer que Scolari, com as suas ladaínhas proto-nacionalistas, consegue criar grupos muito unidos, como bem se notou ontem. Mais: acho que ontem esteve bem durante o jogo (a substituição de Costinha a ser feita esperaria sempre pelo intervalo, era ao jogador que se exigia contenção). Faccioso, eu?

Contemplação e masoquismo

Para quem, como eu, nunca jogará futebol acima de um determinado nível - o nível dos pavilhões de província tri-semanalmente alugados à hora - o golo do Maxi Rodriguez constitui tanto um deslumbre como uma humilhação.
Mas não importa, o futebol assim, como continuada flagelação pessoal que nos lembra os golos que nunca marcaremos, é ainda mais belo.

Happy Hour

Por muito que queiramos acreditar que a happy hour mais não é do que um conceito de marketing inventado para nos conceder coisas tão variadas como um "bar aberto" ou a chamadas 50% mais baratas, há sempre momentos de estupor em que esse conceito nos serve como melancólico balanço: a bem espremida hora de felicidade que lográmos no tempo de uma vida.

p.s. Pode dar-se bem o caso de a happy hour, enquanto balanço de uma vida, coincidir com a memória de determinado "bar aberto". Mas isso já são contas de outros rosários existenciais.

foto daqui

Niño


Caro Pacheco Pereira, concordo com muito do que diz, mas para não deitarmos fora o bebé (el niño) juntamente com a água do banho, queira considerar a beleza deste retrato: um trabalhador espanhol emigrado na Alemanha.

3 anos





Obrigado aos que por aqui passam justificando-me a teimosia e o gosto.

Escrita em dia (actualizado)


Hoje (quarta-feira) encontrarão pela meia-noite este vosso servo em conversa com o amabilíssimo Francisco José Viegas na Antena 1.
Também podem ouvir online aqui.

(O programa escrita em dia repete sábado às 14:00 horas na antena 1, Domingo às 12:00 na Antena 2, Terça-Feira na RDP África à meia-noite)

Poucas ideias me tocam mais: saber que poderei ser ouvido, via RDP África, lá longe, em Moçambique, na Beira, naqueles mesmos radiozinhos que nos embalavam as noites ao relento, perto dos mangais, dos sapos e das chapas nocturnas, naquele mesmo pátio deixado junto ao mercado do Goto. Vício de sentido, nunca abastecemos memória das soundscapes devidas à saudade.

Plano Nacional de Leitura


Religiões new age

A comovente fé João Miranda no anjo neoliberal:
"A esquerda, apesar da retórica igualitária, é, ironicamente, contra a transferência de capital dos países ricos para os países pobres, aquele que é nos dias de hoje o mecanismo mais eficaz de redistribuição de riqueza e de promoção da igualdade."

O mesmo é dizer:
"Com trombetas e som de cornetas, exultai perante a face do mercado" (adaptação livre do Salmo 98:6)

Escolha o seu



Estas duas fotos que resgatei do site do mundial guardam dois momentos cujo contraponto se me oferece esmagador. Na primeira foto, Ronaldinho é assediado por uma fã durante um treino. Na segunda, vemos uma anónima beijar Maradona antes do jogo entre a Argentina e a Costa do Marfim.
Apetece especular no tanto pode ser dito quando confrontadas estas frames de real:
A superioridade moral da decadência face ao estrelato. A elegia da melancolia como mais fiel companheira da beleza. O anelo que só o convívio com a vulnerabilidade ensina. A diferença entre o Brasil, feito da alegria e do gozo, e a Argentina, enculturada no futebol como uma questão de vida ou morte. O olhar que espera a loura e o que exercita a nostalgia.

Onde eu preferia estar? Dir-me-ão os mais avisados que é por demais dilemática a escolha entre o lugar do Ronaldinho e o lugar do Maradona. Mas não, é simples. Quem se enleia com o futebol para além da magia fátua dos seus artífices, honestamente, só pode desejar estar no lugar da morena.

Bom dia queridos leitores


Charlize Theron e Stuart Townsend assistindo aos comentários do Luís Freitas Lobo.

Enganos

Uma pesquisa do google chega a este blog, sábado à tarde (significativo o timing), com os seguintes termos: tratamento+após+a+perda+da virgindade. Imagino a desilusão. Sim, com o blog também.

2-0

Muito bom jogo, admito. Portugal, a jogar assim, terá muitas hipóteses com a Holanda, por isso, ele sabe-o, está na hora de Ricardo se prometer às estradas de Fátima para que Argentina não lhe apareça nos oitavos.
Costinha, Maniche, Deco; mesmo sem estar em pleno esta santa trindade é um luxo. Nem uma vida dedicada a felatios seria suficiente para Scolari agradecer a Mourinho o quanto lhe deve por este meio-campo. Os lampejos do Porto de há dois anos justificam plenamente duas horas passadas a ver a selecção portuguesa. Sem cerveja que se visse. Disse.

O palácio de inverno mesmo ali

Todos os jogos do mundial à pala neste link.
Alguns jogos passam no canal ESPN2 outros no ABC.

6-0

A minha Argentina segue robusta, excelentes jogas, melhores resultados.
Mas ando preocupado. É que a Argentina anda a jogar como um todo orgânico... como uma equipa, diria. O jogo colectivo é tal que Sorin pode ser o melhor jogador sem escândalo (não falha uma jogada, o gadelhudo). Está errado. À Argentina cabia jogar razoavelmente no que aos 11 diz respeito, devia estar pejada de défices e assimetrias só colmatáveis por uma insuportável dependência num kempes, num Maradona. Assim não dá. Riquelme é aquilo. E aquilo é bom, mas pronto. Tevez, Aimar ou Messi, já só são pensados como cerejas em cima do bolo e a equipa bem jogante dá-se ao luxo de não precisar desesperadamente dos seus rasgos. Arrogância comunitária, pois claro. Oxalá me engane, mas tenho um mau pressentimento. Para uma Argentina com pretensões de chegar ao título esta é uma equipa demasiado boa. Falta-lhe espera mitopoética num homem dos arrabaldes, falta-lhe a orfandade de um génio que se necessita dopado, falta ali o ansioso espectro de um tesão salvífico. Ainda assim, aguardo que a qualquer momento um desespero nos irmane, como outrora: é esta a minha equipa.

Do mal de Vila-Matas

"Sei que não devo esquecer que no fundo sempre quis sempre dizer adeus ao amor na vida e nos romances. Tudo perder menos a solidão e continuar. Terminava um livro e começava outro, continuando sempre. Perder tudo menos a solidão. E ter aprumo e dignidade e não chorar, justificar-me perante a morte com uma obra bem feita, levar a infeliz vida irrepreensível de um homem enganado."

Vila-Matas

Murderball


O que aí vem

Numa deliciosa palestra a que tive o ensejo de assistir há poucos dias, Immanuel Wallerstein, sim ele, chamava a atenção para a centralidade crítica de um actor geopolítico que no seu entender tem sido estranhamente ignorado pela opinião pública ocidental. O americano referia-se à Organização de Cooperação de Xangai, uma organização que foi criada pela China e pela Rússia há 5 anos em Xangai e que conta hoje com quatro repúblicas da Ásia central (Cazaquistão, Quirguistão, Tajiqiestão e Uzebequistão), a que se juntam, com o estatuto de membros observadores, a Índia, Paquistão, Mongólia e ... o Irão

Dizem alguns profetas da geopolítica que o mundo aposto a hegemonia unipolar americana se desenha já nesta "Nato euroasiática". Vem isto a propósito do artigo de Loureiro dos Santos hoje no público, à vossa atenção. Quanto ao efeito dos neoconservadores sobre a hegemonia americana, Wallerstein não poderia ter sido mais cáustico. Os mais tenazes imperialistas tinham todas as razões para detestar W Bush, mas, e aqui falo eu, devem-se ter deixado inebriar por naquilo a que Norbert Elias designou embriaguez imperial. Vão por mim que até nem sou de imperialismos: a ressaca é sempre imprecisa mas nunca agradável.

Coisas de homens

Robben festeja golo sobre Sérvia e Montenegro

Num quadro de valores vigilante da proximidade corporal entre homens, o momento do golo, tal como o tempo calendarizado do Carnaval, é um momento de 'anti-estrutura' (Victor Turner) em que as transgressões à norma são sancionadas e celebradas. Lembrarão um golo da Bulgária festejado com ostensivas carícias nas nádegas do marcador. Este 'consentimento' no futebol -- esta permissividade da homofobia ao momento o golo -- é tão mais interessante porque está escudada. Explico: quero crer que, para além da trascendência social incitada pelo milagre do golo, a 'permissividade' que a foto ilustra também deve ao capital de virilidade (e portanto à masculindade inequívoca) que os jogadores detêm em nome do desporto que praticam.

Ler: Jorge Valdano. Amen

If, despite such a weight of history, Brazil remain favourites for this World Cup, it is because of their outlandish talent: the magic of Ronaldinho, the devastating bursts of Ronaldo, the elegant and simple play of Kaka, the correct proportion of skill and power of Adriano, the 100 metres of football down the left of Roberto Carlos, and down the right of Cafu . . . They've even got a goalkeeper: Dida.

Argentina are another story. The difference from Brazil is perceptible even in the way they get to the ground. The Brazilians go to matches singing samba, because their relationship with football is an extension of a joyful way of life. We Argentinians go in the bus belting out terrace chants as if we were sharpening our weapons for the battle, such is the seriousness with which we approach football. Ler mais

O grama

Cada vez mais me convenço que o obediente uso do português é recebido nas charcutarias como um momento de arrogância gramatical:
'duzentos gramas de fiambre se faz favor'

A partir daqui a euforia é por vossa conta

O Benfica de Koeman, passando bem sem Simão e Petit - já agora com Beto a actuar no meio-campo -, ganhava de caras ao Portugal de Scolari.


Legenda: Pauleta em cavalgada triunfal a festejar o seu golo. Para quê correr logo a agradecer ao Figo?

Mortes mal intencionadas

Confrontado com a notícia de 3 prisioneiros que se enforcaram nas suas celas, com roupas e lençóis, o director do campo de Guantanamo reage do seguinte modo:
"Eu acredito que isto não foi um acto de despero, mas um acto de guerra encetado contra nós"
Ao procurarmos alguma lógica nestas palavras percebemos que, ao contrário dos bombistas suicidas, cujo objectivo é juntar mortes à suas, a morte destes prisoneiros cumpre-se por si só como um acto de guerra. Assim sendo, na perspectiva do director, estas mortes aparecem como um significante cujo sentido é denúncia da existência de Guantanamo. Seriam mortes sábias, politica e vingativamente orquestradas, portanto. Achei tão estúpidas as palavras do director que só me apeteceu descartá-las com nojo. Mas, tal como defendo noutro tipo de exercício interpretativo, cabe compreender mesmo aquilo visceralmente nos causa repúdio. Afinal a reação do director é preciosa enquanto cintilante declaração da bizarria instalada na administração americana: bizarria apenas trivializada pelo exercício do poder. Guantanamo, não discordamos, creio, é símbolo de uma deriva que imita algo da espúria arbitrariedade do terrorismo.
Notícia aqui.

Nem precisam agradecer (actualizado)

Carlos Vaz Marques à conversa com Chico Buarque, ouvir aqui:
Parte 1
Parte 2
Parte 3

Escolhas parentais

Imagino que seja difícil aos pais de hoje gizarem um compromisso entre liberdade e alguma ideia mais consistente de educação. Por um lado, porque o autoritarismo paternal se encosta muitas vezes a um desejo de controlo obsessivo e mutilador, por outro, porque os apelos tardo-capitalistas, consumistas, estruturantes da cultura de massas, cada vez têm mais linha directa com os petizes.

Falava no outro dia uma mãe que, em prol de uma formação mais equilibrada, não permitia à filha de 6 anos ver os Morangos com Açúcar e nem pensar levá-la ao concerto dos D´zrt (aparte: consta que os "músicos" ameaçaram cancelar os concertos se as músicas continuassem a ser pirateadas, está visto que a pirataria pode cumprir os mais nobres propósitos). Não consegui deixar de ver nisto algum despotismo, mas por outro lado...

Bom dia


Milo Manara

Longe de Manaus



Muitos Parabéns

Assim em jeito de exortação aos lisboetas



Bruno Sena Martins. E se eu fosse cego?




Lançamento do Livro
"E se eu fosse cego"
9 de Junho, 18:30, na Fnac do Chiado, Lisboa.

A sessão será apresentada por:

Gonçalo M. Tavares (Escritor)
Humberto Santos (Presidente da Associação Portuguesa de Deficientes)







Foto: Eduardo Basto

Mas custa

Muitos comportamentos que se conformam com aquilo a que poderíamos chamar afirmação de masculinidade -- da exaltação da violência gratuita à misoginia militante -- são frequentemente caricaturados como produto de um excesso de testosterona nos machos em causa. Ora, percebendo a natureza do exercício de masculinidade quotidianamente performado no trânsito, nos piropos de mau gosto, no achincalhamento dos "maricas", deve-se supor que a referência ao excesso de testosterona até seja acolhida como elogiosa. É afinal isso que os machos em constante ritual de afirmação procuram provar.

Isto dito, quer-me parecer que a descrição que mais explica (ao mesmo tempo que caricatura) essa masculinidade incontida, nos remete para o conceito de testosterona mal parada (inventei-o, quero acreditar). Assim se explicando, em segunda ordem, um putativo excesso de testosterona.

p.s. Quando não é vivida em negação, a testosterona mal parada não é um mal em si e até se oferece a registos de inegável candura e beleza poética, como aquele dizer que o Pedro Mexia cita "Mas custa. Não se fode" (a citação é recolhida do blue velvet).
Testosterona parada com classe, portanto.

A medida da dor

"Não perdi apenas a vontade de jogar, perdi a vontade de viver"

(Martins Demichelis após ter conhecimento da convocatória argentina em que José Pakerman o deixou de fora do mundial)

Há nesta frase uma revolta que nada tem a ver com uma convocatória ou sequer com o futebol. Alguns acharão que é excessiva -- com propriedade, admitamos. Muitos jogadores colocados perante desdita semelhante afirmaram compreender as opções dos técnicos, na normalidade que o profissionalismo ensina. Não podemos senão duvidar da verosimilhança humana desse poder de encaixe - as lágrimas guardadas para casa? Até acredito que seja uma forma heróica de viver a angústia, e também acredito que a sobriedade de lembrar a lapalissada que não podem ir todos seja a atitude mais terapêutica e humilde. Quero que se lixe, neste quinto do seis de dois mil e seis Martin Demichelis é o meu herói. Para vidas em que, mal ou bem, o mundial se assume como a medida de todas as coisas, dá gosto ler esta crua honestidade ensaidada à beira do abismo. Há nela uma aceitação da escala total da perda e um tocante despudor no consentir de que, às vezes, a vontade de morte nos vem por aquilo que afinal é tão pouco, nas sábias escalas dos outros.

Ainda os elefantes








Sobre a relação dos elefantes com as ossadas dos seus co-específicos a Maria das Flores (muchas gracias) achou este instrutivo artigo e uma citação que risca esconconjurar para a ordem do mito aquilo que eu tomava por certo (vou-me habituando):
Biology Letters (DOI: 10.1098/rsbl.2005.0400) "The notion of elephant graveyards – where old elephants wander off to die – has been exposed as myth by previous studies, the researchers note. Nonetheless, they believe their experiments “cast light” on why elephants are often seen interacting with the skulls and ivory of dead companions. But there is no way to tell whether the elephants are mourning their dead – although they get very excited when approaching carcasses, with secretions streaming from their temples."

The dreamers

O ancestral hábito de mijar nos lavatórios das estações de serviço nos dias dos jogos foi infundido de um charme soixant-huitard após o filme de Bertolluci. Tal reversão simbólica ficou-lhe como um pesado estigma entre as gentes da claque.