Logística histórica

Descida da Cruz (1612-1614), Rubens.
«worshippers could see was this scene from the legend of St Christopher, whose Greek name 'Christophorus' means 'Christ-bearer'. This fact forms the key to the entire painting, in which the friends and holy women in the centre panel, and Mary and Simeon in the wings are also 'Christ-bearers'.»

O princípio de sobrevivência católica: "incorporar o que já não se consegue extirpar", forjou uma insólita tensão histórica e teológica entre, por um lado, a centralidade de um Jesus obediente à institucionalidade imperial (claro está, trono e altar), e, por outro, uma panóplia de adorações nas proximidades da "idolatria bíblica": adoração lateral à divindade, inconofílica nos seus termos, profusamente acossada no texto bíblico.

Não vou muito à bola com santos e as figuras de adoração (dão para inenarráveis de toda a espécie ao serviço de localismos e carências psicanalíticas, mas, ainda assim, cabe distinguir uma Lúcia de um Francisco -- cujo nome quererá dizer o pequeno francês). Tampouco me deixo ludibriar pelo Jesus conveniente de que a Igreja se apossou, mesmo a despeito dos envagelhos que canonizou nos primeiros tempos (lá jaz um Jesus em todo o caso suficientemente interessante, figura que de modo algum me envergonha a fé -- aparece já mais "massajado" no evangelho-não-sinóptico de João).

No entanto (estava a tardar algum sentido neste post), não deixo de considerar delicioso o modo como a sede de individualidades de adoração, satisfeita ao longo dos séculos, nos confere momentos como o que é retratado no quadro de Rubens. Imagens dos bastidores da história. A pretexto de Cristóvão, diz-se, o homem que segurava Jesus.

Corpos e heterónimos

Acompanhar v.
no diário de uma quase puta, quase triste.

O som e o sentido

"Bruno, precisamos de falar."

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Retratos do lazer



Beira, Moçambique, 2005

Irão

Na medida em que seja possível desligar o futebol da geopolítica, e já agora do nacionalismo, espero não ser mal interpretado quando tiver que festejar os golos do Irão ante à selecção de Scolari, Ricardo e Madaíl.

Licença de

Havia de ser feito um estudo que procurasse perceber a influência dos desgostos amorosos no trabalho (intelectual ou outro). Não penso que as conclusões de tal estudo permitissem um planeamento da produtividade laboral; o que vem vem, temo informar. Apenas desejaria que o lirismo crónico pudesse receber o reconhecimento social, intitucional e administrativo que há muito merece.

Os lubrificantes tácitos

Os proprietários dos veículos quando pagam ao mecânico para que, após a revisão, lhes leve o carro à inspecção estão financiar o incómodo e o tempo implicado numa ida ao centro de inspecções. Essa é a história consensual. Mas. Será que. Será que na factura não devia estar também aquilo mais porque se paga (ainda que sem querer e sem má fé de alguma das partes)?. Isto é: "a maior probabilidade de que o carro passe à primeira em nome das relações de proximidade que necessariamente se estabelecem com a reiterada ida dos mecânicos aos centros de inspecções?"

Admiradores

Aparantemente reflectindo sobre a suas próprias movimentações num encontro de bloggers lá para os lados da capital (deduzo, especulativo), define-se a Ana Cláudia Vicente: "Admira na proporção inversa à que enceta conversa"

Aproveito o mote para derivar.
Preservamo-nos de quem admiramos talvez para nos protegermos da figura de adolescentes dados a idolatrias. Queremos ser levados a sério e a isso convém o recato, a negligência ou mesmo a frieza. Ademais, se aqueloutro que admiramos tem populaça que baste para lhe massajar o ego, é natural que nos dispensemos à vulgaridade no mesmo movimento em que salvamos a pessoa de um perigoso "um excesso de si". Pode ainda acontecer que a grandeza intelectual reconhecida ao admirado crie um efeito de abismo dissuasor de qualquer interacção.

A solidão de que falava Michel Foucault, aludindo ao epílogo das suas conferências, deve certamente ao concurso destas razões (tão seguros que nós estamos...). Mas há uma outra possibilidade, porventura mais existencial: admiramos tanto uma pessoa que a preservamos a uma distância caultelar, a distância que esconjura o espectro da desilusão.
A atribuirmos validade a essa hipótese, no fundo evitamos a prova de mundanidade, aquela que molesta ideários com maior frequência que consente cumplicidades. Talvez seja isto o platonismo do idólatra.

Ilhas de História

Islands of History, Marshall Sahlins. Um livro fascinante que nos conta como o Capitão Cook terá sido recebido como um deus pelos havaianos. Consta que, por celebrarem naqueles dias o ritual da vinda do deus Lono, ao verem chegar Cook, volteando-se nos conformes, logo o acolherem como deus. De um deus se despediram. E seria esta a história não fora um problema no mastro obrigar Cook a regressar. Essa última aportagem dá-se fora do calendário da divina espera e, por abastado sortilégo, haveria de se instaurar o caos, a adoração transformar-se em rejeição, assim se espoletando uma gravosa quebra na ontologia cultural havaiana. Resultado: Cook é assassinado.

Esta é a narrativa histórica ao serviço da teorização antropológica de Sahlins.
Há quem discorde, o debate está aí. É dele que nos fala em aturada prosa o Luís Quintais.

Contam e eu acredito




O som e o sentido

A majestade inicial da desgraça.

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Vidas à séria

"Volta e meia ouço alguma pessoa dizer que anda tão atarefada que já não tem tempo para ler blogues. Há por aqui algo de valorativo, não há?"
(Tiago Cavaco na Voz do Deserto)

Alegrias em escala

Face ao diferencial de plantéis, o mérito de CoAdrianse esteve em fazer acreditar alguns que o campeonato nacional é uma coisa difícil. Mas nem com ardilosa encenação de dificuldades me apanham a buzinar. Uma alegria destas é meramente estatística.

Confesso: o simples facto de saber quem não buzinará por estes dias quase me faz exultante.

Anatomia do retorno

Perante a curiosidade da irmã recorreu a um clássico do linguajar futebolístico para confessar o seu reatamento com a namorada do liceu. Voltei ao convívio das grandes.

O Filtro

O meu email insiste em mandar para a Bulk folder mensagens relevantes como se de spam se tratasse. Já a inbox é posta ao serviço de propostas de alargamento do pénis. Podemos suspeitar que o filtro de email é animado por uma intencionalidade pedagógica: redefinir-me as prioridades. Eu prefiro acreditar nos imponderáveis dos acasos informáticos à entronização de um deus-máquina. Pelo menos neste particular.

O som e o sentido

As pessoas falam em ambições literárias alheadas do oxímoro.

1506


Não pude estar no Rossio, mas aqui fica a minha vela pelo 19 de Abril de 1506. Junto-me aos que lembram A Matança dos Judeus.

Sunyata

Aqui há tempos, um amigo, desiludido com as relações e desalentado com o silêncio das mulheres, investidas em não lhe dar troco, atirou o telemóvel para as silvas. Agora, diz-me, vive em paz sem nada esperar. Um eremita hoje em dia não carece de grandes despojamentos logísticos.

Mudanças

O Miguel Cardina escreve agora n' A Cidade Vaga. E sim, é um excelente nome. O do blog também.


Há que confrontar a hipótese original segundo a qual o poder é essencialmente da ordem da repressão. Michel Foucault

Cine

Não sei onde fui buscar um condicionamento reflexo para dizer mal do Coisa Ruim, o certo é que fui ver o filme e fiquei assim para o descalço.

Snipers da Bloga

Confesso uma certa incomodidade perante pessoas que nada fazendo pela visibilidade e vitalidade do blog colectivo a que pertencem apenas nele escrevem quando tal interessa à defesa táctica de interesses pessoais ou políticos. Pessoas que tomam partido da audiência garantida pelo labor de comparsa(s) de blog para emergirem fugazmente, por exemplo, nas vésperas eleitorais (neste particular avultam-se-me umas legislativas no ido Barnabé) ou então para rebaterem algum ataque à dama lá de casa (normalmente o nome ou a obra). Não há aqui pretensões éticas. Tampouco me dou ao desplante de julgar "editoriais" alheios. Trata-se apenas a reflexão de um leitor sobre coisas que de ora em ora lhe causam espécie nos lugares que gosta.

A Europa dela

"A Europa será branca ou não será Europa" Fátima Bonifácio, Prós e Contras



Não assisti a estas declarações* e apesar de ao longo da semana as ter lido referidas em vários blogues fui mantendo uma descrença prudente: "não Bruno, não é possível, senão ela já tinha aparecido naqueles tempos de antena." Mas às tantas começo a pensar que a historiadora terá mesmo proferido tal enormidade. A ser assim, alguém me sabe dizer se a Dra Fátima Bonifácio já teve o ensejo de se retractar ou, quiçá, reiterar o que disse?

Achará talvez a Dra. Fátima Bonifácio que eu lhe deveria pedir desculpa por contribuir para a incómoda descaracterização do seu modelo rácico de Europa com a minha presença neste solo?
Saberá a historiadora da expulsão dos Mouros e dos Judeus da península Ibérica no mesmo século que a Europa foi atazanar os ameríndios no início da senda colonial global.
Curioso, mas afinal sempre há argumentários que me animam à paternidade. Dra. Fátima Bonifácio, se me está a ler, devo parabenizá-la pois que alvoraçou em mim uma insólita vontade de contribuir, com generosa prole, para uma Europa crioula, tudo com o fito lhe angustiar as tardes nas décadas a esperam.

*Só vi a parte final do programa com destaque para a performace de César das Neves e devo dizer que foi dos espectáculos mais
patetétricos que já tive o ensejo de assistir em Televisão.

Quando dois bloggers acabam um namoro podem-se despedir com belos epitáfios

"Vamo-nos lendo por aí."

O som e o sentido

Flama.

O gene

O meu débil alento face à possibilidade de vir a procriar deve a um receio muito claro: não acredito na determinação genética do carácter, mas temo-a.

Aviltante

Público:
«O Supremo Tribunal de Justiça considerou como "lícito" e "aceitável" o comportamento da responsável de um lar de crianças com deficiências mentais, acusada de maus tratos a vários menores.

A mulher tinha sido indiciada por diversas situações: daria palmadas e estaladas às crianças, fechá-las-ia em quartos escuros quando estas se recusavam a comer. Foi condenada por apenas um caso (o tribunal considerou que, pelo menos por duas vezes, amarrou os pés e as mãos de um menino de sete anos, como forma de evitar que saísse da cama e perturbasse o seu sono), tendo sido condenada com pena suspensa.

O Ministério Público recorreu, mas não lhe foi dada razão. O Supremo disse, aliás, que fechar crianças em quartos é um castigo normal de um "bom pai de família". E que as estaladas e as palmadas, se não forem dadas, até podem configurar "negligência educacional".»
Veja-se que belíssimo exemplo de como a Justiça pode ficar refém pelos valores de partida dos decisores. Há aqui um belo case study de como as palmadas que os Juízes sofreram na infância podem deixar marcas irreversíveis. De resto, vindo de onde vem, é gravíssimo

Urgências

Reparo. Sempre que prometo esrever no blog sobre alguma coisa acabo por não o fazer. Creio que a escrita que por aqui escorre se liga a uma impetuosidade motivacional que pouco trafica com a promessa e com o sentimento de obrigação que daí decorre. Mas isso também pode redundar na preguiça de não escrever sobre coisas que reputo de importantes nas quais creio, modestamente, a minha opinião valeria demorar-se. Há um egoísmo nativo dos imperativos de alma. O viajar para outras urgências emerge, por isso, como um chamamento pós-umbiguista no sentido de uma reelaboração performativa da natureza dos próprios imperativos de alma.

Um adeus português

"[Alexandre O'Neill] uma manhã tem uma das habituais (e sempre iguais) trocas de palavras com o pai, o emproado empregado bancário José António Pereira d'Eça Infante de Lacerda O'Neill de Bulhões:

— Alexandre, leva o chapéu de chuva.
— Não é preciso, pai. Não chove.
— Chove. Leva o chapéu de chuva.
— Não é preciso, Pai.
— Já te disse para levares o guarda-chuva.
— Não levo o guarda-chuva e nunca mais cá apareço.

Esteve 16 anos sem ver o pai."

Retratos do lazer


Beira, Moçambique - Novembro de 2005

A propósito de nada

A insensibilidade das respostas secas enquanto fuga ao agonismo das dúvidas fundas.

A decadência da Europa

Nem a Igreja Católica merecia ter César das Neves como sua figura emblemática.

Projectos de vida

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A decadência exige o trabalho prévio de criar uma reputação donde se possa desenhar um declive generoso. Às vezes só apetece cortar caminho.

Para Scolari


Baía festeja com Helton a vitória sobre o Sporting.

Como se comprova pela foto, o jogo de ontem também serviu à constatação de que Baía é demasiado sobranceiro para saber estar no banco. As minhas desculpas ao seleccionador nacional pelos insultos, manifestamente insuficientes, que lhe dirigi no passado. Prometo redimir-me enquanto for tempo.

Obrigado Ricardo.

0-1

Naquela noite importava poder imaginar que o Porto ainda existia enquanto antiquíssima promessa de júbilo. Há noites em que as efabulações são tão vitais que as vemos passar em frente dos nossos olhos. Não aconteceu, bem sei. Mas, toldado por inconfesso querer e nostálgia, convencer-me disso não é fácil...

A ler: "O Porto necessita de jogadores-adeptos. Baía e Jorge Costa, mas também Domingos e Paulinho Santos, André e João Pinto, Augusto Inácio e Fernando Gomes (...) Ainda assim, Fernandéz não foi um erro tão trágico como Adriaanse (...)"

A melancolia pós-orgástica

Recolho da leitutra de Umberto Eco uma expressão que bem podia ilustrar o post anterior:
Omne animal triste post coitum

A leitores/as de perna alçada


Quando alguém no posfácio olha o vazio é porque os dias estão contados.

Nós

Armagurada, deliberou que dali em diante só usaria o nós majestático.

Racismo

Onde não devem comprar sapatilhas (notícia do DN) (Pisos 3 e 4 do Centro Comercial Avenida, Coimbra).

"MAMMA BOYS"

Versando sobre a realidade italiana, o público traz uma peça hoje sobre os Mamma Boys: jovens depois dos 30 que não largam a casa dos pais mesmo que às vezes possam ter um ordenado na ordem dos 1000 euros. Ontem numa conversa falava sobre isso mesmo, de como à sede de autonomia da gerações anteriores sucede hoje num conformismo em que a precariedade económica é acautelada ao limite e a vontade de logísticas amorosas pouco pode. Já ninguém abandona o lar maternal sem uma simulação do crédito ou a lista de casamento para encastrar a casa.

Amanhã

Debate: O Desenho das Civilizações.
7 de Abril, 18.00h, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Lá nos encontramos.

2-0


Quando me dou ao luxo de não ser faccioso, a minha adulação é para com histórias marcantes. Por isso, ou o Benfica ganhava ou era esmagado sob frondosa goleada. Assim é que não: um não evento. Percebam, até me sinto derrotado pela monotonia da realidade.

De tanto bater

As pessoas apanham-me na rua e surpreendem-se. Ando a deixar crescer o cabelo, perguntam.
Face ao batimento de gestos costumeiros, toda a omissão ganha um estatuto de intencionalidade inventiva.

Desconstrução

Fátima Campos Ferreira aparece no Prós e Contras vestida por Fátima Lopes.

Fácil falar

Durante muito tempo ele foi o conselheiro sentimental dos seus amigos. A perda de ethos surgiu com Lara.

Hierarquias do quotidiano

A exaltação de méritos torna-se particularmenre sensível quando assenta num exercício implicita ou explicitamente comparativo. Consoante o tacto, frontalidade e têmpera do enunciador a coisa faz-se só perante o eleogiado ou perante demais gentes que, conforme as situações, poderão ou não sentir-se medidas pelo o elogio a outrem. Nenhum problema, entre as hierarquizações insensíveis e a cobardia avaliadora há todo um espectro de hipóteses. Um exemplo: eu sou cobarde ao ponto de já ter ensaiado mais que uma vez eleger uma lista com os blogs do ano e, no final, nunca o fiz. Feitios e meneios. Tudo bem. Só há uma coisa que acho verdadeiramente repugnante e hipócrita: aquelas pessoas que, armadas em cuidadosas, elogiam, sublinhando a hierarquia no mesmo movimento em que a acautelam, personalizando-a. Concretizo. Não sei se já ouviram, a expressão canónica para tais investidas horríficas é: "Não desfazendo...".

Apesar de você

Quaresma marca o golo e corre ao banco para o dedicar a Vítor Baía. Drulovic, o totem da trivela que Quaresma agora executa, aplaude da bancada onde o vemos envergar um cachecol azul e branco. Nesta época já só interessam estes lances, só me interesa ver aquele abraço em replay. Ainda há ali qualquer coisa. Esta semana Pinto da Costa afirmava que os portistas continuariam a falar mal de CA mesmo que ele ganhasse o campeonato. Tem razão. Eu sei porquê.

A mulher do próximo

Fiquei algo esperançoso, mas a verdade é que eles parecem felizes.

Carta do leitor

Há templates que fazem da leitura de um blog uma espécie de peregrinação sacrificial. O mérito de me cativarem o retorno apesar da moléstia das dioptrias fica naturalmente postulado. Dito isto, queria pedir à malta do mar salgado e ao yesterday man para considerarem mudar o grafismo dos seus respectivos. Mudar o mundo está difícil, por isso eu vou ensaiando com estas mundanidades. Se me ignorarem ganham um admirador.

Palavras: o som e o sentido

Malaise.