Verosímil

Com a disseminação do silicone, elemento emblemático da cultura do simulacro, o uso do conceito de verdade torna-se crescentemente problemático. Sensíveis a isso mesmo os "comentários dos andaimes" serão crescentemente dirigidos para jusante da ansiedade pelo genuíno. "Tem umas mamas verosímeis", limitar-se-ão a assentir os contempladores, sem outra fé.

Sobretudo

Cada vez estou mais convencido que ter um blog não é exactamente andar aí pelos parques a abrir o sobretudo.

Suplício

Se de cada vez que o CoAdriaanse fizer uma substituição -- ou der sinais de existência -- eu lhe chamar "filho de uma grandessíssima geisha" estou a ser conceptualmente incorrecto, etnocêntrico ou apenas bem intencionado?

Tão civilizado que eu sou

Como sou pouco dado ao espírito da guerra das civilizações, seja qual for a perspectiva, reactiva ou contra-reactiva, fundamentalista religiosa ou fundamentalista secular, sacralizadora da liberdade de expressão ou da figura de Maomé, sobre a campanha publicitária da Santa Casa da Misericórdia, limitar-me-ei a escrever um post de fundo.

MSN

Ao ver a namorada envolvida com o amigo, sem mais, bloqueou-o no messenger. Não era má pessoa, mas nestas coisas: implacável. Voltariam a reconciliar-se já no Google Talk.

Suspense

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Margarida Rebelo Pinto enquanto o livro de João Pedro Jorge não chega às livrarias.

A adorada transcendência da economia capitalista

"O paradigma está a mudar. É superior à vontade dos homens."
[Miguel Horta e Costa em entrevista ao Diário Económico, 27 de Março]


A crença na economia enquanto divina poucas vezes foi expressa com tamanha desfaçatez Ela está para lá dos homens e suas possibilidades, acreditam. Os desempregos provocados pela deslocalização das empresas e a crescente injustiça na distribuição da riqueza serão, para aquelas cabeças luzidias, meras epifanias: manifestações colaterais do sagrado neoliberalismo. Hegel, volta, estás perdoado.

Sinistro

Este post. Por favor, afastem as granadas desse senhor.

"Apologia do fracasso"

Escreve o Daedalus: Há, no entanto, um elemento característico do sportinguista médio, o cultivo sublime da estética do fracasso, que verdadeiramente norteia a identidade do melhor clube do mundo, construída sobre pesadelos e ruínas num esforço de superação que acaba quase invariavelmente no pó dos caminhos. Ganhar, no Sporting, é sempre mais difícil. E isso torna tudo mais belo.

Barely Legal


Ao ler este belo texto do Francisco fiquei meditativo, dei por mim seduzido pela elegante retórica, cheguei a pensar se este enleio com a estética do fracasso não devia ter feito de mim um digno sportinguista. Por momentos, e isto confesso envergonhado, imaginei-me a chorar de verde e branco em sublime corência. Nestas tentações seguia até que os meus matutares chocaram com uma antiga persuasão: a estética do fracasso é um luxo só possível a quem não vive nas proximidades do abismo. Assim investido logo me consagrei a um curioso artifício psicanalítico: acredito que jaz no adepto Portista a sábia convicção de que para fracassos bastamos nós. É na exaltação fugaz das vitórias futebolísticas que encontramos uma coreagrafia verosímil da realização pessoal. É a ver a bola que intentamos alcançar as glórias amargamente sonegadas nos mundos da vida. No fundo o portismo liga-se com uma identidade mais temerosa do que temerária: por temermos demais a queda biográfica recusamo-nos a dançar com os seus poetas, fugimos, enfim, ao perigo de nos confundirmos irremediavelmente com as derrotas. Todos estes pensamentos me seguiam, convencendo-me. Alentando-me. A memória sublime ocorreu então depois, quando me lembrei da frase de um amigo meu.

Tínhamos acabado de ver a eliminação do Porto da Taça em Guimarães. Deixámos para trás o ecrã gigante, as mesas do café, e seguíamos pleno Outono pela rua do Brasil, tristes, devolvidos por uma seca derrota às nossas vidinhas. Eram os tempos de Fernandez e o deserto pós-Mourinho desenhava-se já. Talvez ciente de tudo isso o meu amigo antologizou. Foram as únicas palavras que se ouviram naquele regresso, palavras nostálgicas e proféticas:
"Dantes ainda tínhamos o Porto", disse.
Não é a estética do fracasso, Franciso. É o verídico medo de o sermos.

Debate

Caríssimos, vejam lá se dão um salto a Coimbra. Apontem nas agendas este possível pretexto:

O desenho das civilizações: dos cartoons às conversas difíceis

7 de Abril de 2006, às 18 horas
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Organização: Marta Araújo, Marisa Matias, Hélia Santos e Bruno Sena Martins
Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra


Singularmente célebres, os cartoons inicialmente publicados no jornal dinamarquês Jyllands-Post suscitaram importantes ondas de indignação e violência em vários países islâmicos, na Europa, em África e na Ásia. A publicação e republicação dos cartoons, onde surge representada a figura de Maomé, e as inflamadas respostas surgidas desenham um fenómeno com uma magnitude social e política já incontornável na arena internacional. Perante a sequência dos eventos e na tentativa de captar as suas implicações, várias dissenções se vêm esboçando. Grosso modo, e de forma bastante central, surge o debate entre quem, defendendo a publicação dos cartoons, advoga a liberdade de expressão enquanto património intocável devido à história civilizacional do Ocidente, e quem sustenta uma leitura informada pelas sensibilidades culturais, religiosas e históricas das comunidades islâmicas, dentro e fora da Europa. Porém, várias outras questões podem ser colocadas. Haverá limites para a liberdade de expressão? Quem define o que constitui ofensa ou blasfémia? Que modelo de multiculturalismo estarão as sociedades Europeias dispostas a seguir? Em sociedades auto-representadas laicas, qual o espaço da religião na esfera pública e na construção das identidades? As posições que aqui se jogam, a partir de eventos ainda recentes, convocam questões de rara profundidade epistemológica e pertinência sociopolítica, pelo que constituem fundamento bastante para o debate vivo e preocupado que assim propomos discutir.

Com a participação de:

José Pacheco Pereira, ISCTE, ex-deputado, historiador.
Isabel Allegro Magalhães, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Univ. Nova de Lisboa.
Mostafa Zekri, investigador livre (antropólogo e islamólogo).
Adel Sidarus, Instituto de Investigação Científica Tropical (Lisboa).
Boaventura Sousa Santos, Centro de Estudos Sociais e Faculdade de Economia da Univ. de Coimbra.
Moderação:
Maria Irene Ramalho, Centro de Estudos Sociais e Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Non


Reuters/Regis Duvignau

Psicologia de cabeceira

Ler na cama antes de adormecer é tanto um comportamento desviante como uma inventiva forma de coping. Os usos lúdicos do leito escarnecem-se com propriedade da deslocada felicidade de tais leitores.

Memórias electivas

E o Timofte, Francisco. O Timofte.

Querido diário

Tenho três objectivos desportivos para está época:
1. Vitória no campeonato
2. Vitória na taça
3. Demissão de CoAdriaanse logo após a última jornada

Na impossibilidade destes objectivos se acumularem de bom grado sacrifico os primeiros dois em prol do último.

Mas lá que deu gozo, deu...




Pepe

Um jogador extraordinário, amiúde soberbo, sem nunca chegar a ser um bom jogador.

Memorandos

À medida que seguimos a viagem em que tanto os nazis como quem eles perseguiam embarcaram, ganhamos um conhecimento mais profundo da condição humana. E o que aprendemos não é, de todo, muito agradável. Nesta história o sofrimento quase nunca é redentor, embora haja, em ocasiões muito raras, pessoas extraordinárias que agiram com virtude; porem, em toda a sua extensão é uma história de degradação. É difícil não concordarmos com Else Baker, enviada para Auschwitz aos 8 anos, que diz: «O nível de depravação humana é incomensurável» (...)

Contudo, esta história também nos mostra que, se os indivíduos podem ser moldados pela situação, certos grupos de seres humanos são capazes, em conjunto, de criar um cultura melhor que, por sua vez, os ajudará a agirem com maior virtude.
Rees, Laurence, 2005, Auschwitz: Os nazis e a solução final, Lisboa: Dom Quixote.

Decotes em flor: o terno retorno

Francisco, tens razão. Já é oficial a proliferação de seios em conúbio com os conceitos formais de mama insinuados pelos decotes. Doravante poléns e seios vaguearão pelas áleas disputando-se nessa ancestral vaga de perturbação primaveril. Aos abrigos.

Iraque: 3 anos depois



Durão Barroso performa nesta foto um momento da sua prostituição política. Isso mesmo. Ideia forte, bem sei. Perdoarão, mas contra isto nada posso: acredito que na cimeira não só esteve em causa o realismo das relações internacionais e a subserviência aos mais fortes em nome de um interesse nacional entendido em termos estreitos. Acredito, isso sim, que Durão Barroso foi movido por uma desmedida ambição e por uma insuperável vaidade pessoal. Como a ida para a comissão europeia o provou, ele não é homem de demasiadas precupações pela coisa pública, ele não é senão um ardiloso e bem sucedido profiteer. O que temos no fundo é realismo das relações pessoais transposto para a arena política e para um leviano conluio com a guerra e os seus senhores. Quanto aos demais patrícios que apoiaram a guerra sem recompensas de qualquer ordem, que não a severa sentença de história e o efémero gozo do contra, bem podem clamar surpresas mil. Não podiam imaginar a ausência das armas de destruição massiva , não podiam imaginar os grosseiros erros do pós-guerra. Tiveram azar: os limites ideológicos da imaginação raras vezes retumbaram com tamanho estrondo.

Palavras: o som e o sentido

Noviça

Idas e voltas




A minha vaidade e a minha nostalgia montaram uma cena impossível.
(Borges)

Moçambique

Quando regressei de Moçambique poucas coisas me fizeram mais confusão. Não imaginam as inúmeras pessoas que me vinham falar com olhos chorosos, aproveitando-me para evocarem a África onde viveram e comçeram a ser gente. Só vizinhos conto três. O dono da Loja de Ferragens aqui da rua traz no carro um autocolante alusivo ao Carnaval do Lobito. 1968, acho.

Não duvidem, há por aí todo um subtexto biográfico carente de lugares de enunciação, um subtexto que sobrevive na forma de memória e saudade. O facto de eu ter estado em Moçambique serviu à elicitação dessas memórias, nalguma medida censuradas pelo imperativo de redenção pós-colonial. Mas, na verdade, a crítica do colonialismo em que essas pessoas efectivamente se instalaram não esgota a sofrida lembrança desses tempos e lugares deixados para trás. A juventude, os mangais, as chuvas, os amores, os pretos e as praças .

"Nostalgia Imperial" (Renato Rosaldo) com lirismo junto. É, estranho, mas é mesmo assim.



Edward Hooper na planície alentejana.

Relativismo radical (act.)

"Cada marido é um mundo"

A frase pertence de um poeta salvadorenho: Roque Dalton. Reservas morais à parte, cabe reconhecer: ali jaz todo um tratado sobre o génio pós-monogâmico e pós-cartesiano do seu autor.

Heisenberg posto...

Deste repto que o Paulo me lança: "ouvi num documentário que no início do cinema quem fazia a montagem das películas eram as mulheres. porque se tratava de um trabalho parecido com tricot. talvez o avatar encontrasse aqui uma metáfora para a vida. uma certa vida."
Diria que não há meticulosa paciência que invente cenas ou lãs em falta. Livramo-nos dos despojos dos dias e esperamos que um denso aparato de restos e movimentos vagos seja bastante para justificar a silhueta do que fica. Isto das mulheres ficarem a compor as aventuras dos homens cansou Penélope e honrou Ulisses. As tramas da dor calada. A vanguarda masculina junta-se aos sábados à tarde para tricotar no clube recreativo, para entreter a tarde, cerzir vazios, e para esquecer as mulheres que sabiamente não voltam. Nem espera, nem incerteza.

A Escola da Noite

foto de augusto baptista
muito se tem dito sobre os espisódios lamentáveis que vêm marcando a política cultural em Coimbra. É-me um pouco bizarro perceber o autismo institucional reinanante, por um lado, e, por outro, o bairrismo àvido em desqualificar as vozes dos não-conimbricenses-encartados, sob alegação de que Coimbra não aceita lições de ninguém e, gesto infanto-juvenil, logo acorrem os poderes camarários ao patético slogan: Coimbra é uma lição. Está bem abelha. Será, pois então, uma lição de continuada degradação. Pena é que Coimbra pouca atenção mereça das agendas mediáticas nacionais, assim permitindo que as tropelias que se aqui se vão fazendo prossigam em relativo clima de impunidade. Transcrevo aqui o excerto de um artigo publicado pela associação Pró-Urbe, sobre a situação escandalosa vivida pela “Escola da Noite", companhia teatral cuja actividade, ao que parece, vem sendo tida como lesiva dos altos desígnios da autarquia :

(…) Vem isto a propósito do anúncio recente da eminente paragem da actividade d’A Escola da Noite por problemas financeiros graves, resultantes do não pagamento do subsídio da Câmara Municipal de Coimbra à actividade do grupo para 2005 (e atenção que não é gralha: actividade do grupo para 2005).
(…) A Escola da Noite é a primeira companhia de teatro profissional a nascer em Coimbra e foi devido à sua existência e actividade que foi edificada a Oficina Municipal do Teatro (onde ficará companhia residente o Teatrão) e o Teatro da Cerca de São Bernardo. É uma estrutura que o Ministério da Cultura, a Universidade de Coimbra, o Ministério da Educação, a Fundação Calouste Gulbenkian, entre tantas outras instituições, têm reconhecido como a interlocutora na prestação de serviço público de teatro na cidade.
Naturalmente, causa-nos grande preocupação a situação da companhia, que se limita a pedir o cumprimento do acordo. Mas, tão ou mais preocupante, é a forma como os responsáveis da CMC, depois de forçados a responder, tratam a resolução desta questão: pagam quando pagarem! E vão avisando de que não são susceptíveis de ceder a pressões mediáticas provocadas pela companhia.
Neste momento importa-nos então saber se esta Câmara é capaz de cumprir com o que se compromete. Afinal, a responsabilização dos autarcas pelo cumprimento das deliberações que aprovam não pode ser entendida como uma pressão à qual será dada resposta quando for... Às acusações recentes de indefinição de uma estratégia cultural para a cidade temos que nos.
Na resposta a Eduardo Prado Coelho, Carlos Encarnação queixou-se que o que estava em discussão era o montante dos subsídios e não a política cultural da autarquia. O que tem Carlos Encarnação para dizer agora que já não é o montante dos subsídios mas o seu pagamento que está em causa? Será que para quem foi correcto falar em “amiguismo” é correcto falar em “caloteirismo”? Será que pode continuar a afirmar, como o fez então, que Coimbra, “sem prejuízo das opiniões contrárias”, é “uma lição de responsabilidade”? (…)

Da estrada

Rui Bebiano n'A Terceira Noite e Tiago Barbosa Ribeiro no Kontratempos.

Palavras: o som e o sentido

Altissonante.

Pathos

"Não se percebe como eu gosto até às lágrimas das pessoas caralho?"

António Lobo Antunes [carta 1.12.71]

Gostares nem sempre se vertem em palavras e destas em gestos e destes em vidas. O que é uma grandessíssima merda. A cena do Hitchcok em que o homem dado como morto consegue uma lágrima. Lembram-se? Eu não me recordo se ele se salva. Ineludível, a questão está toda aí.

O Bazar

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar

Chico Buarque

Enganos sublimes

Chegou a este blog alguém que colocou no google os seguintes termos: "amo-te bruno". Ora digam lá se isto não é um mundo de deliciosos equívocos e inusitadas viagens.

Leis Fátuas*

Quanto mais pessoas visitam o blog menos são as que comentam. Ou seja, nos períodos de maior afluência de leitores denoto que os comentários tendem a decrescer, enquanto que nos períodos de menor visitação os comentários sucedem cada post vigorosos. Esta correlação negativa, além de francamente estranha, é algo desconcertante para quem, embora escrevendo num regime de relativo e alheamento, não deixa de ligar às audiências e ao feedback que recebe.

*ver post que se segue

"Leis Fátuas"

Proponho uma rúbrica que prevejo acolhida com inédito gáudio na blogosfera (sim, já ouço o ansioso frémito dos teclados nesses quartos e escritórios aprumados, o google a sugerir hits infindos...). A rúbrica chama-se "leis fátuas". Anotem na agenda. Com ela poderemos formular leis locais, ou seja, leis que se aplicam a blogs específicos: os nossos. Há nisto uma ironia: o estreito espectro de aplicabilidade de uma lei nega a sua ambição totalizante de lei, humilhando-a, ou se preferirem: conferindo-lhe humildade. Mas que se lixe: eu sou um ironista não liberal (Rorty, na desportiva). Bem, vou dar o exemplo no post que se segue. Se a cadeia morrer por aqui fico exposto ao patético de me julgar um tipo influente quando, no fundo, só sou visitado pelas fotografias da Laetitia e pelos curiosos em saber o que se segue ao neoliberalismo. No fundo é uma oportunidade para me porem no meu lugar. Por omissão.

Exorbitar disfunções

Cansado de fracassos deixou-se de amores e efabulações afins. Cansado, enfim, de exorbitar disfunções.

Benfica

Não por nacionalismo, certamente, mas torci pelo Benfica (não gosto de Benitez). O Benfica paulatinamente vai-se libertando do ridículo desportivo de que se fez sinónimo nas últimas décadas. Esse ridículo sedimentou-se pela bipolaridade vivida pelos seus adeptos -- continuamente errando entre euforias mirabolantes e experiências de compleição depressiva -- e por uma perda do princípio de realidade em favor de um passado épico (nesse sentido há profundas afinidades entre a massa adepta benfiquista e o movimento cidadão fundado por Manuel Alegre).

Mas, e por isso escrevo, é curioso perceber como esse património de ridículo, agora negado por um progressivo reajuste entre expectativas e resultados, retém ainda o dom histórico de encher de vergonha os adversários batidos (sei do que falo, graças a CA). Perder com o Benfica, esse mito histórico que tanto fez pelo nosso anedotário -- bem convocado por inteligentes benfiquistas como honrosa forma de coping -- enche de patético qualquer clube: é como perder o óscar para o "Fim de Semana Lusitano". Os ansióliticos em Liverpool nunca serão suficientes. Talvez a reposição massiva dos Monty Phyton, enquanto forma de dialogar com a comicidade do absurdo, fizesse bem àquelas gentes. You'll never walk alone diziam eles. Hoje, como nunca, a lealdade do adepto do Liverpool foi disputada pela necessidade de preservação de dignidade humana. Mal posso aguardar para perceber que título merecerá amanhã a capa d´A Bola (uma convulsão inédita de superlativos é previsível) .

Parabéns Benfica, agora é continuar, para a frente, quem joga com Beto e ganha ao campeão europeu, só pára na Intercontinental. Digo eu.

A vida como ela é


Meg Ryan após umas quantas intervenções estéticas (achada por aqui).

O título irónico que encima este post, recolhido da recente campanha da TMN -- em que se celebra a diversidade do real numa ode oportunista ao mundo não-estilizado -- dirige-se para a ideia de que as intervenções sobre o real, as suas simulações e exagerações, são, também elas, parte do real, pois que despudoramente se entrosam com ele. Um dia a meia idade será assim. Já é.

Doulas Kellner: I prefer to read Baudrillard as a science fiction, which antecipates the future by exaggerating present tendencies and thus provides early warnings about what might happen if present trends continue.

As escolas divergem


Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais
[Virgínia Rodrigues, Mares profundos]





No tapete


Após uma aturada avaliação dos vestidos, rostos e corpos que se passearam no tapete vermelho eis a minha sentença.

Seguida de perto por Charlize Theron, Nicole Kidman, e Jessica Alba (a Salma Hayek insiste em ir pirosa, nada a fazer) a eleita é:
Uma Thurman em Versace.

Uma menção honrosa para a singela beleza de Rachel Weisz.

Crash



Justíssimo.

"Lei 2"


SEGUNDA LEI DO ABRUPTO : A blogosfera é um lugar de fronteira, onde impera a "lei da selva" e o darwinismo social, logo a intensidade da zanga e da irritação na blogosfera é muito superior à da atmosfera.

Desta lei comentarei fundamentalmente a primeira nota.

NOTA 1: A blogosfera não é um local aprazível para os espíritos amáveis.

Teremos que começar por problematizar equações ligadas a traços de carácter. A blogosfera não é um meio que concite pessoas mais ou menos amáveis, demarcando a amabilidade destas daquela que prevalece na sociedade de onde provêm. Nem tão pouco é um meio demasiado hostil para pessoas gentis no trato. O que poderá acontecer, e creio que acontece, é a dominação de um registo de diálogo, troca e expressão de ideias, cujos termos são menos amáveis porque marcados por alguma agressividade discursiva; algo que vale tanto para bloggers como para comentadores. No entanto, mesmo esta agressividade carece ser desconstruída nos seus fundamentos e balizada no seu campo de aparição. A existência de alguma agressividade ou acidez na blogosfera está ligada a uma das faces, porventura mais visíveis, deste meio comunicacional: o debate político e troca de ideias sobre eventos públicos ou realidades sociais.

A blogosfera nasce dessa tradição de embate socio-político, ao tempo marcada pela eminência da invasão do Iraque, e é sem dúvida essa dimensão que mais notoriedade e influência tem quer na "circulação interna" quer no “portfolio" da blogosfera para estranhos ao meio. Esta demarcação é crucial porque existe todo um outro mundo de trocas dentro da blogosfera feito de cumplicidades afectuosas e empatias elogiosas. Isto acontece sobretudo nos blogs que natureza diarística ou intimista, cujo peso normalmente é desconsiderado talvez porque vivem de uma escrita que tem poucos elos com a imprensa tradicional ou com um público que dela migra para a blogosfera. Nos blogs de recorte intimista as visitações dão-se por cumplicidade, fascínio pessoal ou voyeurismo biográfico, motivações que fazem com que os diálogos se encostem a redes de simpatias que configuram uma comunicação de compleição não agressiva próxima de um registo amável (disso expressivo é a simpatia alargada com que Pedro Mexia é “tratado” desde que se deixou de tratar de política e se restringiu aos temas do pessoal que não é político”). Algo de semelhante acontece nos blogs temáticos e de humor que tendem a atrair interessados num assunto particular ou aficionados da parodização humorística da realidade.

Mas, voltando a uma eventual agressividade que marcará o debate político e o esgrimir de ideias, convém acautelar:
1- Essa agressividade é, em importante medida, o reflexo da combatividade que sempre marca a dissensão político-ideológica.

2- A possibilidade de comunicação sem a apresentação da face ou do nome próprio
― não sendo de modo nenhum uma regra que caracterize o comentador ou o blogger que se apresenta com pseudónimo ― abre espaço para formulações discursivas mais violentas e mal intencionadas que não aconteceriam caso determinados enunciadores estivessem identificados com um nome próprio ou uma face pública.

3- A notoriedade costuma ser castigada. No debate blogosférico as figuras mais mediáticas estão normalmente sujeitas a um maior índice de agressividade. Produto óbvio do reconhecimento de uma maior influência na fabricação de opinião. Este mediatismo constitui o blogger como alvo a abater num movimento que facilmente resvala para a pessoalização do debate em detrimento das ideias em causa. Mais facilmente é pessoalmente visado num debate quem é pubicamente conhecido ou reconhecido. A este ponto junta-se um outro factor. A notoriedade é igualmente castigada porque, num registo relativamente horizontal onde a réplica a figuras públicas é possível, se elege frequentemente uma abordagem que, para fugir à reverência, consagra como oposto não reverente a agressividade. Ou seja, a agressividade emerge como uma forma de diálogo com uma pessoa publicamente conhecida sem o risco da reverência. Subscrevo, por isso, o que dizia em tempos Pedro Lomba ao considerar que a agressividade era, muitas vezes, uma forma de timidez que logo se desfazia perante a devolução de atenção. Na verdade, o castigo da notoriedade é bem patente no modo como alguns bloggers que se visibilizaram, passando para os jornais ou publicando um livro a partir do blog, ficam mais vulneráveis a antipatias. Nelas se denota uma nostalgia pela horizontalidade ou um zelo próximo da inveja.

4- A arregimentação é castigada. Os bloggers ligados a partidos ou a “causas positivas” estão mais sujeitos a serem alvo de uma forte acidez. Tal acontece porque nesse casos eles “pagam” por aquelas que são as suas posições pontuais mas também por aquilo que representam num sentido mais estrutural. Razão porque, por exemplo, alguém como Daniel Oliveira é castigado pelos que dissentem das suas opiniões, mas igualmente por aqueles que vilipendiam o Bloco de Esquerda e encontram nele a interposta pessoa para visar o partido. Do mesmo modo, e a título ilustrativo, Pacheco Pereira (óbvio castigado pela notoriedade), apesar de se subtrair à ligação ao PSD com posições críticas ao longo do tempo, acabou por ficar ligado a uma causa de que foi um dos rostos portugueses: a guerra do Iraque. Ou seja, Pacheco Pereira, a que me refiro também por entender que a sua sensibilidade pessoal não é alheia à lei que formulou, além da pessoalização sofrida em resultado de vasta presença mediática, é lido enquanto acólito de causas como a guerra do Iraque. Ligação marcante que segere que agressividade que lhe é dirigida conserve algo da memória dessa representatividade. No mesmo sentido em que a arregimentação é castigada, a “crítica independente”, a que atira em todas as direcções sem nada defender (ou mesmo o tom négligé per se), tende a ser posta a salvo de embates agressivos. Expressão disso mesmo é o modo Vasco Pulido Valente pelo seu elaborado tom cínico, pessimista e quase-nihilista, distante da arregimentação (mesmo quando torceu por Soares), tende a ser recebido sem os índices de agressividade que a sua notoriedade poderia fazer supor. Nesse sentido a influência arregimentada a uma causa ou partido (enquanto vocação proselita que VPV obviamente não tem) tende a variar na mesma razão da agressividade colocada nas réplicas ou nos posts confrontacionais.

Por agora chega.

Efemérides

Muitos parabéns ao Tiago Cavaco, ao Vasco Barreto e à malta do Blasfémias.

Le grand renfermement*













Não sei se sou tão radical como o Luís, mas a questão está lá toda - naquilo que o post obriga a reflectir. O Julgamento da Casa Pia foi, qual ponta de iceberg, uma cintilante "insurreição de histórias subjugadas". Podemos imaginar como deve ser avassaladora, hoje, na realidade dos internatos, a escala de "subjugação de histórias insurectas". Histórias que decerto fariam questionar o ordenamento da população vigente, vinculado como está à experiência do internato .

*Foucault, Michel, 1961, Folie et Déraison: Histoire da la Folie a l’Age Classique, Libairie Plon, Paris.

Freitas

Eu sei que está na moda falar mal de Freitas do Amaral, mas, por recurvo desígnio, dou por mim a simpatizar com a irreverência institucional que o senhor coreografa num misto de vaidade pessoal e convicção política (no bom e no mau sentido a vaidade pessoal é um dos incontornáveis motores da história). Ontem excedeu-se, é certo, mas gosto disso, de excessos, e se é verdade que Freitas não tem grande passado revolucionário - ao contrário do que alegou - o futuro promete.

O ciúme de si mesmo

Lara era tão ciumenta, tão ciumenta que tinha ciúmes das suas próprias mamas.

Bibliofilia: isto sim

Sobre a materialização dos afectos, ocorre-me apenas um critério seguro: não acredito num homem que não me leve a comprar livros.

Causas

Este é um blog de causas. Assim se entende o denodo com que venho vilipendiado Co Adriannse desde que Jorge Costa foi encostado. Não nego, por isso, que me animam óbvios intentos proselitas que possam contribuir para a partida do holandês. Vale a pena ler a crónica de Miguel Sousa Tavares na Bola (sublinhados meus):

"A falta de sorte, os efeitos caprichosos desta nova bola, o talento que Robert tem para cobrar livres e a falta de fé de Baía em corrigir o seu movimento a tempo ditaram uma derrota que foi muito pouco justificada pelo que o Benfica jogou. Este Benfica de anteontem seria tranquilamente digerido sem espinhas por um FC Porto normal, orientado por alguém com ideias normais —tais como ganhar de vez em quando
1- As estatísticas não ajudam Co Adriaanse nem legitimam as suas ideias, decerto geniais. Anote-se: —em dez jogos contra o seu compatriota e rival Ronald Koeman, perdeu oito, empatou dois, ganhou nenhum; — em nove jogos de importância máxima feitos com o FC Porto esta época, perdeu cinco, empatou três, ganhou um; — nos cinco jogos feitos com os outros três clubes que têm dominado o topo deste Campeonato, perdeu dois, empatou três, ganhou nenhum; — nos sete últimos jogos do Campeonato, com o «revolucionário » sistema de quatro avançados (tão elogiado por tantos comentadores que certamente não são do FC Porto), perdeu dois, empatou dois e ganhou três, tendo marcado um total de seis golos — o que não chega sequer a dar média de um por jogo. Quando as pessoas têm ideias próprias e delas não abdicam diz-se que têm personalidade. (...) Esse é o problema de Co Adriaanse. Ele ainda não percebeu que o FC Porto não é o Az Alkmaar ou qualquer outra equipa sem nome, sem orçamento e sem responsabilidades para poder servir de cobaia às experiências revolucionárias do seu treinador. Ainda não percebeu bem que a equipa que lhe caiu do céu vir treinar, ao contrário do seu treinador que nunca conquistou nada, está recheada de títulos e era, há menos de dois anos atrás, campeã da Europa e, há um ano, campeã do Mundo.(...) O efeito mais imediato deste sistema super ofensivo foi uma repetição do já visto nos jogos anteriores: a incapacidade de marcar golos e de criar oportunidades em número suficiente para tal. A inflação de avançados conduziu a que faltassem os espaços e as ideias, ao ponto de dois deles, o Ivanildo e o Adriano, terem passado o jogo todo sem saber para onde ir e o que fazer ao certo. E, enquanto sobravam avançados na frente, atrapalhando-se uns aos outros, faltava um médio a meio-campo para segurar o jogo e os lançar, e a defesa só não soçobrou porque o Nuno Gomes e o Simão não deram uma prá caixa e mais uma vez ficou à vista que todo este sistema de jogo está dependente de um super-Pepe e um super-Paulo Assunção. A eles deve Co Adriaanse não ter saído da Luz vergado a uma derrota ainda maior, quando, num acesso de total descontrolo, resolveu tirar o Quaresma, que era o único a tentar abrir a defesa do Benfica pelos lados, e meter em campo nada menos do que quatro pontas-de-lança — o McCarthy, o Adriano, o Hugo Almeida e o Lisandro. Ao mesmo tempo que, inevitavelmente, mandava entrar também o fantasma do Jorginho, com tudo isso abrindo verdadeiras avenidas para o contra-ataque encarnado. Uma vez mais, como já me tinha ocorrido no jogo do Dragão da primeira volta, dei comigo a pensar que Adriaanse vai para estes jogos sem ter feito nenhuma das três coisas essenciais no trabalho de casa de um treinador: não estuda os adversários, não elabora um plano de jogo, muito menos adaptável em função dos acontecimentos que vão ocorrendo, e não prepara os lances de bola parada — que nas outras equipas, a começar pelo Benfica, contribuem largamente para a percentagem de golos e neste FC Porto raramente resultam em golo. Chegou a ser confrangedor ver a forma como eram cobrados os livres e os cantos a favor do FC Porto. Agora começo a perceber porquê os treinos no Olival são sempre à porta fechada...

2- A desculpa de Co Adriaanse para a derrota vai ser o Vítor Baía—até me admira como é que não o disse logo a seguir ao jogo, como é seu hábito. O fim injustíssimo da carreira de Baía foi cientificamente preparado por Adriaanse. Primeiro, tirando-o da baliza após um lance infeliz na Amadora, sem lhe dar hipótese de se redimir. Depois, deixando-o de fora em todos os jogos fáceis, para o relançar num teste de fogo como o da Luz, onde qualquer deslize dele teria consequências praticamente irreversíveis. É claro que Adriaanse não teve culpa que o Helton se tivesse lesionado logo na pior altura, mas teve responsabilidade directa na forma como abalou os indíces de confiança de Baía, deixando-o psicologicamente impreparado para regressar neste jogo. Depois, a falta de sorte, os efeitos caprichosos desta nova bola, o talento, parece que único, que Robert tem para cobrar livres, e a falta de fé de Baía em corrigir o seu movimento a tempo, fizeram o resto. Ditaram uma derrota, que pode ter sido merecida pelo que o FC Porto não jogou, mas que foi muito pouco justificada pelo que o Benfica jogou. Este Benfica de anteontem seria tranquilamente digerido sem espinhas por um FC Porto normal, orientado por alguém com ideias normais—tais como ganhar de vez em quando (...)"