Para mim são boas notícias

Já faltou mais para coAdriaanse se ir embora.

Os continuadores

Os erros, omissões e marcas de carácter deixam sinais indeléveis nas relações pessoais. Mas também é inegável que esses erros e omissões podem ser parte de um processo de aprendizagem ao encontro de uma sensibilidade menos ego-centrada. No entanto, esse hipotético trilho de maturação encontra insuportáveis ironias. Dois momentos há - quero crer - que configuram essas ironias em matizes particularmente dramáticos.

1- Na morte de alguém, em que, como dizia Borges, vivemos a essa reflexiva dor de que nada nos custaria termos sido um pouco melhores ou mais gnerosos;

2- No fim de uma relação amorosa. Aí pode emergir a suprema a bizarria de uma justiça sentimental à luz da qual a redenção já só é possível com quem se segue. "Ama melhor da próxima vez", deve-se ouvir tantas vezes desses escombros. Conselho inteiramente sábio, concedo. Mas, se isto não é infinitamente cruel para quem foi menos bem amado no pretérito, sinceramente não sei o que é.

Crime de ódio

Os defensores da desnecessidade de juntar o crime homófobo aos crimes de ódio foram ironicamente confrontados pelo recente assassinío de uma transexual nas ruas do Porto. Apesar de poucas mentes poderem alimentar, no recato da sua consciência, quaisquer dúvidas de que o crime terá cumprido um propósito de "limpeza sexual" (para apropriar Mary Douglas), há ainda quem evoque, ao nível do discurso público, a proposta de Bloco do Esquerda como uma masturbação jurídica do politicamente correcto. Nesse sentido o Artigo de Helena Matos no público é, a meu ver, absolutamente deplorável, como lamentável é a demagogia de Pacheco Pereira, assim manifesta, que, para cúmulo, mais uma vez acusa jornalistas de tendências conspirativas (talvez preferisse a omissão pura e simples da "identidade sexual heterodoxa" da vítima). Aparentemente custa reconhecer que o crime de há poucos dias não seja uma oportuna maquinação panfletária da esquerda, mas uma cruel morte, facto trágico e definitivo que pouco se compadece com a cultura do simulacro. Às vezes acontece: a realidade suja ideias limpas, ideias que, afinal, nada mais visavam do que a glorificação devocional do politicamente incorrecto. Agora em voga.

As leis do Abrupto

Ao contrário do que por aí tenho lido, e perdoem esta contra-vaga, acho bastante graça e pertinência ao exercício em que Pacheco Pereira se deu a esboçar umas quantas leis sobre a blogosfera. Longe um melindre sobre a imposição de leis que nos submetem, que por aí perpassa, encontro ali temas que inspiram interessante discussão. Trata-se como é óbvio de uma deriva reflexiva, marcadamente subjectiva, que usa o tom presunçoso de lei para uma realidade demasiado ampla e diversa. No entanto a formulação da lei mais não faz do que se arrogar provocativa e instigante, daí não vem mal ao mundo e talvez troquemos umas ideias sobre o assunto. Conto por isso reflectir sobre algumas das leis. Matarei assim saudades do Metablogue, projecto em que um dia me envolvi pelas graças do JPN e do João Nogueira. Até já.

Curiosas similitudes: believe it or not li este post do João Morgado Fernandes depois de escrever este post.

Chelsea: 1 Barcelona: 2

Como qualquer profeta cuja mensagem sobreleva o martírio, perpetuando-se na história, assim o génio de Mourinho se escarnece da derrota, coreagrafando uma assunção. Não gosto de interferir com os assuntos da igreja, mas a canonização imediata deste homem é, desde há muito, um imperativo moral.

Se eu não fosse um tipo de esquerda atrevia-me a dizer que aqueles senhores que ontem se espraiaram por Stanford Bridge merecem cada cêntimo que ganham. Contenho-me.

Antony and the Johnsons

















Descoberta recente. Há muito que uma voz não me convocava com tamanho desconcerto. Vale a pena a faixa 1 do I'am a bird now sob o flagelo do repeat. Até pode ser que o "mérito" não seja todo meu. Lamechas de todo o mundo: Experimentai.

Brokeback Mountain


O velho hábito das partidas.

"Constrangimentos constitutivos"*

Já eu gostava de ver o treinador do Porto numa montanha a pastorear ovelhas juntamente com os superdragões.

*(Judith Butler after Lacan after Freud)

Rituais estranhos

3- Para encostar a cabeça durante as noites, prefiro almofadas despidas de fronhas. Tal implica uma logística de lavagem mais complexa: não se lava fronha, lava-se a almofada. No entanto, prefiro. Prefiro essa intimidade entabulada sem medeios das fronhas caprichosas.

P.s. Não há aqui qualquer analogia psicanalítica no que a outras mediações da intimidade diz respeito.

O prazer da leitura

"Bruno, é um prazer ler-te".
Confiava uma leitora via mail. Que alguém possa tirar prazer de nos ler é, em si, algo de muito lisonjeiro (e, note-se, nestas matérias nem me importo que finjam elogios) . O problema é o receio de que, à luz de uma perversa justifiça divina investida em economias, essa expressão prazeirosa possa assumir um lugar tragicamente proeminente. Biograficamente falando. Se é que me entendem.

Nuno Guerreiro

Welcome Back.

E agora, Martin?

















Milo Manara


Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred. MLK


Da submissão romântica

"Amo-te até novas instruções"

Ler

No Babugem

Polémicas contemplativas


Já me têm acusado de padecer de um centrismo estético, emocional, libidinal e epistemológico em relação às mamas (esse conceito abstracto carente de concretude). A prova que assim não é, a prova que as certezas se esbroam nos mundos da vida, a prova de que Heraclito já lá não estava, assoma nesta envergonhada confissão: o que eu aprecio na Scarlett Johanssen é a voz. O par de cordas vocais, portanto.

Daqui, pois claro.

Laurence Rees

dvd

livro

Saudades sem sentido

Não é sem ternura que os pós-positivistas no cartão de visita se enleiam na nostalgia daquilo que apenas aparentemente deixaram para trás.

Modas

Não sei porquê, mas aqueles casacos novos que agora há, que só cobrem os ombros e os braços das meninas, de tão bizarramente insólitos, só me sugerem a desnecessiadade de mais roupa. Uma camisola debaixo daquilo é uma revoltante cedência ao decoro.

Rituais Estranhos

2- Durmo sempre no chão desde que há cerca de 5 anos uma cama minha se partiu em pleno sono. Na altura pus o colchão no chão e, desde aí, podendo, é nessas baixas alturas que gosto de me encostar às almofadas.

Crítica de cinema

"É um filme sobre cowboys paneleiros... mas até gostei." (frase ouvida na rua)

Rituais estranhos

Nos próximos dias, em jeito de folhetim, vou respondendo ao repto do faroleiro Pedro Farinha para revelar 5 hábitos estranhos que me acometem os dias. 1,2,3, Começo:

1- Quando o dia me desconsola para além do admissível calço umas sapatilhas e vou correr de madrugada pelas ruas de coimbra*. (Nestas minhas corridas por ruas devolutas visito e crio esses lugares de que o Luís falava: os lugares do choro proibido).

*O termo seria
jogging, mas estas corridas, honra lhes seja feita, pouco devem a esse conceito que define o ritual burguês de fuga à engorda do quotidiano de classe média/alta.

Brincar com o fogo

Anacronismo por anacronismo os Institutos Camões são alvos tão nobres como as embaixadas dinamarquesas.

Cultivado ressentimento

Poucas coisas me enternecem tanto como o indisfarçável ressentimento dos intelectuais em relação às gentes que lêem pouco e que, para cúmulo, têm o descaramento de serem felizes.

Nem quando são precisos

Quando Coadriaanse achar que já chega eu tiro o dia para o ajudar a levar as malas ao aeroporto. Uma sms é o que basta. Já lá tinha ido se os imprestáveis de Lisboa se dignassem a passar para a frente do campeonato. Mas não.

A questão não é o Post Traumatic Football Disorder (para modestamente me citar) que Mourinho sempre deixará por onde quer que passe. A questão é que Coadriaanse está-me a transformar num nostálgico de Octávio Machado (quem me conhece sabe que não há insulto mais grave ou desumano).

Curiosidade

O número de vezes que Gabriel Alves usou a expressão "índice físico".

Vacilâncias

Como nada mais lhe saísse, serenamente recomendou à tristeza do amigo: "tenta não ouvir tanto Bonnie Prince Billy".

Les uns et les autres


Do muito que tenho lido e pensado no meio desta trapalhada civilizacional dou por mim num pobre exercício de condescendência, como referia o Lutz. Mas, de facto, antes essa pobre condescedência precariamente agarrada à consciência histórica da humilhação civilizacional (o Iraque não ajudou) e ao lugar da fé em sociedades não laicas, antes isso, dizia, do que o ódio fácil e o renovado ensejo para a enunciação de superioridade do Ocidente. O "eles" e o "nós" agora empregues a toda a hora são um tristíssimo sinal dos tempos. Desconfio sempre de quem discute estas matérias inflamado de certezas, sem hesitar ou pestanejar.

Colisão (Crash)


Herdamos os equívocos da história como algo que nela é fundador.
Temos:
*As convulsões do racismo numa "cidade global" (Sassia Sasken).
*A versão pós-moderna do Raça e História do Lévi-Strauss.
*O desespero antropológico de Dogville tirado do âmago das gentes e posto nos caminhos do poder e do preconceito.
*O "Albatroz Racista" de Immanuel Wallerstein voando em círculos no desenho de sucessivas sínteses do sistema- mundo.
*O inalianável estigma da personagem de Faulkner.

Como diria Mourinho: Fantástico.

Moçambique: feitiços de amor

Se um rapaz não é bem sucedido no seu Kugangisa, se é desdenhado pelas raparigas e não tem nenhuma probabilidade de ser aceite, um rito especial ajuda-o a encontrar mulher. Os Rhongas não conhecem como tal o filtro do amor, mas têm alguma coisa que o substitui: o galo velho da aldeia é posto em cima da cabeça do rapaz e deixado lá durante algum tempo; logo que o galo o arranha com os esporões pode partir. O desdenhado terá, daí em diante, sorte: será como um galo a quem nunca faltam esposas (Mboaza).
Junod, Henri, 1996, Usos e Costumos dos Bantu, Maputo: Arquivo histórico de Moçambique. (1ª edição 1917)
Se um dia me virem a passear pela baixa com um galo na cabeça saberão da minha desgraça e da minha conversão aos feitiços de amor.

4 da Manhã

A mulheres cuja aparição nos ecrãs nos desassossega. É este o tema, devidamente ilustrado, que JPT me propõe (a mim ao Masson e ao Rui).

No que me toca, esse fascínio com as mulheres distantes, bem patente nos arquivos deste blog, tem, na verdade, tanto de um encantamento vivido como de actualização de uma dívida antiga.

Explico. Foram as mulheres do ecrã me iniciaram na sexualidade e no romance. Foi com a Bruna Lombardi que eu ensaiei a minha primeira paixão. Carré Otis prestou-se os meus enredos masturbatórios. São ligações fundas cuja reciprocidade cumpro com grato atraso. O ecrã representa, portanto, o tempo das impossibilidades vividas e superadas pela imaginação à vez romântica e erótica. É por isso que ainda hoje as figuras dos ecrãs se substanciam também como metáforas de outras distâncias mais reais e realmente vividas. Mas, para poupar o latim, pergunto-vos: já conhecem As Atrizes do Chico Buarque (música recentemente composta para um programa de televisão que circula agora em DVD)? Passem lá os olhos pela letra que vale a pena: está lá tudo.

As Atrizes

Naturalmente ela sorria
Mas não me dava trela
Trocava a roupa na minha frente
E ia bailar sem mais aquela
Escolhia qualquer um
Lançava olhares debaixo do meu nariz
Dançava colada em novos pares
Com um pé atrás
Com um pé a fim
Surgiram outras naturalmente
Sem me olhar a minha cara
Tomavam banho na minha frente
Para sair com outro cara
Porém nunca me importei
Com tais amantes
Os meus olhos infantis
Só cuidavam delas
corpos errantes
Peitos assaz
Bundinhas assim
São tantos filmes
Na minha mente
E natural que toda atriz
Presentemente
Represente muito pra mim
.
Chico Buarque

Manias

Sem hesitar perante o desafio do Luís, aqui vai o inventário súbito das manias confessáveis:

A mania da roupa amarrotada
A mania de lirismos junto à charcutaria
A mania de deixar cair os olhos para os decotes
A mania d’ela
A mania das esplanadas
A mania do piri-piri
A mania de voltar para casa
A mania das almofadas
A mania das camas desfeitas
A mania da desorganização
A mania do autor
A mania dos galões com espuma
A mania dos sabonetes líquidos
A mania das grandezas e utopias
A mania da bola
A mania dos olhos tristes
A mania das despedidas
A mania da cusquice
A mania das ressacas
A mania da solidão
A mania do quarto
A mania dos caracóis

Pelo direito a viver junto

Sobre as duas mulheres que se propuseram a casar na conservatória, Pacheco Pereira diz, em prosélita retórica, que a aspiração ao casamento é conservadora e que os homossexuais deviam mais é ser revolucionários deixando-se destes arcaísmos legais vindos dos sacramentos religiosos. Eu até compreendo o argumento e, na verdade, Foucault diz coisas bastante mais revolucionárias e disruptivas do aquela minudência revolucionária que Pacheco Pereira cita por interposto leitor (para quê fazer da sexualidade uma questão de identidade pública num mundo onde não deveriam existir gays, heteros, homens, mulheres mas só prazeres e corpos - é o que de mais radical Foucault propõe).

Agora, e aqui não vale a pena artifícios retóricos de nenhuma ordem, qualquer pessoa deve ter o direito a casar e o direito a não casar por sua opção. Eu, que não tenho nenhuma especial afeição pelo casamento e até tenho um bom repertório de piadas cínicas, era capaz de fazer greve de fome até chegar ao pão de água se por alguma razão ele me fosse proibido. Aquilo que é conservador ou revolucionário é definido pelo lado em que está a hegemonia, a ordem, a prescrição e a proibição. O mundo de corpos e prazeres está obviamente demasiado longe (a teoria queer sabe-o) e enquanto não houver pessoas dispostas a assumir identidades sexuais e a lutar por elas só se reforça a presunção da heterossexualidade como regra. E a regra da exclusão. E Pacheco Pereira que não tolo nenhum sabe-o muito bem.

Os nomes e os blogs (act.)

Nunca tinha visitado o As Aranhas. Anunciado o outing, fico a agora a saber que quem lá escreve é o Luís Miguel Oliveira. Se o nome nada vos diz, declararei apenas que é o tipo que semanalmente me convence que o Eduardo Pitta está grandemente equivocado (no que aqui diz). Opiniões, claro. act.