Do Derby

"Uma equipa ridícula ganhou a outra equipa ridícula. Não há nada a festejar: apenas lamentar o estado em que Mourinho deixou o futebol nacional."
Se a isto acrescentarmos a equipa ridícula que segue em primeiro...

A justa medida

Críticas válidas à parte (naturalmente que as há), parece-me um pouco absurda esta senda expiatória investida em fazer do José Mário Silva o cristo cuja crucificação cumpre varrer o amiguismo de Portugal.

Dude, Where's My Team?

O carro do treinador do Porto foi vandalizado. Acho péssimo. Uma atitude errada pelas razões certas é uma atitude errada. Ademais os lenços brancos têm um charme irresistível.

Aviso

As pessoas que usam computadores portáteis em sítios públicos deviam evitar usar wallpapers com imagens de cariz íntimo ou pessoal. A outra hipótese, inverosímil, seria eu conter os meus ímpetos de escavação biográfica.

O tinto e o nirvana

Desconfio que é nas ressacas apostas aos cálices que mais me aproximo do estado contemplativo da meditação budista.

Despedidas com estilo


Quando o médico se afastou um momento da cama para limpar uma seringa, Kafka disse-lhe: «Não se vá embora.» O médico disse-lhe: «Não, não vou.» Com voz profunda, Kafka replicou: «Eu vou.» (d'O Mal de Montano)

Dupla falta


"Tens conciência so efeito que tens sobre os homens, não tens?" (Match Point)

Uma mulher demasiado consciente do efeito que tem sobre os homens é frequentemente acusada de ser uma convencida. Na verdade esse epíteto é o que menos perturba a mentes classicamente românticas. O que nessa aspiração se equaciona é em que medida essa sobre-consciência dissolve duas importantes ficções narrativas:
1) a ficção da descoberta
2) a ficção do acaso ou de um encontro raro engendrado pelos deuses.

Ficções amplamente ameaçadas na sua pela mulher que se tem fatal.

A passagem dos corpos

Para os da filosofia sensualista o amor é essa variável que determina que a memória do sexo seja ainda melhor que o próprio.

Fatalismos abraçados

"Beauty's got a hold on me".
(Sand River, Beth Gibbons & Rustin Man)


Profecias

Co Adriaansen vai ter o que merece nesta época, pena é que o Porto também.

Nem mais II*

"O aspecto mais lamentável da noite eleitoral é o resultado de Manuel Alegre. Eu sei que a direita está quase toda radiante com a humilhação de Soares. Mas a humilhação de Soares é preocupante para o candidato e para o seu partido. O resultado de Alegre é preocupante para o país.

Um milhão de votos premiaram o pior dos seis candidatos, o mais impreparado e o menos alicerçado num projecto coerente. Alegre avançou por orgulho ferido e pouco mais. Demonstrou uma aflitiva falta de conhecimento de todas as matérias. Nem sequer sabia ao certo como tinha votado certas leis. E fez uma campanha que reuniu o pior da direita (o tradicionalismo bacoco) e o pior da esquerda (a retórica grandiloquente). Alegre fez uma campanha baseada em falsas legitimidades: a antifascista (serôdia) e a poética (deslocada). E conseguiu, depois de Otelo, o melhor resultado «contra os partidos» em trinta anos de democracia" (Pedro Mexia).

* Eu sei, a sequela do título configura um escusado paradoxo.

Rescaldo

Nunca me senti mais próximo de Louçã do que nesta derrota. Votar vencido custa, bem sei. Mas (e isso sei melhor) só os votos vencidos podem merecer a pena neste tempo da fácil celebração dos vencedores do costume .

Para jmp

O fiel jardineiro

Sempre há quem se levante.


"Parece que o Cavaco Ganhou"

Pensei

Sentei-me na cama e fiquei à espera. (...) Na altura pensei: «Amanhã vou pensar sobre isto». (Manuel António Pina)
É uma das formas de viver na memória, a ela se dobra o incansável esforço de fixar um ou outro momento para uso das lembranças. Esse exerecício tem tanto um padecimento típico dos que se escolarizaram na experiência do abandono como de uma avisada sabedoria aposta à intransigência do tempo. Quantas vezes dei por mim a tentar reter alumbres do real, e quantas vezes dou por mim a lembrá-los grato à generosa felicidade do que me perecedeu nestas carnes, profeticamente cioso da minha desgraça.

Nem mais

Manuel Alegre: "Funcionário-deputado do PS há 30 anos, apoiante sistemático das políticas dos vários primeiros-ministros socialistas, Alegre não tem pensamento político para lá de meia dúzia de banalidades vaidosas. Alegre não existe, e quando tenta existir não se vê mais do que um vazio redondo, marialva, preguiçoso e republicanamente antiquado. E os seus apoiantes regressarão a casa e às suas vidas já amanhã; quando muito farão uma Sedes, com ocasionais jantares-tertúlia no Centro Nacional de Cultura. Triste, muito triste, o efeito Alegre. Compreendo a motivação de muitos dos seus apoiantes e eleitores - a crítica ao sistema partidário, ao próprio PS, a vontade de cidadania - mas apostaram no cavalo errado. Espero que consigam dar a volta e não deitar fora 20% de votos. (Miguel Vale de Almeida)

Vantagem competitiva

O desejo de que os ex-namorados se casem depressa decorre do enunciado no post anterior.

O amor e um frigorífico

É sabido: os homens casados deixam-se engordar escandalosamente (talvez porque a relevância estética do corpo encontre descanso no altar...). Ora, se o casamento é meio caminho para a obesidade talvez seja mais que hora de denunciarmos este sacramento como uma séria ameaça à saúde pública.

Frames do século antepassado

Consideremos uma das imagens mais pungentes da Primeira Guerra Mundial: uma fila de soldados ingleses cegos por gás tóxico - cada um deles poisando a mão no ombro esquerdo do que segue à frente dele - arrastando-se em direcção a um posto de socorros (Susan Sontag, Olhando o sofrimento dos outros).



Bibliofilia

Nem todos os livros podem ser avaliados nos seus méritos pelo tempo extra que nos prendem à sanita.

Psicanálise da palavra

Insigne Tiago (actor desencarnado desse belo paradoxo: deprimido exuberante, fracassado eufórico, obessivamente carente), a culpa dos trabalhos acrescidos a que este blog às vezes obriga não é bem minha, a culpa é dos ecos que me dou a repetir esquecido das origens.

Mais a sério: com a tua perplexidade dei por mim exercitar hipóteses, até que ficou esta: que a minha memória jamais se atreveria a essa palavra rebuscada não fosse um verso ido de Borges:
e a noite que nos livra da maior angústia:
a prolixidade do real.
(A noite em que o velaram do Sul)
Lembras-te António?

Lista de Honra

De facto, Ariel, há coisas que preferia não saber. Ver figurar na lista "Jovens por um Portugal Maior" (sic), o nome de Vítor Baía não é algo que se faça sem angústia. Tal como toda a gente, ao princípio pensei que isto era um apoio político de Vítor Baía a Cavaco Silva, mas logo percebi a minha ingenuidade (ah! reles Bruno!; desculpa Baía, fui fraco e deixei-me levar pelas espuma das evidências).

A história é bem mais complexa. Como sabem Baía tem uma Fundação que tem por objectivo catalisar recursos para apoiar pessoas desfavorecidas. Nesse trabalho, a que Baía se vem dedicando, o confronto com a precariedade por essas áleas afora é uma constante, certamente dolorosa. E acredito que por vezes a escassez de meios de resposta a essas situações seja agonizante. Imagino portanto que Baía guarde uma leve esperança de que o novo Presidente da República use a sua magistratura para um apoio mais cabal a esse trabalho. E, talvez por isso, perante as sondagens e as urgências com que a sua fundação se cruza, tenha recebido o convite de Cavaco Silva para integrar a sua comissão de honra como uma oportunidade. Se foi inocente ou não, não me cabe discutir, importa reter que na sua leitura talvez o apoio a Cavaco Silva tivesse sido um sapo necessário de engolir em prol de valores que no momento quis perceber mais altos. Este foi um gesto que lhe custou muito, mas fê-lo por esperar tempos mais prósperos para a fundação que criou e para as pessoas a que ela se dedica. Não ponho de parte a possibilidade desta versão ter algo (ou tudo) da minha imaginação. No entanto esta é a história que me permite lidar com este evento e não estou disposto a ouvir outras versões, quiçá mais informadas, sob pena de me expôr a uma gravíssima crise ontológica.

Geertz explica que na sua acepção de trabalho a cultura é isto: uma história que nos ajuda a viver com o que acontece, por mais desconcertante que a realidade possa ser. Como sempre digo, os meus heróis por muito que se esforcem nunca me conseguem desiludir o suficiente. Eu esforço-me por eles. É essa imunidade cerzida pelo génio fundador que os define como meus heróis. Em todo o caso não dramatizemos, Cavaco Silva até é visto por muitos como alguém de esquerda e até parece ser uma boa pessoa (este é o auge da minha demagogia e falta de carácter retórico sempre que toca a futebol). Grave , grave, era se o Baía fosse seleccionador de Portugal e confesso admirador de Pinochet. Aí ficava realmente na merda.

O presidente, a pessoa e a surpresa

Miguel Sousa Tavares dizia sábado, na crónica do Expresso, que Francisco Louçã se revelou como a grande surpresa destas presidenciais: pela capacidade demonstrada e por se ter apresentado de longe como o mais bem preparado dos candidatos (falo de cor, o jornal já seguiu para a reciclagem). Dada a histórica simpatia do comentador em relação a Louçã e ao bloco tal opinião é, reconheçamos, um sapo corajosamente engolido. De facto as prestações de Louçã, passe alguma tentação demagógica aqui e ali, foram notáveis. E digo isto da perspectiva de alguém - eu, perceba-se - que estava sinceramente expectante, alojado no distanciamento cínico de um indeciso convicto.

Em boa verdade, após me ter escusado a manifestar apoio à candidatura de Louçã no início desta senda presidencial, o meu voto esteve, pela primeira vez em muito tempo, à mercê dos discursos, agendas e posicionamentos dos candidatos. Hoje, e já sem atalhos de consciência, estou certo que votarei Louçã. Mas - e isto é de se dizer - a minha afeição humana está com Soares. Lamento ver Soares na posição em que se encontra. A verdade é que, bem vistas as coisas, era expectável que Soares fosse prejudicado por ser apoiado pelo partido do governo, factor grandemente agravado pela candidatura de Alegre que, ao perorar a sua independência cidadã, inflaccionou a noção de Soares como o candidato do aparelho partidário (noção bastante injusta se tivermos presente o passado recente dos dois candidatos).

Soares só se devia ter atirado para esta piscina numa candidatura supra-partidária à esquerda, aí a aceitação popular seria certamente outra. Mas, eleito que está o meu candidato, eleita que está a minha afeição pessoal, falta eleger a minha surpresa. Ela é, pelas piores razões, e hoje tenho a consciência da minha pretérita ignorância: Manuel Alegre. De Cavaco Silva numca esperei nem mais nem menos. Avante. De Alegre só direi o seguinte: se uma candidatura não partidária é isto podemos temer que neste país só haja saída pelo fundo. Alegre é a expressão risível da desconcertante prolixidade da esquerda.

Que hago ahora?

Silvio Rodriguez
Donde pongo lo hallado?
en las calles, los libros
la noche, los rostros
en que te he buscado.

¿Dónde pongo lo hallado?
en la tierra, en tu nombre
en la Biblia, en el día
que al fin te he encontrado.

¿Que le digo a la muerte
tantas veces llamada a mi lado
que al cabo
se ha vuelto mi hermana?

¿Que le digo a la gloria vacía
de estar solo
haciendo el triste
haciéndome el lobo?

¿Que le digo a la luna
que creí compañera
de noches y noches
sin ser verdadera?

¿Que hago ahora contigo?
las palomas que van
a dormir a los parques
ya no hablan conmigo.

¿Que hago ahora contigo?
Ahora que eres la luna
los perros, la noche
todos mis amigos.


Corpo adentro

os leitores de cd portáteis, estou em crer, nunca chegaram a tomar as ruas como os seus antecessores: os walkman's. Os walkman's foram um estonteante fenómeno à época, como o o analisa o fascinante livro de que vos dou conta ao lado.

Pelo que vou observando nas minhas itinerâncias citadinas, parece tornar-se óbvio que os leitores de mp3 e os ipod's não tardarão a disseminar-se pelas ruas ao pendurão dos ouvidos dos trauseuntes, assim fazendo mais prolixas e enigmáticas - quiçá alienantes - as soundscapes urbanas.

É curioso pensar como o uso de auscultadores desenha a hipótese de se enfiar música pelo corpo de uma pessoa adentro. (E não, não estou a dialogar com as variações e desdobramentos de um cardápio perverso-inteligente).

Broken Flowers

― Ela foi-se embora.
― Como assim, em viagem?
― Não, estou a dizer que se foi embora.
― Lamento.
― Eu também... Acho eu.
Broken Flowers traz alguma desilusão. Fosse por preguiça, por deliberado minimalismo ou por reverência ao actor, o que é certo é que o filme surge demasiado enconstado às virtudes cénicas desse sorrow que Bill Murray magnificamente incorpora. Opção impossível de censurar, reconheço. Bem ponderadas as coisas, com um actor assim a excelência serve-se fácil.

..

Na economia de caracteres a que os utilizadores de sms se dobram nenhuma excisão que me causou maior assombro e perplexidade do que receber umas reticências com menos um ponto.

Orgulho e preconceito

A problema de Keira Knightley no papel de Elizabeth não jaz necessariamente nas suas duvidosas capacidades interpretativas.


O problema está na memória de Jennifer Ehle, que desconfio insuperável.


Mas como de preconceitos falamos, melhor é tirar as teimas.

Links

E não é que me enviaram por mail um back up actualizado dos meus links reportando ao dia 28 de Dezembro? A minha concepção de anjo começa a assumir substanciação blogosférica. Perodoarás, mas ainda que com anonimato salvaguardado, agradeço, teimoso.

Cátedra da Selva

Resposta do Subcomandante Marcos à oferta de perdão do governo federal mexicano após o início da insurgência armada zapatista em 1994:

¿De qué tenemos que pedir perdón? ¿De qué nos van a perdonar? ¿De no morirnos de hambre? ¿De no callarnos en nuestra miseria? ¿De no haber aceptado humildemente la gigantesca carga histórica de desprecio y abandono? ¿De habernos levantado en armas cuando encontramos todos los otros caminos cerrados? ¿De no habernos atenido al Código Penal de Chiapas, el más absurdo y represivo del que se tenga memoria? ¿De haber demostrado al resto del país y al mundo entero que la dignidad humana vive aún y está en sus habitantes más empobrecidos? ¿De habernos preparado bien y a conciencia antes de iniciar? ¿De haber llevado fusiles al combate, en lugar de arcos y flechas? ¿De haber aprendido a pelear antes de hacerlo? ¿De ser mexicanos todos? ¿De ser mayoritariamente indígenas? ¿De llamar al pueblo mexicano todo a luchar, de todas las formas posibles, por lo que les pertenece? ¿De luchar por libertad, democracia y justicia? ¿De no seguir los patrones de las guerrillas anteriores? ¿De no rendirnos? ¿De no vendernos? ¿De no traicionarnos?

¿Quién tiene que pedir perdón y quién puede otorgarlo? ¿Los que durante años y años se sentaron ante una mesa llena y se saciaron mientras con nosotros se sentaba la muerte, tan cotidiana, tan nuestra que acabamos por dejar de tenerle miedo? ¿Los que nos llenaron las bolsas y el alma de declaraciones y promesas? ¿Los muertos, nuestros muertos, tan mortalmente muertos de muerte "natural," es decir, de sarampión, tos ferina, dengue, cólera, tifoidea, mononucleosis, tétanos, pulmonía, paludismo y otras lindezas gastrointestinales y pulmonares? ¿Nuestros muertos, tan mayoritariamente muertos, tan democráticamente muertos de pena porque nadie hacía nada, porque todos los muertos, nuestros muertos, se iban así nomás, sin que nadie llevara la cuenta, sin que nadie dijera, por fin, el "¡YA BASTA!" que devolviera a esas muertes su sentido, sin que nadie pidiera a las muertos de siempre, nuestros muertos, que regresaran a morir otra vez pero ahora para vivir? ¿Los que nos negaron el derecho y don de nuestras gentes de gobernar y gobernarnos? ¿Los que negaron el respeto a nuestra costumbre, a nuestro color, a nuestra lengua? ¿Los que nos tratan como extranjeros en nuestra propia tierra y nos piden papeles y obediencia a una ley cuya existencia y justeza ignoramos? ¿Los que nos torturaron, apresaron, asesinaron y desaparecieron por el grave "delito" de querer un pedazo de tierra, no un pedazo grande, no un pedazo chico, sólo un pedazo al que se pudiera sacar algo para completar el estómago?

¿Quién tiene que pedir perdón y quién puede otorgarlo?

Para o Carlos Lucio

Nota editorial

Por acidente apaguei os links abaixo do "p". Recuperei a coisa graças a uma cópia do template que guardei de Junho, altura da radical mudança de visual aqui do sítio. Em todo o caso perdi os links que entretanto foram sendo adendados por aquelas regiões do alfabeto. Vou reactualizar as falhas ao longo dos próximos dias, mas, se ainda assim me escapar algum blog vitimado por "azelhice não acidental" alertem ali para o mail, por gentileza.

O cortejo dos fins


Ingrid Bergman, Stromboli (1950)
(...) escarniçar-se contra a sua própria virtude e enamorar-se da sua própria dissolução e cortejar o seu fim. Borges
Sim, nesse bizarro sentido terei algo de irresistivemente sedutor.

Das ruas nascida

No outro dia, sentado na paragem de autocarro - inspecção a quanto obrigas - fiquei com as sobras da conversa de dois tipos que por ali passaram. Sobrou esta frase que é todo um tratado sobre o primado da sexualidade ante a linguagem:
"É fácil falar com os tomates vazios"
Note-se que o transeunte não reduzia a sua análise a uma questão de centilitros, como se a relação dos testículos com as medidas de capacidade fora decisiva. Em causa estava, outrossim, podemos deduzir, o processo de esvaziamento dos testículos: a ejaculação aparece metonimicamente ligada à nobreza do convívio sexual que, adivinhavelmente, lhe escapava. O seu interlocutor, para quem aparentemente o convívio sexual vinha sendo generoso, estaria, portanto, capaz de uma discursividade menos marcada pelas carências da carne. Um luxo de oratória. Mas, como sabemos, há constrangimentos que são criativamente constitutivos da palavra que nasce. Foi o caso.

Ocasos amorosos


Joan Baez e Bob Dylan

It was probably a stupid thing to do, not letting her play, but you can’t be wise and in love at the same time. Bob Dylan, No direction home


P.S. Sobre o doc: a forma com que Bob Dylan se refere à sua obra, estizando a negligência que as músicas não consentem, num poslúdio de desencanto e de "não estou nem aí", numa demarcação política que coloca a música numa torre de marfim, convida a libertar as canções do seu autor para nelas deixar correr a fleuma e o dom inspirador (estivesse ela ou não na origem criadora). A voz de Joan Baez se me permitem. Líbido estético- política? Talvez.

Google

Parabéns Louis Braille


- aos escribas que diariamente o evocam-

neste papel descripto


"D'este viver aqui neste papel descripto": ali se coligem as cartas escritas por Lobo Antunes, entre 1971 e 1973, desde a guerra em Angola, à sua mulher de então, Maria José*.
Após a leitura do livro que agora nos chega, recuperar o trecho, que em baixo transcrevo, das "Conversas com Lobo Antunes - María Luisa Blanco" pode ser um tanto desconcertante:
Separámo-nos muito cedo em 1976, e muito estupidamente. Ela nunca voltou a viver com ninguém pensando que eu ia voltar. E voltei, mas quando já estava doente à beira da morte, só para tratar dela [em 1999, depois de diagnosticado cancro]. Era uma mulher lindíssima, de uma beleza incrível, e não sei porque me separei. É absurdo, mas a época influiu: era a pós-revolução e as pessoas faziam isso.
Fui um estúpido porque me separei, gostando dela, para viver só e deprimido e afectou-me mesmo na escrita, nesse momento não era capaz de escrever. Sim, a Memória de Elefante é a história dessa separação e é um livro em que se adivinha um grande sofrimento. A minha tradutora sueca ironiza dizendo que me separei porque precisava de material para trabalhar.
O "D'este viver..." e a relação que narra sabe melhor sem esta vantagem do tempo. É sempre angustiante saber do ocaso dos amores que nos fizeram vibrar e comover (sim, os nossos também). Devemos, talvez, como sugeria Coleridge, exercitar "the willing suspension of disbelief" e calibrar, por omissão, por voluntária ignorância, o amor à eternidade. Certo que há naquelas cartas uma intencionalidade outra, a visitação de quem carece do pulso quente e não se concebe sem treino de escrita, digo eu, mas, de facto, para retornar ao que aqui me trouxe, lendo aquele tempo nos seus termos, as cartas constituem - não só mas também - um notabilíssmo testemunho de amor em tempos de guerra.

*O mesmo nome que baptizaria a filha mais velha, organizadora do livro, que, menciono por curiosidade, chegou a ser minha professora numa ida licenciatura de Antropologia.

Dos usos lúdicos do corpo

"É desumano, segundo julgo, esse quase dever de passar pelo ginásio no trajecto – feito movimento que se deseja pendular – que vai da mesa para a cama." Inês