A pena de morte

Não era suposto eu comover-me com o destino de Saddam. Comovi, e isso irritou-me. Ele não merecia ficar no negativo honroso desse paradoxo: uma morte trazida enquanto corolário de civilização. A minha perturbação compassiva com o ditador perturbou-me, colocou-me num não lugar ético, tirou-me o chão valorativo, apartou-me das vítimas de Saddam, molestou o asco que me merecem os poderosos sanguinários. Em tudo isto leio uma expressão, tão egocentrada como sinceramente vivida, de que não se serve assim justiça. Numa tal lógica mortal de brincar aos deuses apenas proliferam carrascos, emulando-se num incessante jogo de cópia sem original.



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