Discurso

Robert Young, páginas tantas, demorando-se nos dilemas conceptuais de Michel Foucault, sai-se com esta síntese que chega a justificar dolorosas erecções:
"O discurso é linguagem que já fez história"*
Convertendo a conversa para terrenos inusitados: a linguagem ou a estética do celibatário (não apostólico, involuntário), do abandonado, raramente tem a maturidade/materialidade de um discurso; pelo contrário, é uma poderosa linguagem contra-discursiva. O mais mais conhecido efeito do "pobre de mim que ninguém me quer" é suscitar um estado contrário ao que revela: expressa uma disponibilidade, expressa uma carência, convida à cumplicidade literária, convida a caridade romântica e convida o enlevo maternal com que muitas mulheres desenham como seu aquele que amam (sim, o prestígio do abandonado tem género). Portanto o "pobre de mim", ao contrário do discurso que forja um regime de verdade, alimenta um regime ilusório que oferece o flanco à sua própria expiração. A linguagem capaz de história tem um poder afirmativo e não passa sem a tecnologia de persuasão, historicamente ratificada, de mesmo sinal. Ler o texto intimista (em sinal aberto) sem estes matizes, podemos supor como ilustração, confere uma equivocada transparência: onde se negligencia a existência de linguagem que não fez história -- ainda que conte uma história verídica.

*Ou seja, (falava-se do Orientalismo de Said) o discurso não é uma mera representação que dispense o teste de materialidade/realidade, mas uma representação efectiva que opera com sucesso sobre a realidade, tornando-a dócil, ao mesmo tempo que cria uma malha interpretativa que domestica a exuberância dos termos da sua alteridade .



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