6 meses

Recordo um período. Seis meses, numeremos assim, seis meses, claro, sendo modesto na contagem do apego às dissoluções e rotundo no anelo às datas redondas. Seis meses em que acordei, dia após dia, com um mesmo pensamento. Seis meses, modestamente contados, tudo se passando como se neles acordasse numa só coisa, dilacerando-me. Invariavelmente, uma só coisa, ainda na almofada esperando-me, inventasse o que inventasse para me adormecer. Uma só coisa. Seis meses em que fui aprendendo a vestir o pijama, ou pelo menos a despir as calças de ganga para dormir; seis meses em que fui aprendendo a vestir outra coisa além do pijama, ou pelo menos a trocar a roupa de dormir, seis meses em que fui aprendendo a habitar a mundo d'o que vem, vem', seis meses, enfim, em que fui aprendendo a conceber-me na posteridade. Terei percebido aí a lição do agora ido Geertz. Devo-lhe tantas coisas.

Termos pena de nós próprios pode ser doloso aos mundos da vida, mas a auto-comiseração também se pode revestir de um estranho sentido terapêutico: há nela algo de crucial para toldar o remorso, para mitigar a já patética angústia da culpa. Acordar tanto tempo com uma ideia deve ter algum tipo de efeito, suspeito, nos termos de quem lhe sobrevive. -- Sobreviver não é bem a palavra. Chamar-me sobrevivente é disparatado e ridículo ante as tantas coisas que as gentes sobrevêm com um heroísmo que me é estranho, pela escala dos acontecimentos que se me afiguraram e, quem sabe até, por uma caracterologia pouco dada a bolinas na desdita. -- Mas o efeito de seis meses a acordar com uma coisa fixa perde, creio, para a pesadíssima aprendizagem, que lhe é correlata, de seis meses sem nada fazer em relação a essa coisa. Seis meses a digerir certezas que o balanço do sono parece ignorar, resistindo a pegar no telemóvel. Na persistência post mortem a prova póstuma da entrega; na desistência um entranhado tarde demais, a rendição a uma espécie de incorrigível fracasso constitutivo. O locus desse fracasso constitutivo seria sempre incerto, mas suficiente consistente para evitar a loucura de voltarmos atrás. Pensava eu. Afinal, dois fins são mais securizantes do que um. Mas neles também habita o precedente da reversibilidade e por eles se dizima a ficção sobre o poder do adeus.

Se nem sempre podemos carregar as nossa opções -- seja no querer seja na conformação à queda --, carregaremos, como cruz ou como dádiva, a matriz de dissonância. As passagens iniciáticas nada determinam, mas a tamanhos e tão primevos desamparos não escapará, caso a caso, na sua exuberante violência, uma vaga gramática do amor.



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