Vinho

Avancei para a porta resoluto em acalmar a campaínha. Pelo óculo vejo dois miúdos pelos seus 8 anos que por perceberem os meus passos logo se puseram a trautear “bolinhos e bolinhós…”. Nostálgico das minhas próprias investidas cidade afora, idos tempos em que os meus caracóis, jeito roliço e timidez natural me subsidiavam cromos para o mês, lá me decidi a contribuir com umas moedas. Demorei algum tempo para encontrar a carteira, mas os petizes aguardavam pacientes, já certos do vindouro provento. Lá íamos entabulando conversa enquanto eu passeava pela casa a maldizer o buraco onde se teria enfiado a carteira.
Achada a carteira, entrego as moedas, gorjeta incluída pela espera. Cúmplice, indico um ou outro andar onde deveriam aprumar a voz, está nos livros: as “vizinhas endinheiradas e com coração mole” são um repasto para a malta dos bolinhos e bolinhós. Despeço-me, até porque os tempos já não aconselham saudável cavaqueira com infantes estranhos. Eis quando me pedem um último favor, quase em lamento: “o senhor (sic) podia ficar com esta garrafa de vinho que nos ofereceram e não queremos para nada e custa-nos agora andar a carregar”. Estupefacto, ainda ofereci alguma resistência, mas depois de ver a qualidade do vinho e o ar suplicante dos petizes não pude fazer outra coisa senão aceitar a botelha que jaz aqui ao meu lado no momento em que vos escrevo.
As dádivas desinteressadas nunca o serão completamente. A boa consciência que criam no dador, a suspeita que contribuem para uma cadeia de actos generosos que alimentarão o bem-ser colectivo ou a fé nalguma justiça divina são excelentes argumentos para a mitologia do retorno. No caso de ontem, reconheço, as coisas aconteceram muito rapidamente. Se hoje beber vinho ao jantar brindarei a isso: uma espécie de bodas de Canaã com o vinho de alguma vizinha a cuja porta não tardará o rapaz do gás.



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