Touradas e Pornografia

Porque é que a RTP transmite touradas (sem pudor na escolha de horários) e se abstém de fazer algo similar em relação à pornografia?

A pergunta que aqui avanço pode parecer absurda, eu sei, eu sei, mas às vezes estes dislates permitem ilustrar outros absurdos que nos habituamos a trivializar. Este exercício leva o seu quê de demagogia, mas é mais gritante, parece-me, a demagogia instalada.

Vamos por partes.
1- No programa Voz do Cidadão, passado sábado, em que se debateu a bondade da transmissão de touradas na televisão pública -- um programa que se transformou na mais insólita apologia à tourada que já passada em televisão, se exceptuarmos, claro, o semanal ARTE & EMOÇÃO -- nesse programa, dizia, o Provedor Paquete de Oliveira defendeu o televisionamento de touradas em nome da vasta população portuguesa que as segue e as apoia. Nem valia a pena lembrar o insigne Provedor de sondagens que mostram que 74% dos portugueses são contra as touradas e 82% contra os touros de morte. Demos de barato. Ora, mas não custará supor que exista também uma elevada percentagem de portugueses que segue a pornografia e a apoia, embora não o faça necessariamente na arena pública (expressão preciosa). Por outro lado, se rebuscarmos a ideia que cabe à televisão pública assegurar o comprazimento das diversidades e das minorias, porque raio não contam com as minorias (ou maiorias) sexualmente insatisfeitas (e daí talvez aumentasse dramaticamente a simpatia nos guichets com um mero programa semanal se pornografia).

2- O Provedor alegou da importância identitária das touradas, enumerando, inclusive, cidades em que eles ocupam um lugar privilegiado na fundação cultural. Mas nem todas as identidades se constroem colectivamente e a pornografia, sem necessariamente ser o cimento identitário de qualquer colectividade, ocupa um lugar que seria gravoso negligenciar na vida e na identidade pessoal de muitos portugueses (para o mal e para o bem). Saberá o provedor que há identidades sexuais que, por estarem reprimidas no espaço público, se "realizam" mediante os conteúdos pornográficos que a RTP nega aos portugueses ao mesmo tempo que lhes confere touradas a rodos.

3- Certamente, alegaria o Provedor, que a exibição de pornografia em horários de fácil acesso aos petizes fere a sensibilidade e poderá ter consequências nefastas sobre a formação de toda uma geração. De acordo. Como se explica então que as touradas passem na televisão a qualquer hora sem que isso seja entendido como um espectáculo pelo menos tão chocante como qualquer cena pornográfica de GangBang SadoMaso (audiências do blog a subir)? A menos que acreditemos na tradição portuguesa da tourada como o manto cultural capaz trivializar o sofrimento, há aqui algo de profundamente desequilibrado -- ou perverso, já que estamos numa de. Tal como a pornografia é uma linguagem do exagero em relação ao prazer sexual e à submissão, também a tourada é uma linguagem do exagero em relação ao sofrimento e à coragem. Emulam-se na capacidade de choque e no fascínio que exercem por via do excesso que comportam.

Não simpatizo particularmente com nenhuma destas linguagens do exagero, mas revolve-me que uma passe na televisão às 7 da tarde na RTP e a outra seja velada por apelo a valores mais altos.



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