Ocidente e o "chegar do tempo"

«[S]ó podemos compreender um acontecimento como o fim e culminar de tudo o que antes aconteceu, como um "chegar do tempo". (…)Tal como nas nossas vidas pessoais os piores medos e as melhores esperanças nunca nos preparam para aquilo que realmente acontece ─ porque no momento em que um acontecimento, ainda que previsto, se produz, todas as coisas mudam, e nós nunca poderemos estar preparados para a inesgotável efectividade deste "todas as coisas"» Hannah Arendt
Sinceramente, não creio que haja saída clara para o debate "terá o nazismo representado o estilhaçar da cultura e da história prévia em que surgiu ou, ao contrário, o seu corolário?" Arendt, elege a primeira hipótese: "O nazismo nada deve à tradição ocidental, nem a qualquer das suas correntes. Muito pelo contrário o nazismo significa de facto a derrocada de todas as tradições alemãs ou europeias, das boas como das más".

Discordo "violentamente". É um facto que não podemos apontar a especificidade da semente alemã para com isso eximirmos o restante Ocidente, conforme lembra Laurence Rees: “nada existia de "especificamente exterminatório" ― para usar uma terminologia académica recente ― na sociedade alemã, antes de os nazis chegarem ao poder”.
Mas daí a ver o nazismo ― como vê Arendt ― como mera derrocada do mundo prévio parece-me profundamente ingénuo. A alinhar por essa confortável escatologia não estaríamos a esquecer que as teorias eugenistas ― cintilante produto da lógica iluminista de refundação do mundo ― se encontravam disseminadas nos círculos científicos da Europa e Estados Unidos, como legítimas e boas, até ao mau nome que o Nazismo lhe concedeu? Não estaríamos a esquecer de que modo o anti-semitismo se encontrava impregnado no inconsciente colectivo europeu? Não estaríamos a esquecer de que modo o ar do progresso e do triunfalismo racional inebriaram experimentações como as de Josef Mengele? Não estaríamos a esquecer o quanto as aclamadas conquistas civilizacionais intramuros acompanharam o ferro colonizador mundo afora? Não estaríamos a esquecer que os alemães perpetram um genocídio, em pleno século XX, na Namíbia entre 1904 e 1907, dizimando 80% dos Herero? Não estaríamos a esquecer que os bons da segunda guerra fizeram Hiroshima, Nagazaqui, Dresden? Não nos estaríamos a esquecer que os soldados soviéticos não só libertaram Auschwitz como empreenderem, à medida que avançavam pelo território alemão, sistemáticas violações sexuais sistemáticas sobre mulheres judias (calcula-se que na ordem das centenas de milhar), sobreviventes a anos de humilhação e sofrimento? -- as violações em larga escala seriam impensáveis para os nazis tal era a fobia ao sangue judeu.

Vale por isso voltar à primeira formulação de Arendt para conceber os “acontecimentos-limite” simultaneamente como fim e consumação do que estava antes. Assim se passa na história, assim sucede na vida pessoal. Ao mesmo tempo que constituem inéditas possibilidades “inventivas” de descontinuidade, as rupturas nutrem-se sempre do passado a que se apõem. O triunfalismo sobre os valores do Ocidente e suas conquistas anda por estes dias muito em voga. Quando o facto é que sob os pés do Ocidente estão todas as heranças: o genocídio e a democracia (Sócrates e Jesus, nomes maiores da fonte Grega e judaico-cristã, foram mortos pelas suas sociedades)

Saber escolher a cada momento é crucial e abissalmente diferente de acreditar na inerente bondade das nossas escolhas apenas porque tomadas em democracia e liberdade. Infelizmente, há muito Ocidente que quando provocado recapitula e actualiza na sua "libido civilizacional" um pouco de tudo o que foi sendo feito - na mais cândida desmemória. Aberto o património do Ocidente como um leque, seguindo o ar deste tempo, percebemos sem dificuldade que todas as possibilidades estão vivas e em aberto.



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