Gaja grossa

Sempre me intrigou o adjectivo de "grossa" no modo como é alocado pela estética libidinal masculina. O termo grossa -- e.g. "aquela gaja é grossa que até dói" -- envia-nos, parece-me, para um deslumbre sexual marcado 1) pela generosidade das formas da designada 2) pela desfaçatez rústica do desejo desperto.

Assim sendo, ao contrário do que se poderia supor, "a donzela de grossa designada" não está separada da graciosidade do jeito ou, tampouco, de uma figura esguia (embora a generosidade das formas seja a regra); na verdade, a grossura (cuja estirpe conceptual refinada remete para a ideia de voluptuosidade) tem mais a ver com uma projecção que inflaciona o carnal, adendado-lhe materialidade -- engrossando-o, pois.
A noção de grossa dá corpo e nome social a ensejos que se sabem martricialmente frustrados, tudo num desigual alinhamento entre o muito que se vê (a banda larga contemplativa) e a inapelável estreiteza da biografia.



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