Capciosismos

Não vai passar a música a tentar perceber se "é gajo ou gaja", descontraia e deixe isso para as crónicas do João César.

A frase, só aparentemente prosaica, é de Marguerite Duras, algures no India Song: "alguma dor confunde-se com a música". Por vezes a despeito daquilo que dizem ou daquilo que o autor quis fazer com elas, há músicas que se enleiam com os nossos abismos pessoais, desamparos e saudades instaladas; outras vezes, evocam tudo isso sem pudor, são as dores musicalmente instadas. É aí que os desconsolos se podem confundir com a música e com as "captações de mágoa" por ela providas, adormeço uma vez mais persuadido que a razão é de Borges "as palavras escritas por um rei que desejava o Oriente serviram-me a mim, desterrado na África para a minha nostalgia de Espanha". Se ouço e leio em demasia -- na medida dos sobressaltos de alma, claro está -- no limite, bem me posso dispensar a entender o que leio ou o que ouço. Se à hora da música entendo qualquer esgar de gente onde o outro diz Espanha, serei sempre um daqueles casos em que todos os outros se enganam na letra. Para não falar no excesso de violinos pela casa.



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