Ratzinger

Antes de condenar a natureza instrinsecamente bélica do Islão, o Papa, que nas suas declarações remete, curiosamente, para um período contemporâneo da Inquisição Católica, devia lembrar que, quando se quer usar a violência em nome de Deus há sempre por onde pegar. Ou não conhecerá ele este versículo bíblico no Livro de Mateus, para onde a voz de Jesus foi assim transposta:

"Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada" (Mt, 10:34)

Não excluo, por ser verdade, que a figura de Maomé -- tendo sido um líder político e militar -- mais facilmente se ofereça a uma organização total da vida social e política do que Jesus, que, além de sempre ter vivido na marginalia, pregou a separação entre o de Deus e o de César. O que me parece inqualificável é que se force uma diferença de tipo nos usos bélicos de Deus (a inquisição e as cruzadas bastam enquanto memória) ou na natureza das fontes (o versículo acima é instrutivo o suficiente). As apropriações da religião são uma questão ética, política e humana, nada há, portanto, de intrinsecamente bom neste credo e de mau naqueloutro. Definir uma essência não bélica na mensagem dos profetas é um desafio a que as palavras do Papa se devem dedicar construtivamente ao invés de forjar oportunisticamente um instrumento ideológico para demarcar, à partida, os bons dos maus.



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