Os Baptistas

A propósito do seu novo Blogue, o Tiago Oliveira Cavaco - que precisamente conheci num acampamento religioso - recorda-me os tempos da Igreja Baptista.

Sim Tiago, passei por lá e - isto conta ainda mais - sinto que venho de lá (nota confessional: baptizei-me aos 18 anos). Mas é verdade que me afastei da Igreja Baptista: talvez pelo conservadorismo religioso, talvez pela pouca paciência para o formalismo ritual, talvez pela forte dissenção identitária trazida por outras coisas que fui acolhendo como boas e justas. No entanto, foi lá que alimentei a fé cristã a que nunca reneguei (trago comigo algo de uma versão revista e depurada do peso da tradição eclisiástica), e sigo, embora já apartado do universo dos cultos, com uma insólita sensação de gratidão e dívida. A isso não são alheios alguns méritos (quase todos involuntários) que forjam a paisagem protestante em Portugal:

1. Não existe uma cultura institucional dominante. As igrejas evangélicas em Portugal constituem uma contra-cultura religiosa face ao domínio cultural católico, o que muito favorece a necessidade de elaboração persuasiva (não há o "porque sim"), assim como o espírito crítico e a solidariedade costumeira a um grupo que se configura como uma minoria.
2. Não precisei de me afastar da autoridade das figuras da Igreja. Apenas porque ela nunca existiu. Isto se compararmos com a "mediação forte" que igreja católica exerce na definição dos caminhos para a fé e para a salvação. Na igreja Baptista encontrei uma cultura institucional relativamente humilde que promove a relação pessoal do crente com a mensagem cristã e um fundo conhecimento exploratório do texto bíblico (de que envergonhadamente me orgulho). Nem na minha fase mais revolucionária deixaram de me convidar para púlpito para "entregar uma mensagem" sobre ecumenismo pós-moderno.
3. A ausência de centralismo institucional e a precariedade do "merchandising" Baptista é uma valia que resulta tanto de feliz deliberação (não há hierarquia piramidal) como de feliz omissão. Asssim se entende que os contextos baptistas muito dependam da contingência comunitária de cada igreja particular, que todos valores estejam sujeitos ao crivo premanente da interpretação alargada (interpretação tendencialmente conservadora mas pouco hierárquica), e assim se entende que ser Baptista em Portugal pouco tenha a ver com a vivência americana e com as intimidades com o poder político lá praticadas (isto para mim importa).
4- Nem a igreja baptista se nutre de valores tradicionais portugueses que deploro (Fátima é o melhor exemplo dessa articulação), nem beneficia, como noutros países acontece, do caminho desbravado pela revolução calvinista. Fica ali suspensa à procura de si mesmo como uma contra-cultura titubiante. O que não é necessariamente mau, afinal é que assim mesmo que muitas pessoas buscam (e dizem encontrar) Deus.

Não surpreenderá, pois, que do exílio não praticante (pobre descrição), venha a entabular conversas com o Pranto e Ranger de Dentes.



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