Da coragem

Ainda sobre o Papa, diz o Rui Bebiano, na Terceira Noite:
Poderíamos dizer que foi um impulso, um repente, um instante de pathos determinado pela emoção do reencontro com o lugar do erudito e do professor que fala ex cathedra. Mas não o creio: quem é dado a repentes não chega tão longe entre sotainas e cabeções, não assoma com aquele à-vontade e trajado de branco às janelas do Vaticano. Terá sido então um acto de coragem, uma forma de enfrentar o recuo das democracias perante um lado do Islão que exige cada vez mais, que aspira ao pagamento do tributo e à humilhação do infiel?

(Nota Intercalar de um comentário do Rui Bebiano: "Tentarei contra-argumentar logo que possível. Para já apenas uma nota para que os leitores que não me forem ler se não confundam: a frase citada termina com um ponto de interrogação, funcionando como pergunta retórica. Não corresponde pois «ao que eu penso», como não corresponderá sequer, calculo, «aquilo que pretendeu dizer" o Ratzinger.")

O que sublinho a bold emerge sintomático do que eu considero uma perigosa deriva civilizacional de confrontação totalizante, que se deixa tomar pelo ressentimento, pela vendetta e pela facilidade em confluir o "Islão" com o terrorismo fundamentalista. Rui, que o radicalismo islâmico existe, facto cintilante. Que esse radicalismo se legimitima em leituras belicistas dos textos sagrados e na entronização do martírio, assim suportando o apelo do terrorismo e a morte de inocentes, facto. Que esse radicalismo usa insidiosamente causas emblemáticas como a Palestina e a presença de tropas americanas juntos aos lugares sagrados da Arábia Saudita para cumprir a sua própria agenda tanto teológica como política, facto. Tudo isto nós sabemos, creio, mas também concordaremos que o fundamenalismo não representa o Islão, mas antes uma ideologia extremista cuja base de acolhimento vem -- reconheça-se -- sendo crescente. Caro Rui, perante isto há duas possibilidades.

1- Estabelecer o discurso do nós e eles (só estes termos em gente bem-pensante já me tiram do sério), tendencialmente tomando-os como um todo, assobiando para o potencial de radicalização de coisas como Iraque, Abu Grahib, Guantanamo, Líbano. Esta linha assume como coragem a confontação civilizacional, coragem que implicitamente exaltas no Papa por apelo à sacralização da liberdade per se, valor naturalmente muito caro às sociedes europeias pós-totalitárias (que tão bem tratas no trabalho académico) mas que tem sido prostituído ao ponto de se pode usar a liberdade como bem absoluto, sem prudência nem responsabilidade (Bush está sempre a falar dos Freedom Fighters, e no entanto, é o Bush, a liberdade merece melhor trato). A consequência deste posicionamento é, obviamente, favorecer a transformação da Al qaeda, já não uma organização de fanáticos mas uma ideologia com crescente acolhimento no mundo islâmico, ou seja, comprando a guerra civilizacional, sem mais, empurram-se moderados para o radicalismo e para o conhecido fenómeno antropológico da "exageração de culturas".

2- A segunda forma de acção, aquela que eu reputo de inteligente e previdente, reconhcendo o fundamentalismo islâmico e o terrorismo como um mal injustificável, procurar isolar o radicalismo fundamentalista não só militarmente, como tem sido feito, mas também ideologicamente: por uma atitude de exaltação do Islão moderado, por uma vontade de diálogo (não com os radicais), por uma pressão à retirada de Israel da Palestina (que assim deixaria de ficar como o único capital de injustiça que concita o mundo islâmico, ali posto ao serviço de agendas de toda a ordem). Visa tal atitude retirar base social de apoio às políticas do ressentimento, isolando o fundamentalismo e recuperando autoridade moral para que o Ocidente possa levar algo da bondade dos seus valores (é ridículo achar que os discursos sobre a determinação das mulheres e dos gays possam ter a mesma capacidade influência depois das imagens de moléstia sexual de Abu Grahib).

Para concluir, Rui, aquilo que, ao contrário da inteligência póstuma do próprio Papa, pareces exaltar como um acto de coragem, um discurso apostado em enfrentar o recuo das democracias ante o Islão, eu vejo como uma imprudência do belicismo discursivo que se presta à simetria com o fundamentalismo, ao embate civilizacional e que encosta o Islão moderado ao fundamentalismo, qual profecia que se quer cumprir. Opiniões.



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