Flagelo urbano

A licença de maternidade/paternidade não deveria apenas referir o período justamente concedido aos pais para acompanharem os seus neonatos. A licença, nos termos em que a concebo, seria, também, uma espécie de carta de condução que avaliaria que pais poderiam acompanhar os filhos no espaço público. Obviamente que há pais incompetentes para o serem. Mas isso não me leva a defender a esterilização compulsiva daqueles que não passassem no exame de acesso à licença de paternidade, apenas porque, por piores que sejam os pais ― conquanto não nos refiramos a foros criminais ou cenários de perigosidade para os infantes ―, há sempre um grau de indeterminação que permite a emergência de doces existenciais dos mais improváveis quadros familiares. O contrário também se aplica, afinal o insuperável esmero e sagacidade da minha querida mãe deu nisto que vos fala. Mas, retomando, eugenismos esconjurados, o chumbo no exame de paternidade destina-se tão-só a restringir o uso de espaços público a pais que nos obriguem ao espectáculo da sua má educação em progresso.

Digo isto levemente traumatizado por pais de toda a sorte: conseguem alimentar birras a decibéis grotescos, compensando a chantagem do grito com a benevolência com que olhamos para o terrorismo institucionalizado; expõem os miúdos ao sol da uma da tarde, sem roupa ou protecção solar que se veja; falam com os filhos aos berros para que as delícias da paternidade sejam compulsivamente partilhadas pelos mais incautos, ainda que isso implique acordá-los; espetam tabefes cujo único critério de aplicação é o efeito surpresa; consolam quedas ou acidentes com reprimendas e palmadas como se já não bastasse a criança estar a chorar com o joelho em sangue (deve-se chamar a isto a pedagogia sobre ferro quente), ficam-se a ler o jornal sem ligar peva aos miúdos julgando, quiçá, que assim os preparam para a contemplação silenciosa do vazio no caso de se virem mais tarde a converter ao budismo, etc. etc.

Eu que tenho o maior anelo por infantes (dispensa-se a malícia), que me comovi a ver o meu irmão mais novo, 11 anos, crescer passo-a-passo com a eficácia da trivela do Drulovic, estou profundamente desgostado com o espectáculo público da maternidade/paternidade. Está na altura de tomarmos medidas para protegermos as crianças da má fama que lhes dão pais incompetentes e de protegermos as ruas deste flagelo que é o espectáculo da má educação (na perspectiva do programador). Ressalve-se um amigo meu e um casal amoroso que vi para os lados da Zambujeira.



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