Engates

Poucas observações indiscretas me dão mais gozo do que as performances e deambulações que se percebe remeterem para um engate em curso. Mas, por muito cusco que seja, e por muito que me atenha a saber como a coisa acaba, não posso deixar de me sentir defraudado quando, na mesa ao lado, me apercebo de uma história, ainda há pouco principiada, que logo se precipita para o seu termo, com o simbólico beijo na boca. Não é conservadorismo, acreditem-me, tampouco despeito pelos urgências desta vida. É um problema da ordem do narrativo. Os beijos urgentes e rompantes são belíssimos. Creio. Mas quando se entabula um engate com aparente respeito pelas primícias da sedução vagarosa, um beijo daqueles é um imperdoável atalho narrativo, uma falha no enredo. Ainda pensei em explicar isso ao casal acabado de formar a dois metros de mim. Mas, perante o jogo de línguas em pleno alvoroço os meus pruridos pouco poderiam. Abandonei-os à suas sortes.



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