Desacordo

Teço aqui alguns comentários ao texto do Tiago Barbosa Ribeiro sobre "o anti-semitismo depois do anti-semitismo", de cujo cerne discordo:

O cuidado com definições genealógicas/rácicas leva a que - como bem lembrava o João Morgado Fernandes - Israel seja o único país que fazemos preceder da palavra Estado. Serve isto para dizer que quando aqui me referir a Israel estarei a falar do Estado de Israel.

1- A rejeição às políticas de Israel tem forjado um "Estado que se transforma assim num sistema de representações muito para além da geografia de um país". Diz o Tiago. Quer com isso frisar o modo como a representação cultural sobre Israel se funda mais em imaginários e apreensões políticas do que na "geografia do país". (Usa-se aqui a geografia para exprimir uma "densidade de real", aquilo cujo conhecimento opõe à representação. No entanto, o Tiago não poderia ter escolhido uma categoria mais problemática, a geografia e as fronteiras estão ao centro das lutas pelo real no que à definição de Israel diz respeito, um país que nos últimos 40 anos se tem sobreposto a outras geografias).

Quanto à existência de uma estrutura representacional sobre Israel, concordo, bem sei que assim é. Mas isto nada concorre para a noção excepcionalidade representacional ao encontro do Anti-semitismo. Não há outra forma de conhecer um Estado (ou qualquer outra coisa) senão por "estruturas representacionais". Tal como a estrutura representacional dos Estados Unidos acerca do seu belicismo fomenta o anti-americanismo, e a estrutura representacional do Brasil acerca das bundas fomenta o turismo, assim a estrutura representacional de Israel sobre um Estado dado a esmagar os seus inimigos funda o anti-israelismo. Os próprios Estados em que habitamos são conhecidos, como tudo, por via de estruturas de representacionais. A questão não é a estrutra representacional versus o real (eu da beira baixa tenho uma vago imaginário representacional que recobre o parco conhecimento, e vivo em Portugal), a questão é saber se os fundamentos de determinada estrutura representacional são equívicos, promovendo representações adulteradores e violentadoras, ou se, por outro lado, estão historicamente alicerçadas. Creio que o anti-israelismo está alicerçado na determinação político-militar israelita face aos seus inimigos e não leio nisto esquívoco (opiniões).

2- É pouco sério usar-se anti-semitismo (anti-judaico) como simétrico de islamofobia. As palavras não são só palavras, ou pedras, e quando chamamos alguém anti-semita estamos a colocá-lo na mesma senda histórica dos apoiantes da inquisição e do holocausto. Não digo que não haja anti-semitas e bem sei que a Europa está pejada deles, mas exige-se a seriedade de tentar o peso histórico das palavras, que assim serão guardadas para uso exclusivo de quem as merece. Algo que obviamente não contece neste tipo de formulação que reputo insidiosa:
"A novidade epistemológica está num anti-semitismo que não decorre necessariamente dos factores clásssicos de ódio aos judeus"; "enquanto não aceitarmos com clareza que existe um anti-semitismo anti-judaico que se agudizou à esquerda desde a queda do Muro de Berlim".
Islamofobia é um arremesso que não tem o mesmo peso, não foram exterminadas 6 milhões de pessoas em nome desse sentimento, seis milhões, acrescente-se, bem presentes na nossa memória colectiva. Por isso o "novo anti-semitismo" pode bem ser um conceito leviano se não for capaz de justificar as continuidades históricas com o anti-semitismo. A convergência pós-guerra do antagonismo político a Israel ao antagonismo informado pelo anti-semitismo não chega para um nome comum. Essa tentativa fracassa em captar as origens distintas dos valores em causa. Há, portanto, o forte perigo de se usar a tentativa conceptual de "novo semitismo" para cobrir outras coisas que são estranhas ao anti-semitismo. Isto acontecerá, por exemplo, se nos permitirmos à leveza histórica de usar anti-semita como simétrico de islamófobo.

Creio que, depois de alguma infantilidade conceptual, o debate sobre a guerra libertou-se das acusações de anti-semitismo. Para ser sincero, a ideia de "novo anti-semitismo" parece-me ser uma forma elaborada de se usar o capital simbólico do velho anti-semitismo para comprometer moralmente quem, ainda que ideológico-visceralmente, vilipendia aquilo em que o Estado de Israel vem fazendo de si e dos outros.



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