As lealdades em debate

Com a conhecida erudição, o Luís Carmelo acicata-me a dizer algo sobre a intensidade histórica e sobre as "derivas rizomáticas" da identidade a propósito deste conflito. Tocando o mesmo ponto, a Zazie oferece-me nos comentários uma elaborada questão onde, sinteticamente, me pede uma leitura ao que ela vai pressentido como sendo uma passagem de pessoas de esquerda, cuja sensibilidade mais viva está tradicionalmente com a causa palestiniana, para a defesa da posição de Israel no presente conflito.

Principiando nas hipóteses da Zazie, devo referir que não tenho essa percepção, pese embora algumas situações em que tal pareça ser de facto assim. O que este conflito está a mostrar é que, talvez felizmente, os posicionamentos em relação ao Médio-oriente nunca calcaram com mínima precisão a linha divisória que noutras matérias separam esquerda de direita (o Iraque foi um indicador bem mais fiel das adesões político-ideológicas). Este relativo desencontro -- que ao contrário também nos permite ler opiniões vindas da direita (e da esquerda moderada, como Vital Moreira) que são radicalmente críticas do Estado Israelita -- deve a várias questões, entre as quais o pressentimento público que isto começou com provocações do Hamas e do Hezbollah. Mas há uma questão estrutural que me parece mais crucial nesse baralhar entre esquerda e direita: o estatuto de vítima ou de parte vulnerável, ameaçada ao desaparecimento, na contenda da Palestina.

Quem lê o conflito por apelo a uma historicidade mais longa que remete para a perseguição dos judeus ao longo da história, para a memória da inquisição, para o espectro do holocausto, tende a ver na hostilidade islâmica como uma recapitulação desse doloroso martírio judaico de direito à existência. Nessa linha, as guerras em 1948 e em 1967, assim como o presente não reconhecimento de Israel por alguns Estados e movimentos, apenas reforça esse sentimento de ameaça e a noção de que a existência de Israel é uma senda pela existência de um enclave não-islâmico, uma luta pelo direito a existir que não pode ser encetada sem determinação bélica. É nesta linha interpretativa, ligada à longa história, que encontramos o fino espectro de acusadores de anti-semitismo a quem se opõe às acções do Estado de Israel (arremesso leviano na esmagadora maioria dos casos).

Uma outra sensibilidade, mais ligada à curta história (e daí a pertinência da questão da intensidade histórica evocada pelo Luís Carmelo) entende que a partir de 1967 se assistiu a uma cristalização da superioridade israelita ante os seus contendores fronteiriços. Uma superioridade preservada de modo arrogante pela manutenção (e expansão) da ocupação, pela contínua construção de colonatos, pelo desrespeito pelas resoluções da ONU e dos acordos de paz de Oslo. Nessa perspectiva o sistemático castigo à palestina pelos actos terroristas dá-se dentro de um ciclo vicioso que se alimenta de um desvio do olhar em relação às condições estruturais ― a ocupação e o modo humilhante como vivem as populações palestinianas ― que continuariam a alimentar o voluntarismo dos extremistas e, mais grave, o apoio popular a esse mesmo extremismo. Não obstante o facto de estar num contexto geopolítico hostil, segundo esta perspectiva, Israel, dado o seu poderio militar, dado o apoio americano e dado o modo prepotente como tem usado essa superioridade, surge como um opressor que cedo esqueceu a sua própria história de perseguido.

Na verdade, uma das questões mais instigantes que nesta leitura frequentemente se coloca, é esta: como é possível que Israel, depois de ter passado pelo que passou, seja capaz de sujeitar as populações palestinianas a tal humilhação. A questão explica-se, por um lado, com a ferocidade defensiva, que começou por ser essencial à própria existência do Estado Israelita, e se reconverteu em ferocidade preventiva/opressiva. E, por outro, com um facto do inconsciente colectivo judaico, frequentemente negligenciado. Após o Holocausto quando todo o mundo apontava o dedo à ignomínia alemã forjou-se uma outra culpabilização menos conhecida. Muitos judeus acusavam as próprias vítimas do holocausto ― e não pode haver acusação mais vil e injusta ― de terem caminhado para as câmaras de gás como cordeiros para o matadouro, sem resistência. Esse estranho sentimento de culpa colectiva da própria vítima forjou uma discursividade do género “jamais poderemos dar um palmo possibilidade aos nossos inimigos para nos submeterem”. Ora, parece-me que um tal discurso, ontologicamente incorporado, tolda um pouco a ferocidade e a intransigência com que os inimigos, já estilhaçados, são tratados. Portanto, ainda nessa linha, a memória do Holocausto está presente nas orientações do Estado de Israel como um ruidoso “nunca mais” que dificilmente permite ouvir quem grita sob os seus próprios pés.

Isto para dizer que a sensibilidade ora para a longa ora para a curta história (ou mesmo a leitura que se faz da curta história) não obedece com precisão a alinhamentos ideológicos, traficando com a importância de sensibilidades pessoais e religiosas para uma tomada de posição.

No entanto, e para ir de encontro do percepção da Zazie, há de facto um elemento novo que vem condicionando a opinião sobre este conflito. A noção de uma “ameaça islâmica” chegou também à esquerda europeia fortemente com o 11 de Setembro e com os ataques a Madrid e Londres (estes últimos sentidos mais de perto e sem a interferência do atenuadora anti-americanismo). Como alguém dizia num comentário recente, avisando-me para os mísseis iranianos às nossas portas, essa noção de ameaça islâmica faz com que se cumpra a profecia de Huntington: todos os conflitos envolvendo países islâmicos, não obstante causas e processualidades, tendem a conduzir a uma arregimentação civilizacional. Ora, essa arregimentação civilizacinal, temerosa do Islão, poderá estar atenuar, nalgumas pessoas, a lealdade com a causa palestiniana, assim levando às tais passagens na esquerda para posições mais empáticas com Israel.

Um outro factor, ainda, perturbou essa vaga confluência de lealdades à esquerda e à direita: os Cartoons. A questão é que muita cultura da esquerda europeia, formada na resistência contra os totalitarismos de direita (embora alguma dessa esquerda saudasse o totalitarismo estalinista) é particularmente afecta às liberdades políticas e civis que ajudou a conquistar. E esse simples factor genealógico, para minha surpresa, nalguns casos, confesso, foi suficiente para que o exercício de compreensão do outro e da sua cultura a partir de relações históricas de poder, mais cara à esquerda, logo cedesse à afirmação da liberdade de expressão enquanto bem absoluto e da herança ocidental como incontestável património para o mundo. Aqui sim, mais que no presente conflito, onde se cruzam mormente sensibilidades que já lá estavam, suspeito, percebi óbvias mudanças de perspectiva em função do que então passou a estar em jogo.



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