Mortes mal intencionadas

Confrontado com a notícia de 3 prisioneiros que se enforcaram nas suas celas, com roupas e lençóis, o director do campo de Guantanamo reage do seguinte modo:
"Eu acredito que isto não foi um acto de despero, mas um acto de guerra encetado contra nós"
Ao procurarmos alguma lógica nestas palavras percebemos que, ao contrário dos bombistas suicidas, cujo objectivo é juntar mortes à suas, a morte destes prisoneiros cumpre-se por si só como um acto de guerra. Assim sendo, na perspectiva do director, estas mortes aparecem como um significante cujo sentido é denúncia da existência de Guantanamo. Seriam mortes sábias, politica e vingativamente orquestradas, portanto. Achei tão estúpidas as palavras do director que só me apeteceu descartá-las com nojo. Mas, tal como defendo noutro tipo de exercício interpretativo, cabe compreender mesmo aquilo visceralmente nos causa repúdio. Afinal a reação do director é preciosa enquanto cintilante declaração da bizarria instalada na administração americana: bizarria apenas trivializada pelo exercício do poder. Guantanamo, não discordamos, creio, é símbolo de uma deriva que imita algo da espúria arbitrariedade do terrorismo.
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