A medida da dor

"Não perdi apenas a vontade de jogar, perdi a vontade de viver"

(Martins Demichelis após ter conhecimento da convocatória argentina em que José Pakerman o deixou de fora do mundial)

Há nesta frase uma revolta que nada tem a ver com uma convocatória ou sequer com o futebol. Alguns acharão que é excessiva -- com propriedade, admitamos. Muitos jogadores colocados perante desdita semelhante afirmaram compreender as opções dos técnicos, na normalidade que o profissionalismo ensina. Não podemos senão duvidar da verosimilhança humana desse poder de encaixe - as lágrimas guardadas para casa? Até acredito que seja uma forma heróica de viver a angústia, e também acredito que a sobriedade de lembrar a lapalissada que não podem ir todos seja a atitude mais terapêutica e humilde. Quero que se lixe, neste quinto do seis de dois mil e seis Martin Demichelis é o meu herói. Para vidas em que, mal ou bem, o mundial se assume como a medida de todas as coisas, dá gosto ler esta crua honestidade ensaidada à beira do abismo. Há nela uma aceitação da escala total da perda e um tocante despudor no consentir de que, às vezes, a vontade de morte nos vem por aquilo que afinal é tão pouco, nas sábias escalas dos outros.



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