Amor à camisola


Os meneios do linguajar futebolístico irritam ao absurdo. A actividade discursiva em torno da bola é tão ritualizada e incessante que a exaustão das palavras não tem como não. Ironicamente é uma dessas expressões gastas que me instiga a fugir ao nacionalismo politicamente correcto que a todos acomete por altura de europeus e mundiais. Falo de "amor à camisola". Entendo o amor à camisola por oposição ao amor à bandeira. A camisola ama-se na relação com as suas incorporações, na relação entre símbololo e corpo, gentes e história, homens e memória. É esse diálogo que me merece o fanatismo: a aprumada convição de que de tempos em tempos surgem espíritos que animam e actualizam a crença. O amor a um clube ou a uma selecção não pode ser constante, dá-se, ao invés, por ciclos de entranhamento e estranhamento (a que não é alheia a angústia da espera). As bandeiras abastecem-se de vento, as camisolas nutrem-se de gente. Enquanto uns seguem as bandeiras por lealdade com o vento que passa eu dou-me a desfrute de procurar nas camisolas o amor difícil, devido a quem as veste. Não podemos adorar abstracções sob perigo de enjeitarmos os méritos da realidade. Enquanto a camisola de Portugal me oferece um estranhamento sem nome, despoticamente vestida por sujeitos como Ricardo a mando de outros como Scolari, há outras cores em que podemos buscar encarnações de espíritos que animaram campos, sugeriram profecias e partiram. Nisto, como noutras coisas, nada é para sempre. Aceitar a perda e compassar a espera distingue o amor da carência. Esperar e procurar. Amem a bandeira de sempre que eu sei onde vou aguardar a descida do divino. Neste mundial vou experimentar o amor na camisola que um dia foi vestida por Diego Armando. Se fracassar será por tentada devoção. Talvez volte a Portugal um dia. As epifanias são assim: vagas e incertas. Resta-nos, quais vedores, pegar no triste ramo e caminhar por esses vales afora.



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