Admiradores

Aparantemente reflectindo sobre a suas próprias movimentações num encontro de bloggers lá para os lados da capital (deduzo, especulativo), define-se a Ana Cláudia Vicente: "Admira na proporção inversa à que enceta conversa"

Aproveito o mote para derivar.
Preservamo-nos de quem admiramos talvez para nos protegermos da figura de adolescentes dados a idolatrias. Queremos ser levados a sério e a isso convém o recato, a negligência ou mesmo a frieza. Ademais, se aqueloutro que admiramos tem populaça que baste para lhe massajar o ego, é natural que nos dispensemos à vulgaridade no mesmo movimento em que salvamos a pessoa de um perigoso "um excesso de si". Pode ainda acontecer que a grandeza intelectual reconhecida ao admirado crie um efeito de abismo dissuasor de qualquer interacção.

A solidão de que falava Michel Foucault, aludindo ao epílogo das suas conferências, deve certamente ao concurso destas razões (tão seguros que nós estamos...). Mas há uma outra possibilidade, porventura mais existencial: admiramos tanto uma pessoa que a preservamos a uma distância caultelar, a distância que esconjura o espectro da desilusão.
A atribuirmos validade a essa hipótese, no fundo evitamos a prova de mundanidade, aquela que molesta ideários com maior frequência que consente cumplicidades. Talvez seja isto o platonismo do idólatra.



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