"Lei 2"


SEGUNDA LEI DO ABRUPTO : A blogosfera é um lugar de fronteira, onde impera a "lei da selva" e o darwinismo social, logo a intensidade da zanga e da irritação na blogosfera é muito superior à da atmosfera.

Desta lei comentarei fundamentalmente a primeira nota.

NOTA 1: A blogosfera não é um local aprazível para os espíritos amáveis.

Teremos que começar por problematizar equações ligadas a traços de carácter. A blogosfera não é um meio que concite pessoas mais ou menos amáveis, demarcando a amabilidade destas daquela que prevalece na sociedade de onde provêm. Nem tão pouco é um meio demasiado hostil para pessoas gentis no trato. O que poderá acontecer, e creio que acontece, é a dominação de um registo de diálogo, troca e expressão de ideias, cujos termos são menos amáveis porque marcados por alguma agressividade discursiva; algo que vale tanto para bloggers como para comentadores. No entanto, mesmo esta agressividade carece ser desconstruída nos seus fundamentos e balizada no seu campo de aparição. A existência de alguma agressividade ou acidez na blogosfera está ligada a uma das faces, porventura mais visíveis, deste meio comunicacional: o debate político e troca de ideias sobre eventos públicos ou realidades sociais.

A blogosfera nasce dessa tradição de embate socio-político, ao tempo marcada pela eminência da invasão do Iraque, e é sem dúvida essa dimensão que mais notoriedade e influência tem quer na "circulação interna" quer no “portfolio" da blogosfera para estranhos ao meio. Esta demarcação é crucial porque existe todo um outro mundo de trocas dentro da blogosfera feito de cumplicidades afectuosas e empatias elogiosas. Isto acontece sobretudo nos blogs que natureza diarística ou intimista, cujo peso normalmente é desconsiderado talvez porque vivem de uma escrita que tem poucos elos com a imprensa tradicional ou com um público que dela migra para a blogosfera. Nos blogs de recorte intimista as visitações dão-se por cumplicidade, fascínio pessoal ou voyeurismo biográfico, motivações que fazem com que os diálogos se encostem a redes de simpatias que configuram uma comunicação de compleição não agressiva próxima de um registo amável (disso expressivo é a simpatia alargada com que Pedro Mexia é “tratado” desde que se deixou de tratar de política e se restringiu aos temas do pessoal que não é político”). Algo de semelhante acontece nos blogs temáticos e de humor que tendem a atrair interessados num assunto particular ou aficionados da parodização humorística da realidade.

Mas, voltando a uma eventual agressividade que marcará o debate político e o esgrimir de ideias, convém acautelar:
1- Essa agressividade é, em importante medida, o reflexo da combatividade que sempre marca a dissensão político-ideológica.

2- A possibilidade de comunicação sem a apresentação da face ou do nome próprio
― não sendo de modo nenhum uma regra que caracterize o comentador ou o blogger que se apresenta com pseudónimo ― abre espaço para formulações discursivas mais violentas e mal intencionadas que não aconteceriam caso determinados enunciadores estivessem identificados com um nome próprio ou uma face pública.

3- A notoriedade costuma ser castigada. No debate blogosférico as figuras mais mediáticas estão normalmente sujeitas a um maior índice de agressividade. Produto óbvio do reconhecimento de uma maior influência na fabricação de opinião. Este mediatismo constitui o blogger como alvo a abater num movimento que facilmente resvala para a pessoalização do debate em detrimento das ideias em causa. Mais facilmente é pessoalmente visado num debate quem é pubicamente conhecido ou reconhecido. A este ponto junta-se um outro factor. A notoriedade é igualmente castigada porque, num registo relativamente horizontal onde a réplica a figuras públicas é possível, se elege frequentemente uma abordagem que, para fugir à reverência, consagra como oposto não reverente a agressividade. Ou seja, a agressividade emerge como uma forma de diálogo com uma pessoa publicamente conhecida sem o risco da reverência. Subscrevo, por isso, o que dizia em tempos Pedro Lomba ao considerar que a agressividade era, muitas vezes, uma forma de timidez que logo se desfazia perante a devolução de atenção. Na verdade, o castigo da notoriedade é bem patente no modo como alguns bloggers que se visibilizaram, passando para os jornais ou publicando um livro a partir do blog, ficam mais vulneráveis a antipatias. Nelas se denota uma nostalgia pela horizontalidade ou um zelo próximo da inveja.

4- A arregimentação é castigada. Os bloggers ligados a partidos ou a “causas positivas” estão mais sujeitos a serem alvo de uma forte acidez. Tal acontece porque nesse casos eles “pagam” por aquelas que são as suas posições pontuais mas também por aquilo que representam num sentido mais estrutural. Razão porque, por exemplo, alguém como Daniel Oliveira é castigado pelos que dissentem das suas opiniões, mas igualmente por aqueles que vilipendiam o Bloco de Esquerda e encontram nele a interposta pessoa para visar o partido. Do mesmo modo, e a título ilustrativo, Pacheco Pereira (óbvio castigado pela notoriedade), apesar de se subtrair à ligação ao PSD com posições críticas ao longo do tempo, acabou por ficar ligado a uma causa de que foi um dos rostos portugueses: a guerra do Iraque. Ou seja, Pacheco Pereira, a que me refiro também por entender que a sua sensibilidade pessoal não é alheia à lei que formulou, além da pessoalização sofrida em resultado de vasta presença mediática, é lido enquanto acólito de causas como a guerra do Iraque. Ligação marcante que segere que agressividade que lhe é dirigida conserve algo da memória dessa representatividade. No mesmo sentido em que a arregimentação é castigada, a “crítica independente”, a que atira em todas as direcções sem nada defender (ou mesmo o tom négligé per se), tende a ser posta a salvo de embates agressivos. Expressão disso mesmo é o modo Vasco Pulido Valente pelo seu elaborado tom cínico, pessimista e quase-nihilista, distante da arregimentação (mesmo quando torceu por Soares), tende a ser recebido sem os índices de agressividade que a sua notoriedade poderia fazer supor. Nesse sentido a influência arregimentada a uma causa ou partido (enquanto vocação proselita que VPV obviamente não tem) tende a variar na mesma razão da agressividade colocada nas réplicas ou nos posts confrontacionais.

Por agora chega.



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