"Apologia do fracasso"

Escreve o Daedalus: Há, no entanto, um elemento característico do sportinguista médio, o cultivo sublime da estética do fracasso, que verdadeiramente norteia a identidade do melhor clube do mundo, construída sobre pesadelos e ruínas num esforço de superação que acaba quase invariavelmente no pó dos caminhos. Ganhar, no Sporting, é sempre mais difícil. E isso torna tudo mais belo.

Barely Legal


Ao ler este belo texto do Francisco fiquei meditativo, dei por mim seduzido pela elegante retórica, cheguei a pensar se este enleio com a estética do fracasso não devia ter feito de mim um digno sportinguista. Por momentos, e isto confesso envergonhado, imaginei-me a chorar de verde e branco em sublime corência. Nestas tentações seguia até que os meus matutares chocaram com uma antiga persuasão: a estética do fracasso é um luxo só possível a quem não vive nas proximidades do abismo. Assim investido logo me consagrei a um curioso artifício psicanalítico: acredito que jaz no adepto Portista a sábia convicção de que para fracassos bastamos nós. É na exaltação fugaz das vitórias futebolísticas que encontramos uma coreagrafia verosímil da realização pessoal. É a ver a bola que intentamos alcançar as glórias amargamente sonegadas nos mundos da vida. No fundo o portismo liga-se com uma identidade mais temerosa do que temerária: por temermos demais a queda biográfica recusamo-nos a dançar com os seus poetas, fugimos, enfim, ao perigo de nos confundirmos irremediavelmente com as derrotas. Todos estes pensamentos me seguiam, convencendo-me. Alentando-me. A memória sublime ocorreu então depois, quando me lembrei da frase de um amigo meu.

Tínhamos acabado de ver a eliminação do Porto da Taça em Guimarães. Deixámos para trás o ecrã gigante, as mesas do café, e seguíamos pleno Outono pela rua do Brasil, tristes, devolvidos por uma seca derrota às nossas vidinhas. Eram os tempos de Fernandez e o deserto pós-Mourinho desenhava-se já. Talvez ciente de tudo isso o meu amigo antologizou. Foram as únicas palavras que se ouviram naquele regresso, palavras nostálgicas e proféticas:
"Dantes ainda tínhamos o Porto", disse.
Não é a estética do fracasso, Franciso. É o verídico medo de o sermos.



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