Pelo direito a viver junto

Sobre as duas mulheres que se propuseram a casar na conservatória, Pacheco Pereira diz, em prosélita retórica, que a aspiração ao casamento é conservadora e que os homossexuais deviam mais é ser revolucionários deixando-se destes arcaísmos legais vindos dos sacramentos religiosos. Eu até compreendo o argumento e, na verdade, Foucault diz coisas bastante mais revolucionárias e disruptivas do aquela minudência revolucionária que Pacheco Pereira cita por interposto leitor (para quê fazer da sexualidade uma questão de identidade pública num mundo onde não deveriam existir gays, heteros, homens, mulheres mas só prazeres e corpos - é o que de mais radical Foucault propõe).

Agora, e aqui não vale a pena artifícios retóricos de nenhuma ordem, qualquer pessoa deve ter o direito a casar e o direito a não casar por sua opção. Eu, que não tenho nenhuma especial afeição pelo casamento e até tenho um bom repertório de piadas cínicas, era capaz de fazer greve de fome até chegar ao pão de água se por alguma razão ele me fosse proibido. Aquilo que é conservador ou revolucionário é definido pelo lado em que está a hegemonia, a ordem, a prescrição e a proibição. O mundo de corpos e prazeres está obviamente demasiado longe (a teoria queer sabe-o) e enquanto não houver pessoas dispostas a assumir identidades sexuais e a lutar por elas só se reforça a presunção da heterossexualidade como regra. E a regra da exclusão. E Pacheco Pereira que não tolo nenhum sabe-o muito bem.



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